Resenha

Resenha: Mortina – Barbara Cantini

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

Como vocês sabem, aqui no Resenhas temos o costume de ler absolutamente tudo. Para ajudar os adultos a encontrar novos e bons livros infantis para os pequenos, nós sempre apostamos em conhecer esses títulos e indicá-los por aqui. Comecei a ler Mortina com esse intuito, aproveitando o mote da história, bem diferente das que costumamos ver por aí. A pequena Mortina quer, como qualquer outra criança, fazer amigos. Mas há um detalhe: ela é uma menina-zumbi.

Confira a sinopse completa:

Mortina é uma menina diferente de todas as outras: ela é uma menina-zumbi. Passa os dias no Palacete Decrépito com sua tia Fafá Lecida e seu inseparável amigo, o galgo albino Tristão.
O maior sonho de Mortina é ter amigos de sua idade para brincar, mas sua tia nunca deixa que ela saia de casa, porque tem medo da reação dos humanos ao conhecerem a pequena zumbi.
Para sua alegria, um dia a oportunidade perfeita aparece: o Dia das Bruxas, quando todas as crianças saem às ruas com as fantasias mais horripilantes. Mortina nem vai precisar trocar de roupa para encarar a maior aventura de sua vida.

O Dia das Bruxas ainda não é uma comemoração muito popular no Brasil, o que por si já pode despertar o interesse das crianças pelo tema. Apesar dos hábitos “diferentes” de Mortina e sua tia Fafá Lecida, a história não tem nada de assustadora. Ao contrário: o foco principal é mostrar ao leitor (ou ouvinte) que, apesar das diferenças, todos podem conviver felizes.

Resenha: Mortina - Barbara Cantini
FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

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A história e as ilustrações são de Barbara Cantini – as ilustrações são superlúdicas e coloridas – e o trabalho de tradução foi muito bem feito por Eduardo Brandão. Algumas piadinhas, nomes de personagens e descrições ficaram bem divertidos em português.

Porém, o começo da história me agradou mais do que o desenvolvimento e a conclusão. Ele é bastante descritivo e explicativo, e a autora soube usar o talento com o lápis a seu favor: apesar de mortos – hahahahaMortina e sua turma são bem expressivos. Além disso, a ambientação do Palacete Decrépito é bem engraçadinha.

Mortina tornou-se sucesso e é o primeiro de uma série de livros com a personagem-zumbi. Deve ser por isso que, nas últimas páginas, fiquei com a impressão da conclusão ser meio vaga. Tipo aquelas séries da Netflix que são incríveis, mas no final da temporada só deixam perguntas para a próxima, sabe? haha

Espero que nos próximos as histórias sejam mais amarradinhas. Fora isso, Mortina é um livro diferente e bem divertido. Vale conhecer!

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* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

Resenha: Mortina - Barbara CantiniTítulo original: Mortina
Autor: Barbara Cantini
Editora: Companhia das Letrinhas
Número de páginas: 56
Ano: 2019
Gênero: Infantil
Nota

Resenha

Resenha: Deus Ajude Essa Criança – Toni Morrison

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Lula Ann nasceu em meados de 90, após as políticas segregacionistas serem proibidas nos Estados Unidos. Porém, apesar da proibição, o fato de ter o tom de pele escuríssimo fez com que sua mãe a renegasse desde o início da vida.

“Não levou mais de uma hora depois que tiraram a criança do meio das minhas pernas pra perceberem que tinha alguma coisa errada. Muito errada. Ela era tão preta que me assustou”. (P. 11)

Logo no primeiro capítulo Toni Morrison mostra a que veio e dá um soco na boca do estômago do leitor: na voz de Mel, a autora projeta o racismo velado de uma sociedade ainda não-habituada a encarar pessoas negras como seres humanos.

“O que eu sei é que dar de mamar pra ela era como botar uma macaquinha chupando minha teta. Passei pra mamadeira assim que cheguei em casa”. (P. 13)

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Inclusive o próprio fato de a personagem principal ser negra já é algo que podemos levar em consideração: eu, por exemplo, não me lembro da última vez que li um livro onde os personagens negros não tivessem um papel secundário, ou ainda, de escravidão e eterna serventia. Aproximar esses personagens da realidade dos leitores é extremamente necessário.

A garota passou a adotar o nome Bride – de Lula Ann Bridewell – e tornou-se uma executiva bem-sucedida, porém, com diversos traumas que perduraram da infância através do descaso de sua mãe, Mel, e do tratamento que teve desde o início de sua vida.

