Resenha

Resenha: História da Menina Perdida – Elena Ferrante

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

História da Menina Perdida é o último livro da série Napolitana – e também o mais melancólico. Depois de ler empolgadíssima os quatro livros de Elena Ferrante, quando terminei este último volume, senti um vazio muito grande. Me apeguei a todos os personagens, àquelas tramas e enredos, às vidas das pessoas daquele bairro de Nápoles. Não tem como não se emocionar com uma narrativa tão densa e brutal.

Porém, o último livro é o mais triste, o que mais puxa para baixo. Não era para menos: chegamos à vida adulta e à terceira idade das protagonistas. Os problemas mudam, as relações se complicam e o tempo vai varrendo tudo, deixando apenas fragmentos de memórias. 

Lenu agora precisa passar por um furacão em sua vida: retornar à Nápoles, lidar com sua mãe enferma, divorciar-se do marido, começar uma vida nova sem nenhum dinheiro no bolso, mas com filhas pequenas para cuidar. Já Lila vive seu momento de ascensão: as coisas começam a melhorar, vira dona da própria empresa, é admirada por todas no pequeno bairro onde vive.

Alguns personagens morrem, outros se mudam, muitos nem são mais lembrados. Aos poucos, Lenu torna-se uma mulher madura e percebe quantos erros cometeu durante a vida. A maternidade torna-se o ponto central da história, todas suas dificuldades e cargas emotivas. A paternidade também é bastante discutida: o papel de um homem dentro da família, a relação com a esposa e as crianças, as responsabilidades que quase nunca são assumidas; da mesma forma, Elena Ferrante aponta os problemas que as mulheres enfrentam ao ter que lidar com uma vida profissional, cuidar dos filhos, os afazeres domésticos e ainda suportar maridos que nunca estão presentes.

Em História da Menina Perdida, Lila torna-se, finalmente, não alguém que deseja competir com Elena: as duas caminham juntas e lidam com as adversidades do melhor jeito que podem. A amizade tóxica de Lenu e Lila, cheia de altos e baixos, encontros e desencontros, afeto e desgosto, é fortalecida e desfeita em História da Menina Perdida.

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Como já imaginava, Nino mostra-se um homem repugnante e Lenu precisa lidar com o fato de que aquela paixão ardente da infância e adolescência morreu. Agora ela precisa dar um jeito de, como escritora, manter seu trabalho ativo e ainda restabelecer suas conexões no bairro, aproximar-se novamente de sua família, conseguir lidar da melhor forma possível com três crianças e, claro, com a melhor amiga.

Dos quatro livros da série, esse é o mais arrastado. Alguns momentos são um pouco cansativos – e fica bastante óbvio o rumo dos acontecimentos. Porém, ao final da juventude – e o início da idade madura – um evento desencadeia uma série de tristezas e abatimentos que vão permanecer até a última linha do livro.

Resenha: História da Menina Perdida - Elena Ferrante
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

No entanto, um dos pontos mais interessantes deste livro é a passagem do tempo; acompanhamos tudo como se estivesse acontecendo naquele instante, mas de repente as crianças já são adultas, os personagens alteram o rumo de suas vidas, o cenário político muda completamente. A Itália já não é mais a mesma, assim como as relações entre as famílias do bairro.

O final é triste, porém, emocionante. Como mencionei anteriormente, deixa um vazio bem grande. Os livros de Elena Ferrante nos deixam atados às personalidades fortes daqueles personagens e suscitam muitas reflexões a respeito de amizade, família, amor, memória, afeto, rancor, inveja e, especialmente, transformação social. A tetralogia napolitana é um grande romance de formação, dividido em quatro partes – o tempo leva tudo embora e só permanece uma memória distante, longínqua, de momentos angustiantes e primorosos.

E você, já leu? Conta pra gente o que achou!

