Resenha: O Filho de Mil Homens – Valter Hugo Mãe

Li O Filho de Mil Homens por indicação de um amigo e tive a melhor surpresa possível! O autor português Valter Hugo Mãe utiliza a língua portuguesa com tanta maestria que suas palavras permanecem mesmo após o fim da leitura. É incrível!

Resenha: O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

José Saramago, em 2007, comparou a experiência de ler este livro a “assistir a um novo parto da língua portuguesa“. Exato: é como uma nova língua, um português transformado, com uma sentença mais poética e sensível do que a outra. Um livro para agarrar e não soltar mais. A prosa fantástica de Valter Hug Mãe é leve e sutil, com personagens densos, bem-construídos e que nos fazem pensar (e sonhar) a cada segundo.

Durante o processo de leitura fiquei tão encantada, que parava pra ler diversas vezes o mesmo parágrafo. Coloquei muitos adesivos para me lembrar das lindas citações e colocá-las aqui no blog. Mas, antes de mais nada, vamos à sinopse:

Com vontade imensa de ser pai, o pescador Crisóstomo, um homem de quarenta anos, conhece o órfão Camilo, que um dia aparece em sua traineira. Ao redor dos dois, outros personagens testemunham a invenção e construção de uma família em vinte capítulos. Valter Hugo Mãe, ao falar de uma aldeia rural e dos sonhos anulados de quem vive nela, atravessa temas como solidão, preconceitos, vontades reprimidas, amor e compaixão.

As personagens são complexas e apaixonantes. Isaura, Crisóstomo, Camilo, Matilde, Mininha, são os moradores de um vilarejo sofrido – apenas pessoas comuns tentando o melhor de si para encontrar a felicidade.

Resenha: O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Não conseguia parar de devorar as páginas, apenas para descobrir um final incrível – desfecho emocionante para uma história trágica de início. Não vou revelar detalhes, mas pense num livro que vai te transformar.  São diferentes temáticas em pouco mais de 200 páginas: machismo, preconceito, solidão, tristeza, família… Aliás, o novo conceito de família que esta obra aborda é perfeita para os dias de hoje.

Ser o que se pode é a felicidade. (p.77)

O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. (p.188)

Se você procura uma leitura enriquecedora, encontrou o livro certo! Sem contar que a edição da Globo Livros é incrível, tanto no acabamento, como na diagramação e no papel mais encorpado.

Não vejo a hora de ler os outros livros do Valter Hugo Mãe 🙂

Resenha: O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

Resenha: O Filho de Mil Homens - Valter Hugo MãeTítulo original: O Filho de Mil Homens
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Globo Livros
Número de páginas: 224
Ano: 2016
Gênero: Romance
Nota: EstrelaEstrelaEstrelaEstrelaEstrela


2 Comentários
Escrito por:

Isabela Zamboni


Resenha: E não sobrou nenhum – Agatha Christie

Comecei E não sobrou nenhum por indicação de amigos e blogueiros literários. Todas as resenhas que li até hoje sobre a obra sempre foram otimistas e categóricas: trata-se do melhor romance policial da Rainha do Crime! Talvez tenha iniciado a leitura com a expectativa altíssima. Não me desiludi, mas também não achei absolutamente genial – como achei Assassinato no Expresso do Oriente.

Resenha: E não sobrou nenhum - Agatha Christie

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Vale lembrar que E não sobrou nenhum era, antigamente, conhecido como O caso dos dez negrinhos. Por questões óbvias para a atualidade, acharam melhor revisitar a obra.

No começo, somos apresentados a dez personagens principais, e acompanhamos sua viagem de trem a Ilha do Soldado, a convite de um anfitrião bastante peculiar.

Literalmente entramos na cabeça dessas pessoas: ouvimos seus desejos e pensamentos mais íntimos e sombrios.

Ao chegarem, uma série de eventos estranhos começam a acontecer: o anfitrião não dá às caras – ninguém nunca o viu pessoalmente -, a Ilha fica extremamente isolada e, durante a primeira noite na casam em um jantar, todos os convidados ouvem, através de um sistema de som, inúmeras acusações seríssimas sobre assassinatos que cada um teria cometido.

À partir daí, o caos se instaura.

VEJA TAMBÉM

RESENHA: A MANSÃO HOLLOW – AGATHA CHRISTIE
RESENHA: MORTE NA MESOPOTÂMIA – AGATHA CHRISTIE
RESENHA: ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE – AGATHA CHRISTIE

Resenha: E não sobrou nenhum - Agatha Christie

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

A Ilha também é repleta de simbolismos: chama-se Ilha do Soldado, cada quarto conta com um poema infantil sobre soldadinhos e, na mesa de jantar, dez estátuas de soldados encaram os convidados.

Para piorar o clima, acontece a primeira morte. Cada uma delas, coincidentemente, ocorre exatamente como descrito no poema “E não sobrou nenhum”, que está presente em cada um dos quartos dos hóspedes.

Dez soldadinhos saem para jantar, a fome os move;
Um deles se engasgou, e então sobraram nove.

Nove soldadinhos acordados até tarde, mas nenhum está afoito;
Um deles dormiu demais, e então sobraram oito.

Oito soldadinhos vão passear e comprar chiclete;
Um não quis mais voltar, e então sobraram sete.

Sete soldadinhos vão rachar lenha, mas eis;
Que um deles cortou-se ao meio, e então sobraram seis.

