Resenha

Resenha: A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstói

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

Depois do pedido do amigo Ivan Turguêniev, Tolstói voltou a escrever, criando a novela A Morte de Ivan Ilitch, um de seus livros mais famosos e louvado entre os fãs de literatura russa.

Para quem não gosta muito de spoiler, o livro já é diferente: sabemos, obviamente, que o protagonista morre. Mas esse não é, nem de longe, o ponto principal da história. A Morte de Ivan Ilitch é muito mais sobre como levamos a vida.

No apêndice do livro, Paulo Rónai questiona: “[…] como poderíamos ficar empolgados pela saúde de Ivan Ilitch? Com efeito, que interesse pode despertar esse frio e pedante burocrata, essa personagem sem personalidade, de uma vida banal, inteiramente presa a conveniências sociais, e cuja doença e morte são também as mais vulgares possíveis?“. 

Vale ressaltar qual era o contexto pessoal que o autor vivia antes da escrita de A Morte de Ivan Ilitch: Tolstói havia abandonado a arte da escrita e renegado todas as suas obras antecessoras para se dedicar à vida espiritual. De família aristocrática, passou a ser considerado um “anarquista pacifista”.

A história começa com a notícia da morte de Ivan em seu trabalho; logo após, alguns companheiros aparecem na casa da viúva Prascóvia Fiódorovna para prestar suas condolências. A cena é cômica e parece muito ensaiada por todos os personagens. Como se o leitor estivesse assistindo a um teatro.

“A consciência do seu poderio, da possibilidade de aniquilar qualquer pessoa, a imponência, mesmo exterior, ao entrar no tribunal e nas entrevistas com os subalternos, o seu êxito diante dos superiores e dos que lhe eram subordinados e, sobretudo, a sua mestria em conduzir os casos criminais, que ele sentia, tudo isso alegrava-o e enchia-lhe a existência, a par das conversas com os amigos, os jantares e o uíste”. (P. 26)

A todo o instante, o autor “brinca” com essas cenas da vida cotidiana de Ivan Ilitch, cenas que mais parecem um passo a passo do que realmente a vida acontecendo. A aristocracia russa é fortemente criticada na obra e, aos poucos, através do protagonista, conhecemos seus anseios e medos.

Se para  Ivan Ilitch sua vida sempre fora motivo de orgulho, por sua retidão e senso de justiça, ao leitor é apresentado um personagem fraco, de ideais desimportantes, com hábitos que reverberam apenas para seguir o que é esperado e imposto socialmente para alguém como ele.

“Eles jantam e dispersam-se, e Ivan Ilitch fica sozinho, com a consciência de que a sua vida está envenenada, que ela envenena a vida dos demais e que este veneno não se enfraquece, mas penetra cada vez mais todo o seu ser”. (P. 43)

Sua doença, por fim, aparece como protagonista forte de um enredo muito bem construído. Ela abre a ferida da vida insignificante de Ivan, que não sabe muito bem lidar com os questionamentos que passam a surgir – e cada vez ficam  mais recorrentes – em sua cabeça.

Resenha: A Morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstói
FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

“- O que você tem? Está pior?
– Sim.
Ela meneou a cabeça, ficou um pouco sentada.
– Sabe, Jean? Eu penso se não seria bom chamar o Lieschtchítzki.
Isto significava chamar o médico famoso e não poupar despesa. Ele sorriu venenoso e disse: “Não”. Ela ficou sentada mais algum tempo, aproximou-se dele e beijou-lhe a testa.
Ele a odiava de todo o coração nos momentos em que ela o beijava, e fez um esforço para não a repelir.
– Boa noite. Se Deus quiser, você vai dormir.
– Sim.” (P. 48).

Ao sentir seu corpo definhando por causa de um rim e um ceco deslocados, Ivan se fecha aos familiares, amigos e, principalmente, a esperança. Aos poucos o leitor percebe a interferências dos sentimentos nas ações e diálogos – intrínsecos ou externos – do doente.

“Chorava a sua impotência, a sua terrível solidão, a crueldade dos homens, a crueldade de Deus, a ausência de Deus”. (P. 66).

A Morte de Ivan Ilitch ainda nos faz refletir sobre as respostas que buscamos: seja em nós mesmos, nos outros, ou em Deus (como quer que você o conceba). E que muitas vezes não encontramos. Enfim, não espere nenhuma grande redenção ou descoberta do protagonista: da mesma forma que ele surge, se esvai, deixando como lição o viver a sua própria vida, não a vida que esperam que você viva“.

