Resenha

Resenha: Amar se Aprende Amando – Carlos Drummond de Andrade

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

Amar se Aprende Amando foi o último livro que li em 2018 e, curiosamente, o último livro publicado em vida pelo autor Carlos Drummond de Andrade.

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A obra tem como subtítulo a frase “poesia de convívio e de humor”. O livro é dividido em três grandes partes: 1) CARTA DE GUIA (?) DE AMANTES, 2) O CONVÍVIO IDEAL e 3) ALEGRIAS E PENAS POR AÍ.

A obra aborda – além do amor romântico e do sentimento amoroso sublime – as dimensões práticas e políticas do sentimento na vida cotidiana. Amar se Aprende Amando mescla muito bem a emoção, o momento político e experiências do autor. Alguns versos, bastante pessoais, me chamaram a atenção. Confira abaixo:

Resenha: Amar se Aprende Amando - Carlos Drummond de Andrade
FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

ODYLO, NA MANHÃ

Manhã de domingo. Odylo nos deixa.
Domingo, a pausa de Deus, logo de manhã,
à hora singela do café.
Domingo, tempo de paz. Odylo é pacífico.
Uma dor antiga, instalada em seu flanco esquerdo
(para não dizer que na alma se instalou),
acompanha com fidelidade os seus passos
e não o torna amargo ou revoltado.
De fala mansa, Odylo,
e doce coração, convive com ela
como o irmão conversa com o irmão,
e o amigo no amigo se contempla: sem palavras.
Eis que recebe o súbito chamado.
Odylo, poeta e repórter, acontece-lhe isto:
Deus é que vai entrevistá-lo
e mostrar-lhe face a face
a poesia sem versos do Inefável.
Odylo parte na manhã de domingo,
transportado – não vi, que meus olhos precários
se ofuscam à visão dessas coisas altíssimas -,
transportado por teorias de anjos exatamente da cor e do talhe
dos pintados por Nazareth, pintora de anjos, crianças e sonhos.
A dor antiga o abandona para ceder espaço
à Esperança recompensada.
Odylo sobe e logo à porta de Deus vai encontrar
seus filhos que chegaram tão cedo. E amigos e companheiros
(seu padrinho Manuel, entre muitos).
Não vi, que essas altíssimas coisas fogem à minha tosca percepção,
mas facilmente um cristão imagina
o sorriso de Odylo, respondendo
domingo de manhã
ao sorriso de Deus.

21/08/1979

p. 63

Além disso, pude perceber que, infelizmente, certos detalhes do momento político descrito por Drummond em Amar se Aprende Amando estão se repetindo… É amedrontante e, ao mesmo tempo, frustrante entender o quanto a história pode se tornar algo cíclico.

” RELATÓRIO DE MAIO

[…] o delegado saiu prendendo
cortando cabelo
mandando dormir mais cedo
naquele maio
a Bolsa fechou por excesso de instruções
que mandavam fazer o oposto do contrário
ou
o contrário do contrário do contrário

[…]

o Ibope consolava o Governo
meu querido
saiba que tem havido outros piores
mas não pergunte mais que eu não respondo

p. 71

O sentimento amoroso que marca a obra do início ao fim acaba se tornando também o “filtro” usado pelo poeta para lidar com a realidade enfrentada no Brasil dos anos 60 aos anos 80: o amadurecimento do amor, bem como da obra, com o passar do tempo, é notório.

Amar se Aprende Amando conta ainda com posfácio de Fábio Cesar Alves, denominado “Amor em tempos sombrios”, além de algumas leituras recomendadas, cronologia – de 1902 até 1987 – fotos de Carlos Drummond de Andrade e índice de título e primeiros versos, que ajudam ainda mais a entender a obra Drummondiana.

* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

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Resenha: Amar se Aprende Amando - Carlos Drummond de AndradeTítulo original: Amar se Aprende Amando
Autor: Carlos Drummond de Andrade
EditoraCompanhia das Letras
Número de páginas: 184
Ano: 2018
Gênero: Poesia
Nota

Frases

21 frases e poemas de Carlos Drummond de Andrade

FOTO: Reprodução / Tumblr

Quem nunca ouviu falar que no meio do caminho tinha uma pedra? Ou que João amava Teresa que amava Raimundo? Sem dúvidas, alguns poemas do mineiro Carlos Drummond de Andrade fazem parte da vida dos leitores brasileiros. Drummond foi escritor, cronista, poeta e considerado um dos autores mais influentes do século XX! Relembre sua obra através de 21 frases e poemas:

21 frases e poemas de Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade FOTO: Reprodução

1. O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

2. A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca.

3. NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

______

4. No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.

5. Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

6. Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.

7. Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.

