Resenha

Resenha: Um Quarto com Vista – E.M. Forster

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Comecei a leitura de Um Quarto com Vista, de E.M. Forster, após me interessar pela minissérie Howards End, também baseado em uma obra homônima do autor. Como achei os personagens bem diferentes e inusitados para o contexto da época, aproveitei que esse livro estava disponível no Kindle Unlimited e fui conferir o estilo do escritor britânico.

Um Quarto com Vista é dividido em duas partes: a primeira passa-se em Florença, na Itália, a segunda em Windy Corner, um bairro no interior da Inglaterra. A sinopse é bem simples:

“Lucy Honeychurch, moça ingênua e recatada, representante de uma aristocracia rural ‘impura’, filha de um advogado que construiu uma casa no campo, irá realizar um casamento de interesse com Cecyl Vyse, membro da aristocracia urbana londrina, que conheceu na Itália. Mas sua viagem acabará mudando de modo radical sua concepção de mundo e de si mesma.”

Na verdade, a sinopse oficial conta muito mais, mas achei que essa parte sintetiza melhor a obra como um todo. O livro tenta comparar a insuficiente “vida inglesa” com a beleza mítica da Itália, principalmente pelas descrições de Florença. A primeira parte é toda sobre uma pequena viagem de Lucy à cidade italiana com sua prima e dama de companhia Catherine Bartlett. Na pensão em que se hospeda, a garota se revolta (chamo de garota porque não sei exatamente sua idade, mas todos a tratam como alguém bem jovem) porque seu quarto não tem uma vista agradável, como havia reservado previamente com a dona da pensão.

A partir de sua indignação, ela conhece outros hóspedes – todos britânicos – que a acompanham em alguns momentos da viagem. Basicamente a primeira parte é somente Lucy andando por Florença ao lado de outros personagens BEM irritantes, diga-se de passagem. Dois párocos: Sr. Beebe e Sr. Eager; um senhor e seu filho – os Emersons, pai e filho, que todos consideram ‘mau educados’; Eleanor Lavish, uma mulher arrogante metida a escritora e outros personagens pouco importantes.

Lucy é uma garota mimada, bastante ingênua, quase infantil, bem dependente da prima Charlotte. Na primeira parte do livro, são poucos os acontecimentos; basicamente temos Lucy turistando pela cidade. Nessas caminhadas por Florença, surge um controverso e leve interesse de Lucy por George Emerson – um homem recatado, misterioso, mas de boa índole. Há algumas cenas em que os dois trocam algumas palavras e, em uma determinada viagem feita em grupo, os dois se aproximam com mais intensidade.

Resenha: Um Quarto com Vista - E.M. Forster
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

No entanto, antes de começar a comentar sobre a segunda parte da obra, já ressalto que essa não foi uma leitura muito prazerosa. Tive interesse em continuar – esperando algum grande acontecimento, reviravolta ou até mesmo mais profundidade em alguns temas que o autor toca de vez em quando – mas não me cativou. Os personagens não têm carisma, o ritmo da narrativa é lento e as discussões a respeito da diferença de classes na Inglaterra do começo do século XX não foram tão entusiasmantes.

Claro que E.M. Forster traz uma ironia sutil nas descrições dos personagens da pensão – é praticamente um retrato da hipocrisia inglesa, em contraste com o povo florentino, considerado mais passional. No entanto, nada que não tenha sido expresso em obras como Orgulho e Preconceito, Mrs. Dalloway ou O Amante de Lady Chatterley.

Porém, como indica o prefácio de Luiz Ruffato, “a força de Forster o leitor deve buscar não na técnica novelística mas no radicalismo de suas posições políticas, fruto talvez de sua identificação com o grupo de Bloomsbury, do qual fazia parte”. Ou seja: a narrativa em si não é o grande triunfo de Forster, mas suas críticas e ideais.

