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Resenha: Persuasão – Jane Austen

Só havia lido Orgulho e Preconceito da Jane Austen lááá em 2007, e confesso que na época não gostei e penei pra terminar. Mas em Persuasão, fiz as pazes com a autora, já que percebi que, na verdade, eu é que não compreendia seu estilo e genialidade literária.

É comum associar os livros da autora a meros romances “banais” água com açúcar, mas uma segunda leitura permite uma compreensão das ironias finas nas entrelinhas, além de frases marcantes que contém uma crítica feroz à sociedade rural britânica do século XIX.

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Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Em “Persuasão”, acompanhamos a protagonista Anne Elliot, filha de Sir Walter Elliot, um baronete mesquinho, esnobe e vaidoso. Anne é uma mulher inteligente, graciosa, bonita, mas ainda solteira aos 28 anos. Quando era mais nova, foi noiva de Frederick Wentworth, um jovem inteligente e ambicioso, mas que não tinha tradições ou conexões familiares importantes. Anne foi persuadida pela família a romper o relacionamento, mas 8 anos depois, terá que lidar com a volta de Frederick e uma nova vida, longe da casa onde sempre viveu.

“Mas Anne, cujo caráter elegante e trato gentil teriam lhe garantido um lugar de destaque em qualquer grupo dotado de real discernimento, não era ninguém nem aos olhos do pai, nem aos da irmã; sua palavra nada valia, seu papel era ceder sempre – ela era apenas Anne”.

A edição da Zahar que eu li tem uma apresentação bem interessante de Ricardo Lísias: um panorama que engloba tanto Persuasão como as outras obras de Austen. No texto, ele comenta que “Assim como o cenário e as personagens, o estilo de Jane Austen não varia entre seus romances. Os textos são límpidos, redigidos de forma clara e sem sobressaltos. Às vezes, as descrições ameaçam exceder-se, mas o domínio técnico da autora, incomum e vistoso, interrompe-as antes do exagero. Normalmente ela faz isso utilizando o diálogo“.

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Outra observação de Lísias que concordei e acho bastante válido ressaltar é que “não estamos diante de um livro de suspense, mas logo intuímos que há muito mais por baixo da aparente placidez desses parágrafos, construídos com graça e equilíbrio“.

“Eram esses os sentimentos e as sensações de Elizabeth Elliot; essas as preocupações que temperavam e as agitações que animavam a mesmice e a elegância, a prosperidade e o vazio de sua vida; esses os sentimentos que davam colorido à longa e tediosa residência em uma mesma comunidade rual, e preenchiam os tempos mortos, na existência de um hábito útil fora de casa, um talento ou uma realização doméstica para ocupá-los.”

Não é fácil comentar sobre a história em si, porque o livro é composto de descrições e diálogos entre personagens. Dessa forma, a ação narrativa não é o elemento primordial neste livro. É necessário ler com calma e paciência, porque Austen é uma autora que prioriza a sutileza e o olhar sobre as relações familiares e sociais da época. A política, ainda que apenas como eco, também está ali no romance, mesmo que não seja o foco da autora. Ainda segundo Lísias, “[…] para ela, as implicações de um olhar terminavam na análise do preconceito social da classe burguesa rural da Inglaterra do século XVIII“.

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Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

O título “Persuasão” é bem interessante, porque o tempo todo encontramos essa palavra “pulando” das páginas, mostrando inúmeras situações em que os personagens precisam ou são persuadidos de alguma maneira. Convencer e persuadir uns aos outros, é esse o elemento principal da história de Anne Elliot, Elizabeth, Sir Walter, Wentworth, e outros personagens que tornam este livro tão encantador.

Não espere uma epopéia, uma história repleta de acontecimentos ou um texto romântico. Austen é cínica, assim como sua obra, o que a torna mais elegante e sofisticada na escrita. Não deixem de ler! 🙂

A edição que li é seguida de duas novelas inéditas em português: Lady Susan, uma narrativa epistolar em que a personagem-título, uma aristocrata deliciosamente perversa, procura manipular a todos os parentes conforme seus interesses, e Jack e Alice, que se passa em uma festa a fantasia, onde, pouco a pouco, a identidade dos convidados vai sendo revelada. Deixei as novelas de lado, portanto não posso comentar, mas essa edição é excelente, principalmente por conta das notas de rodapé e da contextualização da época e da vida de Jane Austen.