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“Mas, por mais que pensasse, não encontrou resposta. E quando lhe vinha o pensamento, e vinha-lhe com frequência, de que tudo aquilo ocorria porque ele não vivera como se devia, lembrava no mesmo instante toda a correção da sua vida e repelia esse pensamento estranho”. (P. 68).

Uma das frases que mais me marcou foi a seguinte:

“O seu trabalho, o arranjo da sua vida, a sua família, e esses interesses da sociedade e do serviço, tudo isto podia ser outra coisa. Tentou defender tudo isto perante si. E de repente sentiu toda a fraqueza daquilo que defendia. E não havia o que defender”. (P. 72).

Paulo Rónai resume, dizendo: “[…] a narrativa de Tolstói nos parece a mais perfeita e a mais vigorosa, talvez por ter como argumento a própria morte sem rodeios nem disfarces, a transformação gradual de um homem vivo como todos nós em cadáver“.

Leitura recomendadíssima!

LEIA TAMBÉM

A Morte de Ivan Ilitch - Lev TolstóiTítulo original: Smert’ Ivana Ilyicha
Autor: Lev Tolstói
Editora: Editora 34
Número de páginas: 96
Ano: 2009
Gênero: Novela
Nota

Resenha

Resenha: Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

O clássico da literatura russa, Crime e Castigo, completou 150 anos em 2016, e é um daqueles livros que se mantêm atualizados até hoje. Ele retrata a vida de Rodión Románovitch Raskólnikov, um pobre estudante de direito de  São Petersburgo.

Em seu cubículo, que mais parecia um armário do que um apartamento, Ródia (como também é conhecido o personagem), acaba tornando-se uma pessoa apática e que evita ao máximo qualquer tipo de contato social.

Quebrado e necessitando de ajuda para sobreviver, Ródia envolve-se com a velha Aliena Ivánovna, uma agiota. A miséria de Ródia aliada à repugnância da “velha” acabam sendo relevantes para o desenvolvimento da trama, pois trazem à tona seu primeiro desejo de assassiná-la.

Resenha: Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski
FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Durante Crime e Castigo, Ródia retrata sua visão de como o crime cometido é justificável, pois, segundo o personagem, na história da humanidade, crimes podem se tornar “meios” para atingir um tipo de “bem maior” – algo que seja relevante para a sociedade, por exemplo, ou um tipo de pensamento vanguardista.

Essa ideia é exposta em uma conversa entre Ródia e o juiz de instrução, Porfiri Pietróvitch:

“[…] começando pelos mais antigos e continuando com os Licurgos, Sólons, Maomés, Napoleões etc., todos eles, sem exceção, foram criminosos já pelo simples fato de que, tendo produzido a nova lei, com isso violaram a lei antiga […] Mas se um deles, para realizar sua ideia, precisar passar por cima ainda de que seja de um cadáver, de sangue, a meu ver ele pode se permitir, no seu íntimo, na sua consciência passar por cima do sangue […]” p. 265 – 266

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Se tratando de um clássico como Crime e Castigo, espera-se que seja uma leitura densa, e que o tema tratado torne-o pesado. Porém, o fato de o livro ser denso não o faz chato, muito pelo contrário. Dostoiévski consegue entrar na cabeça do leitor quando insere sua tese-chave. A trama, por si só, já é “labiríntica”, segundo sua própria sinopse. No entanto, o que chama muito a atenção é a linguagem empregada pelo autor. Sua escrita é única, e varia conforme a ascendência do personagem. Há um certo tom de instabilidade no discurso de Dostoiévski, perfeitamente plausível, afinal, nas palavras do tradutor, Paulo Bezerra:

“[…] Likhatchóv aponta como centrais no estilo do romancista certa instabilidade (zíbkost) e uma sensação de inacabamento […] Desse modo, cria-se a impressão de que ele força, precipita o discurso, é desleixado ou “inapto” […] Tudo isso somado cria uma sensação de indefinição e instabilidade na feitura do discurso, […] cujo fim é estimular no leitor a ideia de inacabamento a fim de levá-lo a tirar suas próprias conclusões. […] e está diretamente associada à instabilidade do mundo e das relações sociais e humanas que sedimenta o conjunto de sua obra. […]” p.569 – 570

Resenha: Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski
FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Crime e Castigo não é um livro simples. Ele retrata diversas facetas das relações sociais humanas, e mostra como o homem é sujo e vil. Assim como também mostra a luta de diversas personagens para sobreviver em um ambiente hostil como o retratado. Sem dúvida, este é um dos melhores livros que já li. Afinal, não é à toa que, 150 anos depois, esta ainda seja uma obra atual e muito discutida.