“O que se faz com os filhos é importante. E eles podem não esquecer nunca”. (P. 46)

Descrita como uma mulher de pele supernegra e extremamente bonita, é impossível não comparar a personagem à modelo Khoudia Diop, conhecida na internet como a “Deusa da Melanina“.

FOTO: Reprodução / Instagram

No livro, temos a visão de diversos personagens: Mel (a mãe de Lula Ann), Lula Ann/Bride (a garota protagonista da história), Booker (o envolvimento amoroso de Bride), Brooklin (a melhor amiga de Bride), entre outros. Eles servem para deixar a história mais rica e o leitor mais “por dentro” dos fatos e das personalidades de cada um. Porém, acredito que alguns poderiam ser mais bem trabalhados.

Deus Ajude Essa Criança é, sobretudo, uma história sobre erros que cometemos. Erros que parecem bobos, pequenos, erros enormes e que nunca serão apagados… E como eles impactam a vida das pessoas – tanto de quem erra, quanto se seus familiares, amigos e, até mesmo, da comunidade que os cerca. Além disso, o perdão também é um tema recorrente. O perdão próprio – sempre o mais difícil – e o desapego real para perdoar o próximo.

Confesso que nunca havia lido nada da autora por medo: a mulher é vencedora do Nobel de literatura, logo, já tive aquele complexo de vira-lata achando que não seria capaz de entender a mensagem do livro. E estava enganada: a linguagem empregada por Toni Morrison é extremamente fácil, sem deixar de ser tocante.

Resenha: Deus Ajude Essa Criança - Toni Morrison
FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

A construção das personagens é bem rica, mas sem muitos detalhes: aos poucos você vai pegando gosto por um ou outro, torcendo por eles, e claro: odiando alguns. Deus Ajude Essa Criança é uma história bastante imersiva. Ao final, a autora ainda te deixa com aquele gostinho de continuação – fiquei pensando na vida das personagens depois dos acontecimentos narrados no livro, assim como ficava na infância, ao ler um conto de fadas clássico.

Alguns acontecimentos do livro acabam, aos poucos, trazendo um ar “fantasioso” à trama e, no começo fiquei sem entender exatamente o motivo ou do que se tratavam as mudanças sofridas por Bride ao longo da história. Porém, vale lembrar que se trata de um “conto de fadas moderno”, portanto, no final vale levar esse fato em consideração.

Outro detalhe que vale a pena ressaltar do livro é o projeto gráfico: a capa, sem nenhuma tipologia, é maravilhosa! Eu gostei tanto que acabei usando sem a “cinta” que vem junto (pra mim ela só atrapalha a leitura, ainda mais em lugares como ônibus e metrô).

Enfim, é um bom livro, que trata sobre assuntos difíceis e que precisam ser discutidos, como: abuso sexual, estupro, abandono afetivo, colorismo e racismo. Vale a pena!

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Título original: God Help the Child
Autor: Toni Morrison
EditoraCompanhia das Letras
Número de páginas: 168
Ano: 2018
Gênero: Ficção
Nota: ****

Resenha

Resenha: Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços – Kazuo Ishiguro

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

Comecei Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços no intervalo de uma faxina (realidades de dona de casa, haha), e terminei borbulhando de ideias e questionamentos.

“Por que escrever um romance se ele fosse oferecer mais ou menos a mesma experiência que alguém poderia ter ao ligar a televisão? Como a ficção escrita poderia ter chances de sobreviver diante do poder do cinema e da televisão não oferecesse algo único, algo que as outras formas não eram capazes de realizar?” (p.30) 

O livro foi baseado no discurso de Kazuo Ishiguro ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura em 2017. Assim como Faça Boa Arte, de Neil Gaiman – feito a partir de um discurso para formandos. Esses livros sempre são uma fonte rápida de inspiração, além de um verdadeiro ode à escrita.

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Em Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços, o autor comenta sobre como encontrou sua “voz literária” e como ela foi responsável por deixar viva a memória de um Japão pós-guerra que o autor acreditava ter ficado vivo apenas em seu imaginário.