“Anne ficou convencida, pela expressão das duas moças, que isso era justamente o que elas não queriam, e mais uma vez admirou o tipo de necessidade que os hábitos familiares pareciam produzir de que tudo devia ser comunicado, e todas as atividades realizadas em conjunto, por mais indesejável e inconveniente que isso fosse.”

Só preciso ressaltar uma coisa: não abandone o livro! Por mais que, em alguns momentos, a história esfrie e não dê tanta vontade de continuar, a dica é prestar bastante atenção em cada frase do livro. O close reading (já comentei sobre isso aqui no blog) é essencial nas obras da escritora. Boa leitura!

Persuasão Jane Austen Livro

Título original:  Persuasion
Autor: Jane Austen
Editora: Zahar
Número de páginas: 300
Ano: 2012
Gênero: Clássico/Romance/Literatura Estrangeira
NotaEstrelaEstrelaEstrelaestrela vaziaestrela vazia


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Escrito por:

Isabela Zamboni


13 autores best seller dão dicas para iniciantes

O caminho percorrido por autores iniciantes eu busca de “um lugar ao sol” raramente é fácil. São diversas dificuldades que cada um enfrenta para, finalmente, conseguir realizar o sonho de ser publicado. Durante meus anos com foco em reportagens literárias pude entrevistar diversos autores best seller e, muitas vezes abordava o tema. O resultado você confere abaixo: um compilado de entrevistas com dicas preciosas para autores que estão iniciando sua carreira!

Autores best seller dão dicas para iniciantes

Foto: Divulgação – Anna Todd – Harlan Coben – Cornelia Funke e Alyson Noel

AUTORES INTERNACIONAIS

Anna Todd

“Sim! Eu comecei com zero leitores, como todo mundo. Eu diria que é muito importante não focar na negatividade. Se eu tivesse parado de escrever por causa de algumas provocações on-line, eu nunca teria chegado até aqui”.

Harlan Coben

“A coisa mais importante é bastante óbvia: escreva o máximo que você puder. Se você tem um diário, isso é ótimo. Apenas continue escrevendo, mesmo que não seja bom. A coisa mais importante que um jovem escritor deve saber é que não tem que ser bom, você apenas precisa continuar a escrever. É como um exercício, se você o fizer errado ainda assim ficará mais forte, desde que continue fazendo. Se você, por exemplo, quiser jogar futebol, você não tem que dar um chute perfeito de primeira, o que importa é que quanto mais você fizer, melhor ficará a sua técnica. Então, para começar, apenas escreva. Não ligue se está bom ou não, não ligue se alguém quer publicar ou não, apenas escreva um pouco todo dia”.

Veja também: 5 livros para escritores iniciantes 

Cornelia Funke

“Tenha sempre um caderno e uma caneta com você. As ideias sempre vêm em horas e momentos errados e você precisa pegá-las. Seja curioso sobre tudo – dentro e fora de você. Alimente sua imaginação com a sua vida. Não viva apenas nos livros. Faça a sua escrita expressar o que você sente sobre o mundo. E… tente escrever à mão. Você se surpreenderá com a diferença de escrever em um computador. Deixe-o para seu segundo rascunho. E aí, reescreva, reescreva, reescreva… Eu faço isso pelo menos oito vezes para cada livro”.

Alyson Noel

“O segredo é que não tem segredo! Não há nada que um escritor possa fazer pra virar bestseller, assim como você não tem como saber quais livros vão ter um grande público e porquê. Tudo o que um escritor pode fazer é dedicar o máximo de si mesmo a um livro, escrever o melhor que pode e, nesse período, ir o mais fundo possível na história, criar um mundo vibrante, recheado de personagens fortes – e aí cruzar os dedos quando for lançado e começar o próximo trabalho. Alguns livros dão certo, outros não, mas desde que haja histórias pra contar, nós seguimos  e escrevemos, não importa o que aconteça”.

Kiera Cass

“Leia tudo! Mesmo coisas que você acha que vai odiar. Isso ajuda você a definir a sua própria ‘voz'”.