Agora vamos à segunda parte da trama: Lucy voltou para casa em Windy Corner e está noiva de Cecyl Vyse, aristocrata que conheceu durante uma viagem à Roma (logo após os passeios por Florença). O homem parece ser o símbolo da virilidade, mas nem um beijo na “amada” teve coragem de dar. Cecyl é o tipo de homem que adora falar sobre si e demonstrar o quanto sabe discutir diversos assuntos – política, economia, e até mesmo fofocas sobre o povo local – mas, na verdade, é um verdadeiro “chato”, como a própria Lucy pontua em um certo momento do livro.

“Cecil de novo. Ele não ousa permitir que uma mulher decida por si mesma. É do tipo que atrasou um milênio o destino da Europa. Durante a vida toda, ele procurará formá-la, dizer-lhe o que é encantador, divertido ou elegante, dizer-lhe o que um homem pensa em termos femininos; e a senhorita, a senhorita, de todas as mulheres, dá ouvidos a ele em vez de ouvir a própria voz.”

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Porém, casamentos naquela época eram apenas pelo status social: nem sabemos ao certo se Lucy realmente gosta de Cecyl, ou se aceitou a proposta de casamento apenas porque foi levada a isso. A influência da família era gigante – principalmente com moças jovens e que buscavam certo prestígio na sociedade.

Ainda no começo da parte 2, Lucy continua agindo com ingenuidade e lutando contra si mesma. Dá vontade de dar um chacoalhão na moça e gritar ‘ACORDA PRA VIDA!’, hahaha. Mas essa sensação de espera, de nervosismo, de tensão na narrativa é um dos pontos altos do autor. Nunca sabemos o que virá em seguida ou o que esperar dos personagens.

Segundo o texto de apoio de Ruffato, “Lucy representa a luta da mulher contra a sujeição social, o convencionalismo e a mentalidade retrógrada. E, se [Forster] demonstra, como romancista, um perfeito equilíbrio na caracterização dos personagens — mesmo a Cecil dedica alguma compreensão —, é porque sabe que “a vida é fácil de narrar, mas espantosa de se praticar”.

Mesmo que a parte 1 seja um tanto enfadonha, a parte 2 resgata o interesse do leitor. A evolução – e revelação – de Lucy, a aproximação de George e a revolta crescente com Cecil criam um novo laço de empatia; as personagens parecem mais soltas, mais vivas do que na parte 1, em que a narrativa parece progredir lentamente e sem entusiasmo. U

“Ela refletia que era impossível predizer o futuro com qualquer grau de exatidão, que é impossível ensaiar a vida. Uma falha no cenário, um rosto na platéia, uma irrupção da audiência no palco, e todos nossos gestos cuidadosamente planejados mais nada significam, ou significam coisas demais.”

O autor E.M. Forster fazia parte da classe média alta inglesa, estudou em Cambridge, morou vários anos na Itália, Grécia, Alemanha e Índia, aprofundando sua visão de mundo humanista liberal contrária à moral vitoriana da sociedade britânica: conservadora, tradicionalista, preconceituosa. Essa mesma visão de mundo faz do título do livro uma metáfora: um quarto com vista, isto é, a possibilidade de ver além.

Portanto, apesar de não ter sido tão cativante quanto eu gostaria, Um Quarto com Vista é uma obra que traz diferentes pontos de vista dos mais diversos personagens. A evolução moral e social de Lucy, George e até mesmo Cecil faz do livro uma boa alternativa para discutir as nuances e camadas da estratificação social no início do século XX.

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Resenha: Um Quarto com Vista - E.M. ForsterTítulo original: A Room With a View
Autor: E.M. Forster
Editora: Globo
Número de páginas: 286
Ano: 2006
Gênero: Literatura Estrangeira
Nota: ***

Resenha

Resenha: A Memória do Mar – Khaled Hosseini

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

Recebemos o livro A Memória do Mar de surpresa da nossa parceira Globo Livros. Eles com certeza acertaram no presente “às cegas”, pois Hosseini é um dos meus autores favoritos desde a adolescência, quando tive contato com O Caçador de Pipas. As histórias criadas por ele são tocantes como poucas. Sem contar que o pano de fundo – o Oriente Médio – nem sempre tem espaço em livros de autores mais famosos e best seller.

