Resenha

Resenha: Um Quarto com Vista – E.M. Forster

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Comecei a leitura de Um Quarto com Vista, de E.M. Forster, após me interessar pela minissérie Howards End, também baseado em uma obra homônima do autor. Como achei os personagens bem diferentes e inusitados para o contexto da época, aproveitei que esse livro estava disponível no Kindle Unlimited e fui conferir o estilo do escritor britânico.

Um Quarto com Vista é dividido em duas partes: a primeira passa-se em Florença, na Itália, a segunda em Windy Corner, um bairro no interior da Inglaterra. A sinopse é bem simples:

“Lucy Honeychurch, moça ingênua e recatada, representante de uma aristocracia rural ‘impura’, filha de um advogado que construiu uma casa no campo, irá realizar um casamento de interesse com Cecyl Vyse, membro da aristocracia urbana londrina, que conheceu na Itália. Mas sua viagem acabará mudando de modo radical sua concepção de mundo e de si mesma.”

Na verdade, a sinopse oficial conta muito mais, mas achei que essa parte sintetiza melhor a obra como um todo. O livro tenta comparar a insuficiente “vida inglesa” com a beleza mítica da Itália, principalmente pelas descrições de Florença. A primeira parte é toda sobre uma pequena viagem de Lucy à cidade italiana com sua prima e dama de companhia Catherine Bartlett. Na pensão em que se hospeda, a garota se revolta (chamo de garota porque não sei exatamente sua idade, mas todos a tratam como alguém bem jovem) porque seu quarto não tem uma vista agradável, como havia reservado previamente com a dona da pensão.

A partir de sua indignação, ela conhece outros hóspedes – todos britânicos – que a acompanham em alguns momentos da viagem. Basicamente a primeira parte é somente Lucy andando por Florença ao lado de outros personagens BEM irritantes, diga-se de passagem. Dois párocos: Sr. Beebe e Sr. Eager; um senhor e seu filho – os Emersons, pai e filho, que todos consideram ‘mau educados’; Eleanor Lavish, uma mulher arrogante metida a escritora e outros personagens pouco importantes.

Lucy é uma garota mimada, bastante ingênua, quase infantil, bem dependente da prima Charlotte. Na primeira parte do livro, são poucos os acontecimentos; basicamente temos Lucy turistando pela cidade. Nessas caminhadas por Florença, surge um controverso e leve interesse de Lucy por George Emerson – um homem recatado, misterioso, mas de boa índole. Há algumas cenas em que os dois trocam algumas palavras e, em uma determinada viagem feita em grupo, os dois se aproximam com mais intensidade.

Resenha: Um Quarto com Vista - E.M. Forster
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

No entanto, antes de começar a comentar sobre a segunda parte da obra, já ressalto que essa não foi uma leitura muito prazerosa. Tive interesse em continuar – esperando algum grande acontecimento, reviravolta ou até mesmo mais profundidade em alguns temas que o autor toca de vez em quando – mas não me cativou. Os personagens não têm carisma, o ritmo da narrativa é lento e as discussões a respeito da diferença de classes na Inglaterra do começo do século XX não foram tão entusiasmantes.

Claro que E.M. Forster traz uma ironia sutil nas descrições dos personagens da pensão – é praticamente um retrato da hipocrisia inglesa, em contraste com o povo florentino, considerado mais passional. No entanto, nada que não tenha sido expresso em obras como Orgulho e Preconceito, Mrs. Dalloway ou O Amante de Lady Chatterley.

Porém, como indica o prefácio de Luiz Ruffato, “a força de Forster o leitor deve buscar não na técnica novelística mas no radicalismo de suas posições políticas, fruto talvez de sua identificação com o grupo de Bloomsbury, do qual fazia parte”. Ou seja: a narrativa em si não é o grande triunfo de Forster, mas suas críticas e ideais.

