Resenha: Grandes Esperanças – Charles Dickens

Provavelmente você já ouviu falar de “David Copperfield”, “Oliver Twist” e obviamente, daquela história de Natal dos fantasmas do passado… “A Christmas Carol”. E de “Grandes Esperanças”? Todas obras do mesmo brilhante autor: Charles Dickens. E se você nunca leu nenhum trabalho dele, pode começar agora!

Nascido em Portsmouth, Inglaterra, Dickens é um dos autores mais importantes da literatura britânica e mundial. Escreveu suas obras durante o período vitoriano, entre 1812 e 1870. Uma curiosidade é que poucos autores se tornaram conhecidos em vida, mas Dickens foi um deles. Fez sua fama em vida, que perdura até hoje, 144 anos após sua morte. Com seu estilo poético, Dickens é leitura obrigatória para os amantes da literatura.

“Grandes Esperanças”, escrito em 1860, revela uma fase mais madura do autor, que com maestria descreve a vida do personagem Pip (Philip Pirip) em três partes: sua infância penosa; a descoberta da vida adulta; e o desenrolar de suas grandes esperanças.

Grandes Esperanças - Charles Dickens

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Na primeira fase do livro, somos apresentados a um dos personagens mais interessantes da história: Joe, o marido da irmã de Pip. Em um misto de tristeza e companheirismo, Pip é apegado a Joe, ao mesmo tempo em que sente vontade de fugir daquela vida tenebrosa que leva no charco.

Após alguns anos, quando Pip consegue sair de casa com a ajuda de um benfeitor que resolve manter sua identidade em segredo, começa enfrentar as dificuldades da vida em Londres, um novo mundo que nasce à sua volta. E quando finalmente conhece o benfeitor que o tirou daquela vida de pobreza, a vida de Pip se transforma completamente: agora ele precisará lidar com novos problemas, se afastando cada vez mais de seus sonhos e suas grandes esperanças.

Não vou revelar muitas partes da história para não perder a graça. A parte 1 é interessantíssima e faz você querer ler mais e mais. A segunda parte já é um pouco mais complicada, por ser mais descritiva e introspectiva, mostrando minuciosidades da vida do protagonista. Já a terceira parte é quando o livro engata e nos faz sentir uma mistura de raiva e empatia pelo jovem Pip, que acompanhamos desde os sete anos de idade e que agora se encaminha para os 25 anos.

O mais interessante em Dickens é a linguagem que este utiliza. Longe de uma literatura piegas, ele traz uma abordagem bem diferente das tramas “água com açúcar” dos romances atuais. A sucessão dos acontecimentos não é o mais importante; dificilmente você encontrará sequências de ação. O desenvolvimento do personagem é a principal questão e qualidade de “Grandes Esperanças”. Com um vocabulário bem diversificado (é necessário um dicionário ao lado ou ler o tempo todo as notas de rodapé), a leitura é rica, principalmente pelas inúmeras citações e alusões a outros autores e obras, desde livros até peças de teatro. A edição que eu li da Penguin é excelente, pois contém uma lista extensa de referências e explicações de diversas passagens do livro.

Por mais que pareça que os eventos demoram para acontecer, o mistério criado em volta dos personagens é magnífico: te faz querer ler mais e mais, conhecer a fundo aquelas pessoas misteriosas e, claro, desvendar o principal mistério do livro: quem é, afinal, o benfeitor de Pip? Quem o ajudou a buscar suas grandes esperanças?

Os questionamentos do personagem em relação a seu passado, seu comportamento arrogante e suas crises de consciência são recorrentes. Pip vive em uma eterna indecisão e intensa tristeza, principalmente em relação à mulher que ama: a belíssima Estella, jovem que conheceu na infância e por quem nutre um amor infantil até a vida adulta.

Sem mais delongas, deixo o prazer da leitura para vocês. Leiam Dickens! Quando terminei o livro, fiquei com aquele vazio. Nenhum autor me comovia, nenhum outro livro me dava prazer em ler. Acho que vale o esforço.