C. C. Hunter*

“Tenho alguns. O primeiro conselho é: escreva. Muita gente quer ser escritor, mas não dedica tempo suficiente a isso. Você tem que amar escrever para ser um escritor. Você tem que gostar ainda mais que sair para almoçar com seus amigos, ou assistir TV, ou ir às compras. Você tem que se dedicar ao ofício. O segundo conselho é: nunca pare de aprender, fazer cursos, ler livros sobre como escrever. Pratique com outros escritores e critiquem os textos uns dos outros. O terceiro conselho é: nunca, nunca, desista! Eu escrevi durante anos antes de finalmente vender o meu primeiro livro. Então, escrevi por mais treze anos antes de vender meu livro seguinte. Se você quer, de verdade, ser um escritor, não deixe que nada (rejeição ou críticas negativas, ou a vida) faça você desistir de perseguir esse sonho. Você não pode parar de viver, então faça sim todas as coisas que citei, mas com moderação, porque escrever é importante. Se quiser mesmo ser escritor, não veja isso como um hobby, e sim como uma carreira, mesmo antes de se tornar realidade”.

*Entrevista: Divulgação / Jandaia.

Cecily von Ziegesar

“Leia tudo. Leia, leia, leia. E quando você tiver uma ideia, coloque no papel”.

Autores best seller dão dicas para iniciantes

Foto: Divulgação – Carolina Munhoz – Lycia Barros – Maurício Gomyde – Paula Pimenta

AUTORES NACIONAIS

Carolina Munhóz

“Tenha foco! Saiba o que você quer para a sua vida e trace um caminho até o se objetivo. Para isso você tem que ler muito e estudar bem o mercado”.

Lycia Barros

“Leia muito e não desista! A profissão é realmente difícil no Brasil, mas se você se aplicar para escrever bem, ser persistente e batalhadora, com certeza encontrará seu lugar ao sol”.

Maurício Gomyde

“Se for para ser só uma dica, eu digo: Escreva todos os dias!”.

Paula Pimenta

“Em primeiro lugar, acho que é importante ler muito. Geralmente, quem gosta de ler e tem esse hábito, escreve bem. Devemos também escrever sobre o que gostamos, pois quando escrevemos com paixão, os leitores sentem isso. Escrever sobre o que realmente conhecemos é importante também. Ao escolher um tema, certifique-se que você domina o assunto, para não se perder no meio da história. Depois que o livro estiver pronto, é preciso muita paciência e força de vontade pra procurar uma editora. Acho que esses são os passos fundamentais para quem quer escrever e publicar um livro”.

Laura Conrado

“O caminho a gente faz caminhando! Não adianta você ficar sonhando muito ou esperando uma oportunidade que não vai surgir sozinha. Vocês tem que começar a escrever e ler muuuuuuuuito, porque, quando você lê, você descobre qual estilo de livro você gostaria de escrever, aquele que mais te interessa. Além disso, você vai aumentar seu repertório de palavras! Então, para começar, tentem escrever! Não gostou? Façam de novo. Não tenham apego demais ao seu texto, apaga e faça de novo. Tentem cada vez mais! Aprendam a aceitar os “nãos” que podem aparecer, para entender as críticas e também para realmente entender que a profissão de escritor é igual a qualquer outra! Não é porque eu escrevo livros que eu sou mais importante ou especial que outra pessoa”.

Drica Pinotti

“O maior problema de um escritor é a falta de produtividade, eu mesma sou vítima dela. São tantas distrações nas mídias sociais e tantos os chamados para viver o mundo que acontece do lado de fora da janela, que manter a disciplina de trabalho é um grande problema pra mim. Acho que o conselho que eu daria é: foco no seu trabalho, crie uma disciplina possível e aconteça o que acontecer, não saia dela! Produza muito e tenha um bom agente para trazer as melhores propostas até você. Escreva sobre assuntos que você gosta e conhece. Escrever deve ser divertido e compensador no sentido da realização. Divulgue seu livro com amor e dedicação, só assim o sucesso chegará até você”.

* Todas as entrevistas foram feitas por mim (Melissa Marques). As completas estão publicadas e disponíveis para leitura no site todateen.


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Escrito por:

Melissa Marques


10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Se você, como eu, tem uma paixão por bibliotecas, vai se encantar com essa lista publicada pela BBC. Várias pessoas votaram e escolheram as bibliotecas mais incríveis espalhadas pelo mundo afora. Tudo bem que a lista é bem restrita a poucos países, mas vale a pena dar uma conferida:

1- El Escorial, em Madrid, Espanha

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Ken Welsh/Alamy

Imagina entrar em uma biblioteca com essas pinturas incríveis? Não sei ao certo como funciona, mas parece tão “patrimônio”, que acho difícil alguém realmente usar essa biblioteca no dia a dia. Mas ainda assim, vale a visita!