Agora vamos à segunda parte da trama: Lucy voltou para casa em Windy Corner e está noiva de Cecyl Vyse, aristocrata que conheceu durante uma viagem à Roma (logo após os passeios por Florença). O homem parece ser o símbolo da virilidade, mas nem um beijo na “amada” teve coragem de dar. Cecyl é o tipo de homem que adora falar sobre si e demonstrar o quanto sabe discutir diversos assuntos – política, economia, e até mesmo fofocas sobre o povo local – mas, na verdade, é um verdadeiro “chato”, como a própria Lucy pontua em um certo momento do livro.

“Cecil de novo. Ele não ousa permitir que uma mulher decida por si mesma. É do tipo que atrasou um milênio o destino da Europa. Durante a vida toda, ele procurará formá-la, dizer-lhe o que é encantador, divertido ou elegante, dizer-lhe o que um homem pensa em termos femininos; e a senhorita, a senhorita, de todas as mulheres, dá ouvidos a ele em vez de ouvir a própria voz.”

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Porém, casamentos naquela época eram apenas pelo status social: nem sabemos ao certo se Lucy realmente gosta de Cecyl, ou se aceitou a proposta de casamento apenas porque foi levada a isso. A influência da família era gigante – principalmente com moças jovens e que buscavam certo prestígio na sociedade.

Ainda no começo da parte 2, Lucy continua agindo com ingenuidade e lutando contra si mesma. Dá vontade de dar um chacoalhão na moça e gritar ‘ACORDA PRA VIDA!’, hahaha. Mas essa sensação de espera, de nervosismo, de tensão na narrativa é um dos pontos altos do autor. Nunca sabemos o que virá em seguida ou o que esperar dos personagens.

Segundo o texto de apoio de Ruffato, “Lucy representa a luta da mulher contra a sujeição social, o convencionalismo e a mentalidade retrógrada. E, se [Forster] demonstra, como romancista, um perfeito equilíbrio na caracterização dos personagens — mesmo a Cecil dedica alguma compreensão —, é porque sabe que “a vida é fácil de narrar, mas espantosa de se praticar”.

Mesmo que a parte 1 seja um tanto enfadonha, a parte 2 resgata o interesse do leitor. A evolução – e revelação – de Lucy, a aproximação de George e a revolta crescente com Cecil criam um novo laço de empatia; as personagens parecem mais soltas, mais vivas do que na parte 1, em que a narrativa parece progredir lentamente e sem entusiasmo. U

“Ela refletia que era impossível predizer o futuro com qualquer grau de exatidão, que é impossível ensaiar a vida. Uma falha no cenário, um rosto na platéia, uma irrupção da audiência no palco, e todos nossos gestos cuidadosamente planejados mais nada significam, ou significam coisas demais.”

O autor E.M. Forster fazia parte da classe média alta inglesa, estudou em Cambridge, morou vários anos na Itália, Grécia, Alemanha e Índia, aprofundando sua visão de mundo humanista liberal contrária à moral vitoriana da sociedade britânica: conservadora, tradicionalista, preconceituosa. Essa mesma visão de mundo faz do título do livro uma metáfora: um quarto com vista, isto é, a possibilidade de ver além.

Portanto, apesar de não ter sido tão cativante quanto eu gostaria, Um Quarto com Vista é uma obra que traz diferentes pontos de vista dos mais diversos personagens. A evolução moral e social de Lucy, George e até mesmo Cecil faz do livro uma boa alternativa para discutir as nuances e camadas da estratificação social no início do século XX.