Seis soldadinhos com a colmeia, brincando com afinco;
A abelha pica um, e então sobraram cinco.

Cinco soldadinhos vão ao tribunal, ver julgar o fato;
Um ficou em apuros, e então sobraram quatro.

Quatro soldadinhos vão ao mar; um não teve vez;
Foi engolido pelo arenque defumado, e então sobraram três.

Três soldadinhos passeando no zoo, vendo leões e bois;
O urso abraçou um, e então sobraram dois.

Dois soldadinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então sobrou só um.

Um soldadinho fica sozinho, só resta um;
Ele se enforcou,
E não sobrou nenhum.

Resenha: E não sobrou nenhum - Agatha Christie

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Além disso, a cada morte, uma das estatuetas de soldado acaba sumindo.

Quem estaria por trás disso tudo? Quem é o próximo a morrer? Eles conseguirão fugir da Ilha antes de todos serem mortos? E o mais importante: como todos os assassinatos foram planejados e executados?

Ao longo da história, é claro, você tenta responder essas e outras questões e, mais uma vez, acaba se surpreendendo com o fim da narrativa.

A BBC, inclusive, fez uma minissérie especial adaptando o livro para a tv. Confira um trecho de quando os convidados chegam na ilha:

Sensacional, né? Adorei e já quero assistir!

Capa do livro E não sobrou nenhum - Agatha Christie

Título original: And Then There Were None
Autora: Agatha Christie
Editora: Globo Livros
Número de páginas: 400
Ano: 2014
Gênero: Ficção/Policial
Nota: EstrelaEstrelaEstrelaEstrelaestrela vazia


2 Comentários
Escrito por:

Melissa Marques


Resenha: A Redoma de Vidro – Sylvia Plath

A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, conta a história de Esther Greenwood, uma mulher brilhante, bonita e talentosa, mas lentamente em declínio, se sentindo cada dia mais sufocada e presa dentro de si mesma. A obra de Plath nos leva para uma viagem dentro de uma psique obscura e perturbada, utilizando as palavras com tamanha intensidade, que o sofrimento da personagem torna-se quase palpável.

“Eu via os dias do ano se estendendo diante de mim como uma série de caixas brancas e brilhantes, separadas uma da outra pela sombra escura do sono. Só que agora a longa perspectiva das sombras, que distinguia uma caixa da outra, tinha subitamente desaparecido, e eu via os dias cintilando à minha frente como uma avenida clara, larga e desolada até o infinito.”

A narrativa em primeira pessoa enfatiza a alienação da personagem – dela mesma, da sociedade e do mundo em que vive. No início, acompanhamos a trajetória de Esther durante um estágio em uma revista de moda de Nova York – trabalho cheio de glamour, jazz, roupas caras, festas e homens. Mas, para a protagonista, nada disso importa, já que a sensação de vazio nunca passa.

“Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.”

A história é contada de maneira simples, porém com uma temática complexa. O estilo de Plath é irônico, engraçado, direto e, ao mesmo tempo, poético. As páginas fluem rapidamente e a personagem é cativante com seu espírito perturbado, porém sagaz.

Resenha: A Redoma de Vidro - Sylvia Plath

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

As revistas de moda e a mídia em geral influenciam diretamente as mulheres em relação à sua imagem e o papel que “devem” desempenhar na sociedade da década de 50. Ao mesmo tempo, o livro mostra como pode ser cansativa a vida de mulheres que precisam ao mesmo tempo buscar uma carreira de sucesso e ainda serem mães/donas de casa perfeitas. Qual é, na verdade, seu papel no mundo? O que é mais importante? Casamento ou carreira?

“…estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.”

A Redoma de Vidro é um retrato cru de uma jovem passando por uma severa depressão. Contudo, na época em que Esther vivia, os médicos e psiquiatras acreditavam que a terapia de choque e a internação em clínicas que faziam uso de medicamentos pesados seria a solução para qualquer doença mental. A desinformação e a falta de empatia das pessoas ao redor da protagonista só servem para piorar sua situação, principalmente sua mãe, que se mostra (aos olhos da personagem) uma pessoa fria e desinteressada nos problemas da filha.

“Respirei fundo e ouvi a batida presunçosa do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou.”

Filmes como “Um Estranho no Ninho” (1975) e “Garota, Interrompida” (1999) abordam temáticas similares à obra de Plath. A vida no hospício e as torturas psicológicas vividas pelos personagens destes longas-metragens lembram o sofrimento de Esther, que passa por situações parecidas na trama do livro.

Resenha: A Redoma de Vidro - Sylvia Plath

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

O mais triste é saber que A Redoma de Vidro é o único e último romance de Sylvia Plath, que suicidou-se pouco tempo depois. Muitos dizem que a obra é uma autobiografia da autora, que passava por crises graves de depressão. Recomendo a leitura, pois nem sempre conseguimos entender o sofrimento causado por uma doença tão terrível, e é mais que necessário tratar dessa temática na atualidade.

Para comprar o livro, é só adquirir pelo link abaixo:

LEIA TAMBÉM

A redoma de vidro - Sylvia Plath

Título original: The Bell Jar
Autora: Sylvia Plath
Editora: Globo Livros
Número de páginas: 280
Ano: 2010
Gênero: Ficção / Thriller Psicológico
Nota1 estrela1 estrela1 estrela1 estrela1 estrela


3 Comentários
Escrito por:

Isabela Zamboni