8. Como as plantas, a amizade não deve ser muito nem pouco regada.

21 frases e poemas de Carlos Drummond de Andrade
FOTO: Reprodução / Tumblr

9. RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

______

10. Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.

11. Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante.

12. As obras-primas devem ter sido geradas por acaso; a produção voluntária não vai além da mediocridade.

13. Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.

14. QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

______

15. A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

21 frases e poemas de Carlos Drummond de Andrade
FOTO: Reprodução / Tumblr

16. JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse….
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

______

17. Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo.

18. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chega a apertar o coração: é o amor!

19. Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata…

20. São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

21 frases e poemas de Carlos Drummond de Andrade
FOTO: Reprodução / Tumblr

21. OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

______

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Fonte: PensadorKDFRASES.

Resenha

Resenha: Sentimento do Mundo – Carlos Drummond de Andrade

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Sentimento do Mundo é um livro fantástico. Escrito por Drummond, em 1940, essa coletânea de poemas incríveis demonstra a sutileza e a maestria do autor, com palavras firmes, tocantes e avassaladoras.

Apesar de ser bem curtinho, com menos de 100 páginas, não é um livro para ser devorado, mas para ler aos poucos. Na obra, Drummond expõe a saudade de Itabira, sua cidade natal, e homenageia Rio de Janeiro, cidade onde passou boa parte de sua vida.

O mais interessante é notar como poemas de 1940 ainda se encaixam ao contexto atual. Muitas vezes, parando para ler com calma as estrofes, ficava maravilhada. O autor consegue, sem dúvidas, ser atemporal.

Para comprar o livro, é só clicar no link abaixo:

Nos versos de Drummond, conhecemos suas angústias, seus sentimentos mais honestos e a percepção de um Brasil que passava por uma situação delicadíssima na política – o Estado Novo de Getúlio Vargas. Além disso, o fascismo e o nazismo cresciam de forma assustadora na Europa (não muito diferente do que estamos vendo hoje sendo “propagado” nas redes sociais…).

Alguns poemas doem tanto que dá vontade de chorar. Eu sou chorona e me emociono fácil com palavras (como comentei na resenha de A Ignorância, do Kundera), mas na atual situação do Brasil, é difícil conter as emoções. Em Sentimento do Mundo, meus poemas favoritos são “Bolero de Ravel”, “O Operário no Mar”, “Os Ombros Suportam o Mundo”, “Elegia 1938” e “Poema da Necessidade”.

A alma cativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia.
Infinita, infinitamente… (p.43)

Um dos trechos que achei mais incríveis, no poema “Elegia 1938”:

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
[…]
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. (p.67)

Ao final do livro, a edição da Companhia das Letras traz uma minibiografia e a cronologia da vida do autor, destacando suas obras mais importantes. Drummond trabalhou mais de 60 anos como jornalista e realizou tantos trabalhos incríveis que não é à toa sua importância para a literatura brasileira e mundial. Cronista, poeta e romancista, Drummond é um gênio e seus livros deveriam estar na estante de todos – não somente dos vestibulandos.

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Resenha: Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de AndradeTítulo original: Sentimento do Mundo
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 96
Ano: 2012
Gênero: Poesia
NotaEstrelaEstrelaEstrelaEstrelaEstrela

Curiosidades

Três poemas de Carlos Drummond de Andrade foram descobertos em 2015!

FOTO: Murad Osmann

Três poemas de Carlos Drummond de Andrade foram descobertos em 2015!
FOTO: Flávio Veloso

Quantos tesouros não habitam uma biblioteca, não é mesmo?

Essa frase nunca fez tanto sentido quanto agora: através de uma pesquisa acadêmica, a estudante Mayra Fontebasso – que cursa o último ano de Letras na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – acabou descobrindo três poemas de Carlos Drummond de Andrade esquecidos pelo tempo.

Segundo o jornal O Globo, Mayra “encontrou os trabalhos quando fazia sua pesquisa de iniciação científica sobre textos literários publicados na revista “Raça”, editada em São Carlos entre 1927 e 1934, sob orientação do professor Wilton José Marques“.

Para entender melhor a origem dos poemas, estudante e orientador consultaram a Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Andrade (1918-1934), de Fernando Py, o Inventário Dummoniano, da Fundação Casa de Rui Barbosa e o crítico, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e especialista da obra de Drummond, Antônio Carlos Secchin.

Ao final, constataram que eram textos inéditos. Um deles, “O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica”, você pode conferir na íntegra, abaixo:

Projeto Follow Me To
FOTO: Murad Osmann

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica

Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…

As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…

As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…

As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…

Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho

Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…

Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…

E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…

E as mãos viúvas tateiam, insones, − as friorentas mãos viúvas…

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra

Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…

E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…

E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…

E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…

FONTE: O Globo