 

Resenha: Grandes Esperanças - Charles Dickens

Título original: Great Expectations
Autor: Charles Dickens
Editora: Penguin Companhia
Número de páginas: 704
Ano: 2012
Gênero: Clássico
Nota1 estrela1 estrela1 estrela1 estrela1 estrela


1 Comentário
Escrito por:

Isabela Zamboni


Resenha: Paperboy – Pete Dexter

Quando li a sinopse desse livro, Paperboy, algo me chamou a atenção. Quando compararam-no com A Sangue Frio, do Capote, fiquei ainda mais interessada. O gênero policial, misturado com o fato de que o livro retrata um pouco do universo jornalístico da década de 60, foi um grande diferencial para me interessar pela leitura.

Paperboy conta a história dos irmãos Jack e Ward James, que investigam o caso do assassinato de um xerife local por Hillary Van Wetter, condenado à pena de morte. Depois de receber uma carta de uma mulher chamada Charlotte Bless, que afirmava a inocência de Hillary, Ward James, jornalista em ascensão, ao lado do parceiro Yardley Acheman, resolve investigar se Van Wetter foi realmente o culpado pelo crime.

Resenha: Paperboy - Pete Dexter

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

A trama se passa no sul dos Estados Unidos no final dos anos 60, período conturbado e cheio de transformações sociais. Jack, de apenas 20 anos, largou a universidade e voltou para casa para trabalhar como motorista do caminhão na empresa do pai. Percebemos toda a história pelo seu ponto de vista.

Vi muita gente reclamando da falta de capítulos, mas isso na verdade não incomoda. A leitura flui, o texto é gostoso de ler e a linguagem é pouco rebuscada. Por mais de 200 páginas, ficamos envolvidos em uma narrativa tensa, misteriosa e com personagens bem construídos.

Charlotte é uma personalidade única e envolvente, uma mulher “mais velha” que se sente atraída por homens na prisão, sempre tão longe e intocáveis. Yardley é um jornalista arrogante e prepotente, buscando a todo custo a fama e o sucesso, pouco se importando com a ética jornalística. W.W. James, o pai dos irmãos protagonistas, é um velho jornalista cansado que sente falta da ex-mulher e tenta, a todo custo, continuar com a boa reputação de seu jornal local. Jack, o principal, é um menino confuso e tranquilo, sempre tentando ajudar o irmão Ward, um homem misterioso, quieto e com uma inteligência e perseverança fora do comum.

A narrativa é densa e parte do real para o surreal. Alguns personagens da família Van Wetter são bizarros e perturbadores, trazendo algumas pitadas de emoção para a história. Algumas temáticas que estavam em voga na década de 60 também são introduzidas sutilmente, como o preconceito racial, a discriminação contra os homossexuais, a liberdade de expressão, a libertação sexual, entre outras.

Resenha: Paperboy

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Outro ponto que me agradou muito foram as descrições de personagens, principalmente pelos sentidos de Jack, principalmente o olfato. Dava para sentir o cheiro das pessoas, imaginar sua aparência e até sentir o gosto da cerveja quente e insossa dos dias de muito calor (e tristeza) vividos pelo personagem. É tudo muito sensitivo: conseguimos entrar na pele do jovem nadador que largou a universidade e ainda se incomodar, tanto quanto ele, com tantas situações inesperadas e reviravoltas da investigação.

A única coisa que me incomodou foi o final: muito triste, pouco original. Mas nada que tire o mérito do resto do livro.

*Obs: Assisti ao filme também. Nem tenho vontade de comentar, porque foi tão ruim e com um roteiro tão falho que nem é possível comparar.

*Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora

LEIA TAMBÉM

Resenha: Paperboy- Pete Dexter

Título original: Paperboy
Autor: Pete Dexter
Editora: Novo Conceito
Número de páginas: 336
Ano: 2013
Gênero: Romance policial
Nota1 estrela1 estrela1 estrela1 estrelaestrela vazia


Comente!
Escrito por:

Isabela Zamboni