Resenha: A Memória do Mar - Khaled Hosseini
FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

A Memória do Mar foi escrito inspirado na breve vida de Alan Kurdi, refugiado de três anos de idade que foi encontrado morto em uma praia após tentar – ao lado de sua família – uma travessia perigosa para chegar “em segurança” à Europa.

Infelizmente, histórias como essa continuam a se repetir: no ano seguinte a morte do garoto, outras 4.176 vidas foram perdidas ou estão desaparecidas no mar.

Resenha: A Memória do Mar - Khaled Hosseini
FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

A história escrita por Khaled Hosseini é curta, mas não deixa de ser extremamente impactante. Às vezes nos esquecemos do sofrimento do outro, e o autor tem o dom de abordá-lo de forma emocionante e empática.

Na breve história, acompanhamos o narrador-pai relembrando alguns momentos de sua vida para seu filho, Marwan. Mãe, pai e filho farão a travessia no mar durante a noite, e por isso, o enredo acaba se tornando uma oração às águas para que tudo dê certo.

Mas eu ouço a voz de sua mãe,
por cima da maré,
e ela sussurra em meu ouvido:
“Ah, mas se eles pudessem ver, meu amor,
só a metade do que vocês viram.
Se eles simplesmente pudessem ver.
Com certeza diriam coisas mais gentis”.

As ilustrações de Dan Williams deixam a narrativa ainda mais sentimental. Fica quase impossível não se comover. Confira alguns detalhes no vídeo abaixo:

A MEMÓRIA DO MAR – Khaled Hosseini

Se você pudesse ver a metade do que eles viram, com certeza diria coisas mais gentis… ✨"A memória do mar" é inspirado no caso real de Alan Kurdi, imigrante sírio de 3 anos que se afogou no mar Mediterrâneo enquanto fugia da guerra. Do mesmo autor de "O caçador de pipas", o livro tem narrativa poética, páginas ilustradas e tradução de Pedro Bial.Conheça: https://glo.bo/2CUuL6n

Posted by Globo Livros on Friday, September 14, 2018

Um detalhe extremamente importante da obra é que parte dos recursos angariados com a venda de A Memória do Mar será revertida para a Fundação Khaled Hosseini e para a UNHCR, a agência de Refugiados das Nações Unidas. Por isso, se faltava um motivo para adquirir o seu, agora não falta mais, né? Você investe em um livro lindo, e ainda, ajuda quem precisa. Portanto, a minha dica final é: COMPRE! COLOQUEM NAS LISTAS DE MAIS VENDIDOS! PRESENTEIE COM ESSE LIVRO!

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* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

Resenha: A Memória do Mar - Khaled HosseiniTítulo original: Sea Prayer
Autor: Khaled Hosseini
Editora: Globo Livros
Número de páginas: 64
Ano: 2018
Gênero: Poesia afegã
Nota: 

Resenha

Resenha: História da Menina Perdida – Elena Ferrante

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

História da Menina Perdida é o último livro da série Napolitana – e também o mais melancólico. Depois de ler empolgadíssima os quatro livros de Elena Ferrante, quando terminei este último volume, senti um vazio muito grande. Me apeguei a todos os personagens, àquelas tramas e enredos, às vidas das pessoas daquele bairro de Nápoles. Não tem como não se emocionar com uma narrativa tão densa e brutal.

Porém, o último livro é o mais triste, o que mais puxa para baixo. Não era para menos: chegamos à vida adulta e à terceira idade das protagonistas. Os problemas mudam, as relações se complicam e o tempo vai varrendo tudo, deixando apenas fragmentos de memórias. 

Lenu agora precisa passar por um furacão em sua vida: retornar à Nápoles, lidar com sua mãe enferma, divorciar-se do marido, começar uma vida nova sem nenhum dinheiro no bolso, mas com filhas pequenas para cuidar. Já Lila vive seu momento de ascensão: as coisas começam a melhorar, vira dona da própria empresa, é admirada por todas no pequeno bairro onde vive.