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Resenha: Um Quarto com Vista - E.M. ForsterTítulo original: A Room With a View
Autor: E.M. Forster
Editora: Globo
Número de páginas: 286
Ano: 2006
Gênero: Literatura Estrangeira
Nota: ***

Listas

Séries britânicas inspiradas em clássicos da literatura

Eu sempre gostei MUITO de séries britânicas, principalmente as inspiradas em livros! A BBC e a ITV são emissoras campeãs de produzir programas de TV incríveis sobre obras literárias famosas. E não são apenas livros clássicos ingleses: existem adaptações de obras norte-americanas, francesas, entre outras nacionalidades. Mas as produções sempre trazem releituras ou uma nova nuance às histórias que amamos. Quer conhecer algumas? Então veja nossas dicas:

Dicas de séries britânicas inspiradas em livros clássicos

1 – Vanity Fair

Séries britânicas inspiradas em clássicos da literatura
Foto: Divulgação

A conhecida trama se passa na época das guerras napoleônicas, acompanhando a alpinista social Becky Sharp, que tenta sair da pobreza e entrar na alta sociedade inglesa. A história, baseada na obra de William Makepeace Thackeray, já foi adaptada inúmeras vezes, mas ganhou uma adaptação pela Amazon e o canal britânico ITV. Já assisti a temporada completa e posso dizer que é muito boa! Olivia Cooke no papel de Becky é sensacional. 

2 – Howards End

Howards End
Foto: Divulgação

Na virada do século XIX para o XX, lutas de classes e busca de meios para ascender socialmente são a realidade de muitas famílias da Inglaterra, como os intelectuais Schlegels, os ricos Wilcoxes e os Basts, da classe trabalhadora. É também neste cenário que começa a jornada de duas irmãs que lutam para conquistarem seu lugar na sociedade.

A série é uma produção da BBC inspirada na obra homônima de E.M. Forster. Vale muito a pena: são apenas quatro episódios com personagens surpreendentes, bem diferente das histórias com personagens femininas dependentes e romantizadas.

3 – Jane Eyre

Séries britânicas inspiradas em clássicos da literatura
Foto: Divulgação

Nesta versão do romance de Charlotte Brontë, Jane Eyre (Georgie Henley) é criada como uma parente pobre na casa de sua tia, Sra. Reed (Tara Fitzgerald). Quando jovem (Ruth Wilson), Jane é contratada pela governanta de Thornfield Hall, Mrs. Fairfax, para ser governanta da jovem Adèle (Cosima Littlewood). O proprietário da propriedade é o Sr. Rochester (Toby Stephens), que está cortejando a bela Blanche Ingram (Christina Cole).

Já existem várias adaptações da obra, mas a série de 2006 é da BBC, dividida em quatro episódios. 

4 – Great Expectations

Séries britânicas inspiradas em clássicos da literatura

Great Expectations é uma adaptação em três partes do romance homônimo de Charles Dickens, de 1861. A sinopse é bem simples: um humilde órfão de repente se torna um lorde com a ajuda de um benfeitor desconhecido.

O livro é riquíssimo, mas a adaptação da BBC de três episódios não faz jus ao original. Porém, é um bom entretenimento!

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5 – War and Peace

Guerra e paz
Foto: Divulgação

Pierre (Paul Dano) é um jovem idealista e gentil, filho bastardo do homem mais rico da Rússia, que quer mudar o mundo para melhor. Natasha (Lily James) é espirituosa e procura o amor verdadeiro. Andrei (James Norton) é charmoso e busca um propósito maior na vida, pois está farto da superficialidade da sociedade. Quando eles se conhecem, em 1805, os exércitos de Napoleão se aproximam da fronteira da Rússia, e seus compatriotas se preparam para mudanças profundas em suas realidades.

Baseada na obra de Tolstói, essa adaptação da BCC é incrível! Impossível não se apaixonar por essa narrativa. A emissora britânica acertou em cheio! 🙂 

6 – Sherlock

Sherlock bbc
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Baseada nos livros de Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock conta as aventuras do detetive particular Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) e seu fiel escudeiro, Dr. John Watson (Martin Freeman), na Inglaterra dos dias de hoje.