LEIA TAMBÉM

Resenha: História da Menina Perdida - Elena FerranteTítulo original: Storia della bambina perduta
Autora: Elena Ferrante
Editora: Biblioteca Azul
Número de páginas: 480
Ano: 2017
Gênero: Literatura estrangeira
Nota

Resenha

Resenha: História de Quem Foge e de Quem Fica – Elena Ferrante

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Quando você acha que Elena Ferrante não vai mais impressionar, chega o terceiro livro da série Napolitana: arrebatador e ainda mais maduro do que o segundo – História do Novo Sobrenome – e o primeiro – A Amiga Genial. O fervor político da década de 60/70 só aumenta em História de Quem Foge e de Quem Fica, assim como a luta pela liberdade sexual, o feminismo e outras manifestações que transformaram bastante a Europa naquele período.

O livro começa com a ascensão de Lenu como escritora, passa por toda sua glória, até atingir a decadência e, por fim, àquilo que ela mais tinha pavor: tornar-se uma subalterna da personalidade explosiva e cativante de Lila. Enquanto ela luta para tornar-se diferente, mostrar a todos que é uma mulher inteligente, estudada, com um bom casamento, ao mesmo tempo nunca sai da sombra da melhor amiga.

Como mencionei na resenha anterior, Lila me irritava profundamente, me dava um ódio gigantesco. E assim como alguns colegas que leram o livro me alertaram, dessa vez a raiva foi transferida para a protagonista: ela realiza tantas ações inconsequentes, que torna-se impossível não surtar com tamanha burrice, ou citando a fala de Lila, “imundície e cretinice”.

Dessa vez, o foco da história é a narradora, a própria Elena, que passa por situações turbulentas durante a juventude e início da vida adulta, em seus papéis de mãe, esposa, amiga, cunhada, nora, irmã. Tudo é posto à prova: Elena entra em uma forte crise de inspiração – sua genialidade começa a ser questionada por todos, afinal, seu primeiro livro foi um sucesso, mas e o segundo? Em meio a tantas revoltas, assassinatos no bairro (a situação é bem crítica em Nápoles naquele período), movimentos da classe operária, discussões fervilhantes nas universidades, policiais sempre à espreita, Elena vive um dilema moral e uma crise de identidade: percebe que sempre viveu na sombra de Lila e não suporta seu papel como mãe e esposa. Custa a aceitar que seu marido não a apoia – pelo contrário, prefere que ela se submeta somente ao papel de esposa e cuidadora do lar, sem se importar com sua carreira de escritora.

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Durante um tempo, Elena até arrisca a carreira como jornalista, escrevendo artigos para um jornal famoso, mas a vida de mãe – ela tem duas meninas com o marido Pietro – a sufoca, a sucumbe e a desgraça. As personagens femininas em História de Quem Foge e de Quem Fica ganham uma força ainda maior que nos outros livros de Ferrante. Mariarosa, a cunhada de Lenu, é a imagem da mulher revolucionária da década de 70: dirige seu próprio carro, toma pílula anticoncepcional, é militante, tem diversos companheiros, usa drogas, sem nunca pensar em casar ou engravidar. A família toda de Pietro é composta por universitários, estudiosos, militantes e apoiadores da causa socialista, enquanto o próprio marido de Elena é um reacionário conservador.

Durante várias páginas de História de Quem Foge e de Quem Fica, principalmente a partir da metade do livro, percebi um tom de Madame Bovary misturado com Anna Kariênina. E o mais divertido é que Ferrante faz até uma brincadeira com isso: Lenu quer escrever um romance sobre como as mulheres são sempre vistas pelos homens como uma continuação de si mesmos, como uma cópia, um corpo duplicado; ela até cita os romances que leu para perceber como as mulheres nunca são retratadas por autores homens como elas realmente pensam ou sentem, mas como eles acham que sentiriam se fossem mulheres. Ela comenta sobre estar estudando Anna Kariênina, Madame Bovary Moll Flanders, para usá-los como base para seu romance; no entanto, as protagonistas destes mesmos livros tornam-se um reflexo dela mesma, que vive situações absurdas no maior dos clichês literários.

Em meio aos tormentos de sua vida conjugal e profissional, também acompanhamos boa parte da vida de Lila, que, após desvencilhar-se de Nino – mais um homem que sugou toda sua energia e depois a abandonou – precisa encontrar um emprego para cuidar de seu filho Gennaro e livrar-se de Stefano, seu marido abusivo que a esbofeteava com frequência. Lila começa a viver então com Enzo, um rapaz soturno, quieto, mas muito educado, que a ajuda como pode durante fases muito turbulentas.