LEIA TAMBÉM

Resenha: Crime e Castigo - Fiódor DostoiévskiTítulo original: Prestuplênie i Nakazánie
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: 34
Número de páginas: 591
Ano: 2016
Gênero: Literatura estrangeira
Nota: 

Curiosidades

Confira o trailer de Orgulho e Preconceito e Zumbis

Orgulho e Preconceito… E ZUMBIS?

O filme é baseado no livro homônimo escrito por Seth Grahame-Smith. Vale lembrar que, na época do lançamento do livro, o autor foi duramente criticado por “estragar” uma obra clássica.

Confira o trailer do filme que promete deixar os fãs de Jane Austen com os cabelos em pé!

 

Inclusive, essa não é a primeira obra de Seth a ser adaptada para o cinema: ele também é autor de Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros (2012). Relembre o trailer.

No elenco de Orgulho e Preconceito e Zumbis estão nomes de peso, como: Matt Smith (Mr. Collins), Sam Riley (Mr. Darcy), e Douglas Booth (Mr. Bingley). A estreia está marcada para 5 de fevereiro de 2016 nos EUA.

Resenha

Resenha: Assassinatos na Rua Morgue – Edgar Allan Poe

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

O livro Assassinatos na Rua Morgue foi meu primeiro contato com Edgar Allan Poe. A obra, publicada pela L&PM Pocket, reúne diversos contos do autor, deixando para as últimas páginas a famosa história que dá nome ao livro.

Fiquei fascinada pela escrita de Poe e é notável como muitas, mas muitas obras atuais ainda se baseiam no poeta e escritor norte-americano. Quem ama romances policiais e histórias de mistério consegue notar quantos personagens e histórias derivam dos contos do autor.

Assassinatos na Rua Morgue foi lançado em 1840 e influenciou personagens famosíssimos da literatura, incluindo Sherlock Holmes (de Arthur Conan Doyle) e Hercule Poirot (de Agatha Christie). Ou seja: é a origem das apaixonantes histórias de detetive, onde tudo começou.

No conto, o francês Monsieur C. Auguste Dupin, com a ajuda do narrador da história (algo que lembra uma relação Sherlock – Watson), utiliza seu próprio sistema de dedução para solucionar um crime. Observando os fatos e analisando atentamente o testemunho das pessoas que estavam no local onde os assassinatos foram cometidos, Dupin passa por cima da polícia francesa e consegue com muita precisão solucionar um caso que parecia impossível.

Aos poucos, vamos acompanhando o pensamento rápido do personagem, que levanta questões intrigantes e nos faz, junto com ele, tentar desvendar o bizarro mistério. O conto é muito empolgante! Utilizando uma linguagem madura, inteligente e que estimula a imaginação do leitor, somos induzidos a levantar inúmeros questionamentos a respeito do acontecido.

E o mérito não vai apenas para o Assassinatos na Rua Morgue. Os outros contos incluídos no livro, como “O Gato Preto”, “Hop-Frog ou Os oito orangotangos acorrentados” e “Nunca aposte sua cabeça com o diabo” são tão bons quanto o conto principal. Já os contos “Os fatos que envolveram o caso de Mr. Valdemar” e “O demônio da perversidade” são interessantes também, mas não me cativaram tanto.

Assassinatos na Rua Morgue - Edgar Allan Poe
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Não adianta contestar: existe algo intrigante na escrita de Poe. A linguagem pode parecer rebuscada para os dias atuais, mas ainda assim tem algo de impressionante que instiga a leitura. Durante a leitura do “Gato Preto”, fiquei mal, assustada e com muita vontade de saber o que iria acontecer. Ele sabe como aumentar nossa curiosidade e as páginas fluem rapidamente.

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Percebi também o quanto Poe adora relacionar animais com suas histórias. Em quase todos os contos, há algum animal envolvido – gatos, orangotangos, corvos… acho isso bem curioso e, obviamente, metafórico. As tramas sempre trazem aquele clima sombrio de histórias antigas, que misturam alquimia, experimentos esquisitos e todas as nuances de uma mente humana perturbada, fazendo sempre um paralelo com animais selvagens que se deixam levar pelo instinto. Recomendo fortemente a leitura, principalmente se você é fã de histórias de detetive, terror e mistério.

LEIA TAMBÉM

Assassinatos na Rua Morgue

 

Título original: The Murders in the Rue Morgue
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: L&PM Pocket
Número de páginas: 160
Ano: 201o
Gênero: Terror/Clássico
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