Cada episódio tem duração de 1h30, praticamente um filme! Mas as adaptações das histórias de Holmes são sensacionais, principalmente por causa dessa dupla de atores incríveis. Também é uma produção da BBC e conta com 4 temporadas.

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7 – Little Women

Série mulherzinhas
Foto: Divulgação

As meio-irmãs Jo, Meg, Beth e Amy se unem para sobreviver a uma conspiração que começa a tomar conta das distópicas ruas de Filadélfia e que pode ir muito além do que elas poderiam imagina – tudo isso enquanto tentam não matar umas às outras no processo.

Inspirada no clássico literário Little Women (Mulherzinhas, em português), lançado em 1868 e escrito por Louisa May Alcott. Mais uma adaptação da BBC que pode ser vista rapidamente: em apenas três episódios.

8 – Les Miserables

Série Les Miserables
Foto: Divulgação

Esse nem estreou ainda, mas pretende ser uma ótima adaptação da BBC. Apesar de a história ser do escritor francês Victor Hugo, a adaptação para a TV será na língua inglesa (assim como Guerra e Paz). 

Les Miserables é uma adaptação épica do romance clássico de Victor Hugo, em que um extraordinário elenco de personagens luta para sobreviver na França devastada pela guerra. Uma história de amor, injustiça, redenção e esperança. A estreia está prevista para 30 de dezembro de 2018 e contará com 6 episódios.

9 – And Then There Were None

And Then There Were None
Foto: Divulgação

Agatha Christie pode ser considerada um clássico? Pode sim! E o livro E Não Sobrou Nenhum ganhou uma adaptação para uma minissérie incrível, com o título And Then There Were None.

Em agosto de 1939, oito estranhos são convidados, de diversas formas, para Soldier Island, uma pequena ilha rochosa na costa de Devon. Isolados do continente, com seus anfitriões, Sr. e Sra. U.N. Owen, misteriosamente ausentes, cada um dos convidados é acusado de um crime terrível, assim como o casal de serventes. Quando duas pessoas morrem em circunstâncias estranhas na primeira noite, os acusados percebem que pode haver um assassino entre eles.

A minissérie é composta por três episódios.

10 – Little Dorrit

Little Dorrit
Foto: Divulgação

Já deu para notar que a BBC é mestra em transformar clássicos em séries. Essa adaptação da obra de Dickens (de novo!), foi exibida em 2008 e conta com 14 episódios.

Little Dorrit conta a história de Amy Dorrit, que passa seus dias ganhando dinheiro para a família e cuidando de seu pai orgulhoso, que é um prisioneiro em Londres. Amy e o mundo de sua família se transformam quando o filho de seu chefe, Arthur Clennam, retorna do exterior para resolver o misterioso legado de sua família e descobre que suas vidas estão interligadas.

11 – Emma

Emma série bbc
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Emma é uma série britânica da BBC realizada em 2009, em 4 episódios. Tendo por base o romance homônimo de Jane Austen, a série foi estrelada por Romola Garai e Jonny Lee Miller, nos papéis de Emma e George Knightley.

Não é novidade que Jane Austen foi adaptada para a TV. Existem vários romances da autora que já foram sucesso de público, como Orgulho e Preconceito, por exemplo.

12 – Tess of the D’Urbervilles

Tess of the D'Urbervilles
Foto: Divulgação

Tess of the D’Urbervilles é uma adaptação de 4 horas da BBC para a televisão do livro de mesmo nome de Thomas Hardy. O roteiro é de David Nicholls, autor de Um Dia.

Conta a história de Tess Durbeyfield, uma garota do interior cuja família descobre que tem conexões nobres. Foi exibida em 2008 e olha quem está no elenco: Eddie Redmayne! Ainda não tive a oportunidade de assistir. E você, conhece? 

Existem muitas adaptações, mas selecionamos essas 12 que são as mais conhecidas – quase todas da BBC! E você, quais séries britânicas mais gosta? Conta pra gente nos comentários.


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