Alguns personagens morrem, outros se mudam, muitos nem são mais lembrados. Aos poucos, Lenu torna-se uma mulher madura e percebe quantos erros cometeu durante a vida. A maternidade torna-se o ponto central da história, todas suas dificuldades e cargas emotivas. A paternidade também é bastante discutida: o papel de um homem dentro da família, a relação com a esposa e as crianças, as responsabilidades que quase nunca são assumidas; da mesma forma, Elena Ferrante aponta os problemas que as mulheres enfrentam ao ter que lidar com uma vida profissional, cuidar dos filhos, os afazeres domésticos e ainda suportar maridos que nunca estão presentes.

Em História da Menina Perdida, Lila torna-se, finalmente, não alguém que deseja competir com Elena: as duas caminham juntas e lidam com as adversidades do melhor jeito que podem. A amizade tóxica de Lenu e Lila, cheia de altos e baixos, encontros e desencontros, afeto e desgosto, é fortalecida e desfeita em História da Menina Perdida.

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Como já imaginava, Nino mostra-se um homem repugnante e Lenu precisa lidar com o fato de que aquela paixão ardente da infância e adolescência morreu. Agora ela precisa dar um jeito de, como escritora, manter seu trabalho ativo e ainda restabelecer suas conexões no bairro, aproximar-se novamente de sua família, conseguir lidar da melhor forma possível com três crianças e, claro, com a melhor amiga.

Dos quatro livros da série, esse é o mais arrastado. Alguns momentos são um pouco cansativos – e fica bastante óbvio o rumo dos acontecimentos. Porém, ao final da juventude – e o início da idade madura – um evento desencadeia uma série de tristezas e abatimentos que vão permanecer até a última linha do livro.

Resenha: História da Menina Perdida - Elena Ferrante
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

No entanto, um dos pontos mais interessantes deste livro é a passagem do tempo; acompanhamos tudo como se estivesse acontecendo naquele instante, mas de repente as crianças já são adultas, os personagens alteram o rumo de suas vidas, o cenário político muda completamente. A Itália já não é mais a mesma, assim como as relações entre as famílias do bairro.

O final é triste, porém, emocionante. Como mencionei anteriormente, deixa um vazio bem grande. Os livros de Elena Ferrante nos deixam atados às personalidades fortes daqueles personagens e suscitam muitas reflexões a respeito de amizade, família, amor, memória, afeto, rancor, inveja e, especialmente, transformação social. A tetralogia napolitana é um grande romance de formação, dividido em quatro partes – o tempo leva tudo embora e só permanece uma memória distante, longínqua, de momentos angustiantes e primorosos.

E você, já leu? Conta pra gente o que achou!

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Resenha: História da Menina Perdida - Elena FerranteTítulo original: Storia della bambina perduta
Autora: Elena Ferrante
Editora: Biblioteca Azul
Número de páginas: 480
Ano: 2017
Gênero: Literatura estrangeira
Nota

Resenha

Resenha: História do Novo Sobrenome – Elena Ferrante

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

História do Novo Sobrenome é a continuação do maravilhoso A Amiga Genial, de Elena Ferrante. Este é o segundo livro da série Napolitana, e agora entramos em contato com o fim da adolescência e início da fase adulta de Lila, Elena, Rino, Stefano, Nino, Pinuccia, os irmãos Solara e todos os outros personagens que compõem essa narrativa sobre a amizade entre os jovens de um pequeno bairro de Nápoles.

A narrativa de História do Novo Sobrenome abre espaço para reflexões a respeito da sexualidade, do amor e, principalmente, do papel imposto às jovens mulheres em meados do século XX ― contraponto construído entre as duas personagens principais: Lila e Elena. Lila casa-se cedo, precisa trabalhar para ajudar a família e é cobrada o tempo todo para que tenha filhos; já Elena (ou Lenu, a narradora da história) não se casa, mas prepara-se para a faculdade, estuda muito e percebe que tem chances de um futuro promissor longe da família e do bairro pobre de Nápoles.