2 – Biblioteca Pública de Vancouver, Canadá

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Robert Harding Picture Library Ltd/Alamy

Essa biblioteca é realmente incrível! Muitos e muitos andares, com janelas de vidro enormes… o acervo deve ser gigante também. Quero já!

3 – Biblioteca Bodleian em Oxford, Inglaterra

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Oxford Picture Library/Alamy

Achei essa biblioteca meio escura demais, mas o acervo de livros deve ser incrível.

4 – Biblioteca da Universidade de Trinity, em Dublin, Irlanda

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: JLBvdWOLF/Alamy

Imponente essa biblioteca, não é? Poderia passar horas e horas passeando entre as prateleiras!

5 – Biblioteca Pública de Boston, EUA

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Sean Pavone/Alamy

Essa tem uma carinha mais amigável, bem iluminada, com bastante espaço para estudar e ler em paz.

6 – Ruínas da Biblioteca de Celsus, na antiga cidade de Éfeso

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Brian Jannsen/Alamy

Essa é mais um ponto turístico/arquitetônico, já que se trata de uma biblioteca em ruínas. Mas ainda assim, que maravilhoso!

7 – Biblioteca do Congresso de Washington, DC, EUA

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Jon Bilous/Alamy

Será que Frank Underwood já andou por essa biblioteca? haha! Magnânima, gigantesca… imagina só o acervo de livros desse lugar!

8 – Biblioteca John Rylands, em Manchester, Inglaterra

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Russell Hart/Alamy

Me lembrou um pouco cenário de Harry Potter! Mas parece um local enorme e lindo de visitar.

9 – Biblioteca Sainte-Geneviève, em Paris

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Sainte-Genevieve Library/Marie-Lan Nguyen/Wikimedia Commons

Essa foi a que eu achei mais incrível. Tão organizada e imponente! Essa simetria da foto dá impressão de ser um lugar muito extenso.

10 – Sala de Leitura de Picton, na Biblioteca Central de Liverpool, Inglaterra

10 bibliotecas mais bonitas do mundo, segundo a BBC

Foto: Mike Kipling Photography/Alamy

Lembra um pouco as grandes livrarias brasileiras, principalmente a Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

O que vocês acham? Concordam com a lista da BBC? 🙂

Saudade, Cosac!


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Escrito por:

Isabela Zamboni


Resenha: Livro de Marcar Livros – Increasy Consultoria Literária

Resenha: Livro de Marcar Livros

Foto: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Ano passado fiquei sabendo da novidade e não resisti: comprei o meu Livro de Marcar Livros no Submarino em uma superpromoção.

Ótimo para leitores apaixonados por organização, o Livro de Marcar Livros é tudo o que você precisa para anotar suas leituras. Indico para quem busca algo como um “diário literário”, ideal para o período de um ano.

Dá para programar sua participação em eventos literários, anotar os livros lidos, os livros indicados por amigos, frases favoritas… E tem até um espaço para suas fotos com autores!

Resenha: Livro de Marcar Livros

Foto: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Por mim, ele seria um pouquinho maior, do tamanho de um livro convencional mesmo. O espaçamento entre as linhas é ideal e a quantidade delas também. (Porém, alguns leitores reclamaram dizendo que as páginas dedicadas a algumas categorias não era suficientes).

Clique abaixo para comprar o seu!

Além disso, existem diversos desafios literários superlegais para quem quer se aventurar pelo mundo da literatura: que tal ler todos os ganhadores do Pulitzer? Ou ainda, do Prêmio Nobel de Literatura? Tem para todos os gostos!

Enfim, é um livro interativo completo e divertido!

Resenha: Livro de Marcar Livros

Foto: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Resenha: Livro de Marcar LivrosTítulo original: Livro de Marcar Livros
Autor: Increasy Consultoria Literária
Editora: Verus Editora
Número de páginas: 200
Ano: 2015
Gênero: Memória
Nota: EstrelaEstrelaEstrelaEstrelaestrela vazia


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Escrito por:

Melissa Marques


Resenha: As Três Irmãs – Anton Tchekhov

Sempre ouvi falar muito bem de Anton Tchekhov, mas não conhecia nenhuma obra do autor. Então, encontrei esse livro no sebo e resolvi apostar na peça de teatro “As Três Irmãs”, considerada por muitos a obra-prima do autor russo. E essa obra não decepciona nem um pouco! Aliás, me surpreendeu com tantos diálogos incríveis.