“[…] o Japão que existia na minha cabeça fora um constructo emocional montado por uma criança a partir da memória, da imaginação e da especulação. E, talvez, mais significante ainda, fosse o fato de perceber que, a cada ano que se passava, esse meu Japão – esse lugar precioso com  qual cresci – ficava cada vez mais fraco.” (p. 27) 

Resenha: Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços - Kazuo Ishiguro
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Mas, é claro: ninguém nasce um autor premiado e vencedor de um Nobel. Para chegar até lá, Ishiguro contou com a ajuda de mentores, rascunhou muito, e também duvidou muito de sua própria capacidade de contar histórias.

“Mas, no futuro, o que realmente queria fazer era escrever uma história sobre como uma nação ou uma comunidade enfrentava as mesmas questões. Uma nação se lembra ou se esquece da mesma maneira que um indivíduo? Ou há diferenças importantes? O que, exatamente, são as memórias de uma nação? Onde são guardadas? Como são moldadas e controladas? Há vezes em que esquecer é o único jeito de interromper ciclos de violência, ou de impedir uma sociedade de se desintegrar em caos e guerra? Por outro lado, poderiam nações estáveis e livres serem realmente erguidas sobre pilares de amnésia proposital e justiça frustrada?” (p. 42)

Em seu discurso, o autor passa rapidamente pela infância como imigrante japonês na Inglaterra – mesmo pouco tempo depois da Grande Guerra ter acabado. Comenta sobre a adolescência e os primeiros “rabiscos” como autor, sobre a entrega que a literatura exige, mas, acima de tudo, inspira através de seu exemplo.

Confira abaixo algumas frases de destaque do livro:

“[…] é essencialmente isso de que se trata o meu trabalho. Uma pessoa escrevendo em um quarto silencioso, tentando se conectar com outra pessoa que lê em outro quarto silencioso – ou não tão silencioso assim.”p. 49

“A boa escrita e a boa leitura romperão barreiras.” p. 57.

Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços é um ótimo livro para quem quer se aventurar na área da escrita criativa, além de mostrar a faceta mais humana de Ishiguro.

E você? Já leu? Me conta através dos comentários!

* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

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Resenha: Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços - Kazuo Ishiguro Título original: My Twentieth Century Evening and Other Small Breakthroughs
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 60
Ano: 2018
Gênero: Discurso
Nota: 

Resenha

Resenha: Carta a D. – André Gorz

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Comecei a ler Carta a D. depois que recebi essa edição maravilhosa da Companhia das Letras. Como o livro é curtinho, acabei em poucas horas.

A carta começa com um tom de retratação, onde André Gorz afirma não ter dado o devido “crédito” à esposa em outra de suas publicações. “Pintando” a amada como alguém frágil, sem encantos e que constantemente precisava de ajuda. Em Carta a D. o autor se desmente, e até pergunta “onde estava com a cabeça” quando descreveu Dorine dessa forma.

Resenha: Carta a D. - André Gorz
FOTO: Reprodução

“Você está para fazer 82 anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que 45 quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca”.

É o início da mensagem de André à amada que, em poucas páginas, retoma a trajetória de amor, companheirismo e lutas enfrentadas pelo casal. Como Bauman costumava dizer, em tempos de “amor líquido” como os que presenciamos, chega a ser diferente (e até chocante) pensar em algo tão duradouro.

Muitos pontos chamam a atenção do leitor: o início penoso da vida a dois é um deles. Gorz também aproveita para exaltar Dorine, que sempre esteve do seu lado nos momentos mais difíceis e que, sem dúvidas, se não tivesse contado com o olhar clínico de D., provavelmente não teria concluído muitas de suas matérias como jornalista e suas obras como filósofo.

Resenha: Carta a D. - André Gorz
FOTO: Reprodução

 

A realidade, muitas vezes, bate na cara do casal – que não chega a ser nem perto de idealizado: ciúme, brigas, doenças… Tudo acontece e põe o amor do dois à prova. A passagem mais difícil, e que perdura até o fim da vida, é a doença que acomete Dorine.

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Pela amada, Gorz faz tudo o que está em seu alcance, muda seu estilo de vida – resolvem ter uma vida mais calma – e se vê confrontado: o medo de perder D. é excruciante.

Aproveitamos para gravar um bate-papo sobre a obra que, ao mesmo tempo, é simples e tão complexa. Ouça a conversa:

* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

E você? Já leu Carta a D.? O que achou da obra? Me conta através dos comentários!

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Resenha: Carta a D. - André GorzTítulo original: Lettre à D.: Histoire d’un Amour
Autor: André Gorz
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 104
Ano: 2018
Gênero: Cartas
Nota