Já adianto que será impossível fazer uma resenha sem spoilers. Muitos acontecimentos deste livro precisam ser discutidos e eu PRECISO desabafar sobre como essa leitura me deixou incomodada, perplexa e ao mesmo tempo absorta. Em História do Novo Sobrenome, Lenu não nos poupa de nada: são escancaradas cenas de adultério, casamento, traições fortes dentro das amizades e também momentos claros de violência, tensão e inseguranças. É também o momento em que a protagonista tenta se desvencilhar de tudo o que ela achava sobre si mesma, buscando uma nova identidade, de preferência bem longe dos atritos constantes do bairro em que mora.

Logo no começo, vemos que Elena está se distanciando de Lila e dos amigos do bairro, focando cada vez mais nos estudos. Sua paixão por Nino Sarratore também só cresce, principalmente através do contato com a professora Galiani, disposta a fazer com que seus alunos busquem novos rumos e principalmente uma universidade de prestígio.

Lila está cada vez mais raivosa: seu casamento com Stefano só piora a cada dia e, por mais que tenha todos os luxos com os quais sempre sonhou, seu humor oscila e vai de mal a pior. O casamento é apenas uma farsa e ela sofre diariamente com isso.

A maior parte do livro se passa durante o verão, quando Lila, Lenu, Pinuccia, Nunzia (mãe de Lila), Stefano e Rino vão passar as férias em Ischia, coincidentemente onde Nino Sarratore estará também, junto de um amigo. Nino é o típico arrogante, sem graça, mas que faz todas se apaixonarem por ele com suas palavras difíceis, seus ideais políticos, mostrando o quanto é estudioso. Isso é o que faz Lenu se apaixonar por ele, mas ela nem imagina o quanto ele vai tornar-se obscuro a seus olhos.

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São os acontecimentos que ocorrem em Ischia que tornam a leitura difícil. A cada página lida pelo ponto de vista de Elena Greco, eu sentia um mal-estar. Como Lenu podia ser tão ingênua, tapada e tão boazinha? Como conseguia engolir a seco tantas maldades e traições de Lila? Ela não conseguia perceber como todos ao seu redor a debochavam e humilhavam? Esse livro escancara a difícil relação entre as duas melhores amigas: não importa o que Elena faça, Lina quer se sobressair, quer mostrar que pode mais, que sabe mais. O clima de competição é insuportável e até sufoca. Eu queria socar a cara de Lila e pedir para Lenu, PELO AMOR DE DEUS, abra os olhos!

Mas o mais complicado desse livro é que a empatia por todos os personagens é muito forte. Elena Ferrante faz isso com maestria: acompanhamos todos os dissabores e dificuldades de todos os personagens, tornando impossível odiá-los. Lila é para ser uma personagem insuportável (eu não suporto, me dá desgosto), porém ainda assim suas ações, até certo ponto, são justificáveis. Lila é uma mulher inteligentíssima, que foi privada dos estudos desde cedo. Casou-se com dezessete anos, engravidou, o marido a esbofeteava, todos no bairro a odiavam. Ela vê sua melhor amiga estudar, crescer, tornar-se alguém livre, que pode conseguir o que quiser, enquanto ela está presa a um casamento abusivo, rodeada de pessoas detestáveis. Nunca soube o que era apaixonar-se, até conhecer Nino, a paixão secreta de sua melhor amiga.

Toda vez que Lenu quer mostrar algum feito seu, alguma conquista, compartilhar alguma felicidade com Lila, no começo ela fica feliz, demonstra afeto; em seguida, começa a tentar achar um jeito de debochar da amiga, querendo mostrar-se superior. Essa petulância é de dar nos nervos, mas, afinal, sabemos de tudo apenas pelo ponto de vista de Elena.

Resenha: História do Novo Sobrenome - Elena Ferrante
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Lenu engole tudo a seco, observa o mundo a seu redor com cautela, é insegura, sente-se constantemente com medo. Em alguns momentos eu só queria que essa personagem explodisse, jogasse algumas verdades na cara das pessoas, fosse ríspida. Mas isso nunca acontece, a catarse não chega. Que desespero!