Resenha: As Três Irmãs - Anton Tchekhov

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Em suma, a peça narra a história de três irmãs: Olga, Irina e Macha, que vivem há bastante tempo na província em companhia de seu irmão Andrei. Aqui encontramos três mulheres com personalidades fortes e distintas. Olga é uma mulher solteira que se aproxima dos 30 anos: vê os anos passarem e com eles a oportunidade de se casar; Macha é esposa de um ex-professor que está frustrada com seu casamento; Irina, a mais nova das irmãs, é a mais delicada e esperançosa, aquela que ainda acredita no futuro.

Para estas irmãs, Moscou é sua única salvação, local onde passaram a infância e desejam retornar imediatamente. No entanto, o tempo passa, e essa vontade vai ficando cada vez mais enterrada no passado.

Também conferimos na peça o comandante Verchinin (que se apaixona por Macha) e seu destacamento chegarem à província. Dois dos oficiais de Verchinin fazem a corte a Irina. Nesse meio tempo, enquanto as irmãs resolvem seus “problemas” (aumentados de tamanho), Natália, esposa de Andrei, passa a dominar a casa.

A peça é dotada de diálogos incríveis: questionamentos sobre a vida provinciana, a necessidade de trabalhar, as imposições que fazemos a nós mesmos e nunca conseguimos cumprir, os desejos abandonados e a frustração iminente de uma classe social desiludida, representada pelas três irmãs.

Para comprar o livro, é só acessar o link abaixo:

Fiz tantos grifos no livro que é até complicado transcrever todas as falas que achei pertinentes para ressaltar a obra do autor russo.

“O homem deve trabalhar, trabalhar até a última gota de seu suor… Cada homem, sem exceção. Está nisso o objetivo e o sentido de sua existência, sua felicidade, sua alegria. Ser um operário que levanta de madrugada e vai quebrar pedras na rua…” (p.17)

O livro é curtinho e consegui devorar em dois dias. Nunca uma peça de teatro mexeu tanto comigo! A genialidade de Tchekhov é tamanha que é possível identificar-se com a situação, as personagens e o contexto histórico mesmo estando a anos e quilômetros de distância da Rússia do ano 1900.

“Sim, seremos todos esquecidos. É a vida e nada podemos fazer. O que nos parece importante, grave, pesado de consequências, um dia será esquecido e deixará de ter importância. E o curioso é que não podemos saber hoje o que um dia vamos considerar grande ou importante, medíocre ou ridículo.” (p.29)

Resenha: As Três Irmãs - Anton Tchekhov

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

“Daqui a mil anos o homem suspirará como hoje: ‘Ah! Como a vida é dura!’. Mas, da mesma maneira que hoje, terá medo e não quererá morrer”. (p. 66)

Essa fragilidade do ser humano, a necessidade de autoafirmação de que trabalhar é preciso, trabalhar é solução para tudo, o trabalho enaltece o homem, trabalhar, trabalhar… É frustrante demais, ainda mais em pleno 2016, quando a exploração só aumenta ao invés de diminuir. Ao mesmo tempo em que o modo de trabalhar sofreu alterações, a nossa dependência parece crescer. Essa sensação de estarmos sempre com a corda no pescoço e enjaulados pela rotina de “trabalhar por dinheiro” é desesperadora.

No contexto da peça, no entanto, o autor parece enaltecer o trabalho a fim de criticar uma família provinciana que não deseja nada além de bem-estar, conforto e os luxos que só o dinheiro pode proporcionar. Analisando o contexto russo, percebe-se a ironia do autor, mas o livro é complexo o suficiente para fazer com que os leitores de hoje reflitam sobre as condições atuais em relação ao trabalho e toda a dignificação da ideia de que “trabalho é tudo nessa vida”.

Ler Tchekhov além de trazer um alívio, também é triste. Quando lemos a sentença “da mesma maneira que hoje, o homem terá medo e não quererá morrer”, percebe-se como os nossos temores, não importa onde nem quando, serão sempre os mesmos.

Para finalizar, só tenho a dizer: leiam essa peça incrível!

LEIA TAMBÉM

Resenha: As Três Irmãs - Anton Tchekhov

Título original: Tri Sestri
Autor: Anton Tchekhov
Editora: Nova Cultural
Número de páginas: 158
Ano: 2002
Gênero: Teatro
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Escrito por:

Isabela Zamboni


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