Como esperar que pessoas que viveram no meio da pobreza, da violência, entre agiotas e contrabandistas, que foram privadas de educação, precisam trabalhar de qualquer forma para conseguir comer e sustentar famílias enormes, entendam o motivo pelo qual Lenu largou tudo e foi para Pisa estudar? Para eles, qual o sentido de um diploma? E o mais interessante é que nem mesmo a protagonista sabe porque faz o que faz. Ela se sente sempre uma pessoa a menos, inferior aos namorados que tem, inferior à melhor amiga, inferior a qualquer um. Elena procura uma identidade própria, se desvencilhar daquilo que sempre a magoou e também sempre admirou. Ela acredita que ter um diploma resolverá seus dilemas existenciais e, de certa forma, o início de sua carreira é um dos desfechos de História do Novo Sobrenome.

A potência dessa narrativa é alta: as reflexões da personagem e seus pensamentos mais íntimos tornam a leitura longe de ser enfadonha, mas sim curiosa. A atração que os personagens lançam sobre o leitor são grandes, não dá vontade de abandonar o livro. Agora só resta terminar a saga: hora de começar a leitura de História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida. 

Só espero que Lina melhore – e bastante!

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Resenha: História do Novo Sobrenome - Elena FerranteTítulo original: Storia del Nuovo Cognome
Autora: Elena Ferrante
Editora: Biblioteca Azul
Número de páginas: 472
Ano: 2016
Gênero: Literatura estrangeira
Nota

Resenha

Resenha: A Amiga Genial – Elena Ferrante

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Eu ainda estou tentando digerir o livro para escrever esta resenha. Sim, vou começar de forma bem dramática, porque A Amiga Genial mexeu muito comigo! Será difícil transpor em palavras a genialidade dessa história, mas prometo que tentarei fazer um pouquinho de jus aos momentos intensos que Elena Ferrante me proporcionou durante a leitura dessa obra incrível.

Vamos à sinopse oficial:

“A Série Napolitana, formada por quatro romances, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. O primeiro, A Amiga Genial, é narrado por Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.”

O que move toda a narrativa é a amizade de Elena e Lila (Raffaella), seus encontros e desencontros desde a infância até os dezesseis anos. As duas se unem, brigam, fazem planos, competem, estão sempre atreladas, mas com uma tensão pairando no ar. Lila é uma criança com uma inteligência acima da média, sempre se sobressaindo à amiga Elena, narradora da história. As duas têm um futuro promissor pela frente, principalmente em relação aos estudos; porém, moram em um bairro pobre marcado pela violência, gritos e agressões dos adultos, que, de uma forma ou de outra, tentam minar o sonho das garotas que almejam uma vida melhor.

Quando as duas terminam a quinta série, a família de Elena resolve apoiá-la nos estudos, mas os Cerullo não investem na educação de Lila. A partir daí, as duas seguem caminhos distintos e a competição entre elas cresce cada vez mais.

Uma das coisas mais incríveis do livro é a forma com que Elena Ferrante descreve a complexa dinâmica da amizade feminina: ao mesmo tempo em que há cumplicidade, encanto e admiração entre as garotas, é notável como elas sempre tentam superar uma à outra, seja nas pequenas coisas do dia a dia, nos estudos ou relacionamentos amorosos.

Pode-se dizer que A Amiga Genial é um romance de formação, trazendo como pano de fundo as mudanças ocorridas na Itália no pós-guerra. A tensão que paira entre os jovens do bairro pobre de Nápoles é constante, assim como o olhar ingênuo das crianças – e mais tarde, adolescentes – sobre o que acontece à sua volta, sem nunca perceber o que realmente acontece no mundo dos adultos.

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Eu senti um mix de sensações enquanto lia essa história. Como vemos tudo pelo ponto de vista de Elena, é complicado saber exatamente como funciona a cabeça de Lila. A narradora coloca a menina como alguém fora do comum, deslumbrante, que transforma a energia dos locais por onde passa. O status de admiração é tão grande, que Lila é praticamente colocada em um altar de bajulação. Lila é raivosa, impetuosa, inteligentíssima, corajosa; enquanto a narradora se coloca sempre como a amiga inferior – que precisa se esforçar muito para ir bem nos estudos, que engorda, ganha espinhas e precisa usar óculos. Enquanto isso, Lila, a inalcançável Lila, mantém sempre aquele ar distante e misterioso.

Resenha: A Amiga Genial - Elena Ferrante
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

A narrativa em primeira pessoa é uma excelente escolha de Elena Ferrante: o tempo todo precisamos lidar com a baixa autoestima de Greco e com a personalidade forte e rígida de Lila. Greco quer ser como Lila, a inveja cresce dentro dela, mas ao mesmo tempo confunde-se com arrebatamento, estupefação. Elas se amam, mas se repelem. As atitudes de Lila são sempre imprevisíveis, enquanto Greco é a boa moça – a adolescente que passa por várias fases conturbadas, que precisa ganhar sua própria voz e fugir de sua amiga genial.

O título do livro é ambíguo: o tempo todo imaginei Lila como a amiga genial, fora do comum, avançada pela sua idade; mas em determinada passagem, Lila, momentos antes de um evento que vai permear o final do livro (não vou dar spoiler), diz à Greco: “nunca deixe os estudos, você não pode parar de estudar, você é minha amiga genial”.

Uma comparação que não pude deixar de fazer nesse livro foi com O Grande Gatsby, especialmente no começo. Elena contando a história de Lila me lembrou muito Nick Carraway mostrando sua fascinação por Gatsby. E como eu gosto muito da obra de Fitzgerald, me prendi ainda mais ao livro de Ferrante.

O final é desesperador: termina no ponto alto da trama, com um acontecimento que com certeza vai trazer muitas reviravoltas. Quando cheguei na frase final do último capítulo, não conseguia acreditar que não tinha mais nada escrito. Corri para comprar os volumes seguintes: História do novo sobrenomeHistória de quem foge e de quem fica e História da Menina Perdida. Provavelmente os próximos volumes vão contar mais sobre a amizade de Greco e Cerullo – e eu não posso esperar!

Mais um adendo: a tetralogia Napolitana fez tanto sucesso que virou série da HBO! Já foram divulgadas as duas primeiras imagens, mas ainda não foram revelados detalhes, data de estreia e etc. O que se sabe é que a direção é de Saverio Costanzo, que coassina o roteiro com a própria Elena Ferrante em parceria com Francesco Piccolo e Laura Paolucci. O processo de seleção do elenco durou mais de oito meses e conta com mais de 150 atores e 5 mil figurantes.

Elena Ferrante é um mistério: o nome da autora é um pseudônimo e não se sabe ao certo nenhum detalhe sobre sua vida particular. Ela participa de pouquíssimas entrevistas, sem nunca revelar sua verdadeira identidade. Existe muita polêmica em torno dessa temática: o jornalista investigativo Claudio Gatti afirma que Elena é, na verdade, a tradutora Anita Raja, esposa do escritor Domenico Starnone. Contudo, ela nunca se manifestou sobre isso, mantendo sua identidade em sigilo.

A Amiga Genial é sobre duas garotas que passam por situações de todo o tipo em uma Itália devastada e em constante mudança, precisando lidar com homens grosseiros, famílias violentas, jovens invejosos, professores rígidos, pobreza, transformações do corpo, primeiros amores. E o jeito com que a autora conduz a trama, tecendo a história com tantos detalhes e nuances, nos faz abraçar o livro e não querer que ele acabe nunca.

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Resenha: A Amiga Genial - Elena FerranteTítulo original: L’amica Geniale
Autora: Elena Ferrante
Editora: Biblioteca Azul/Globo Livros
Número de páginas: 336
Ano: 2015
Gênero: Literatura estrangeira
Nota