Lina trabalha em uma fábrica de salsichas e embutidos, sofrendo todo tipo de abuso sexual, moral, violência e humilhação como nunca tinha vivido antes. Sem querer, envolve-se em uma luta do proletariado contra os abusos do patrão e as más condições de trabalho. Lenu participa de longe, ouvindo o relato de Lila, que trabalhava sem descanso e ainda precisava cuidar do filho.

Elena tenta ajudar a amiga, mas é humilhada por todos que participam do movimento social: acusam-na de, do alto de suas influências burguesas, tentar ajudar do jeito mais ridículo possível: acionando advogados e pessoas importantes para tentar conter os abusos da fábrica, desmoralizando a luta proletária.

Lina é aquela mulher que passou por situações terríveis – estuprada, violentada, sempre maltratada por todos – mas continua de pé, firme e forte, fazendo o possível e impossível para mostrar que tem talento, que é melhor do que todos,  e que por mais que os homens tentem subordiná-la, isso seria sempre impossível. Sua inocência e ignorância em relação aos homens que se dizem apaixonados, mas na primeira oportunidade desaparecem, acaba; ela agora é uma mulher trabalhadora que, se tivesse tido a oportunidade, seria muito mais brilhante e deixaria qualquer pessoa a seus pés.

Resenha: História de Quem Foge e de Quem Fica - Elena Ferrante
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Por não ter oportunidades na vida, ela almeja que Elena, sua melhor amiga, atinja o patamar que ela sempre sonhou: uma vida boa, feliz, tranquila, sem se preocupar com brigas de bairro, mas sendo uma escritora de prestígio, usando sua inteligência para mudar o mundo. Como Lenu não faz isso (inclusive, faz o oposto, arruína-se por causa de Nino Sarratore) os laços que unem a amizade das duas estão prestes a arrebentar.

Nino Sarratore é o famoso personagem que podemos chamar de embuste: parece ser um homem à frente de seu tempo, liberal, inteligente, respeitoso; mas quando lentamente se aproxima das mulheres, diz-se apaixonado, ciumento, maravilhado. Assim que enjoa e se entedia, deixa qualquer uma para trás (geralmente com filhos, cuja paternidade ele nunca assume) e desaparece do mapa, culpando-as por terem se “entregado demais” aos sentimentos. Sempre criticou o pai, Donato, que fazia isso com as mulheres do bairro, mas tornou-se farinha do mesmo saco.

Sei que a resenha ficou longa, mas não é fácil encontrar palavras que descrevam a genialidade por trás dessa tetralogia Napolitana. Agora, só me resta o desfecho da história – o quarto livro, História da Menina Perdida. E você, já leu? O que achou? Deixe sua opinião nos comentários, vou amar saber!  🙂

LEIA TAMBÉM

Resenha: História de Quem Foge e de Quem Fica - Elena FerranteTítulo original: Storia di chi fugge e di chi resta
Autora: Elena Ferrante
Editora: Biblioteca Azul
Número de páginas: 416
Ano: 2016
Gênero: Literatura estrangeira
Nota

Resenha

Resenha: História do Novo Sobrenome – Elena Ferrante

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

História do Novo Sobrenome é a continuação do maravilhoso A Amiga Genial, de Elena Ferrante. Este é o segundo livro da série Napolitana, e agora entramos em contato com o fim da adolescência e início da fase adulta de Lila, Elena, Rino, Stefano, Nino, Pinuccia, os irmãos Solara e todos os outros personagens que compõem essa narrativa sobre a amizade entre os jovens de um pequeno bairro de Nápoles.

A narrativa de História do Novo Sobrenome abre espaço para reflexões a respeito da sexualidade, do amor e, principalmente, do papel imposto às jovens mulheres em meados do século XX ― contraponto construído entre as duas personagens principais: Lila e Elena. Lila casa-se cedo, precisa trabalhar para ajudar a família e é cobrada o tempo todo para que tenha filhos; já Elena (ou Lenu, a narradora da história) não se casa, mas prepara-se para a faculdade, estuda muito e percebe que tem chances de um futuro promissor longe da família e do bairro pobre de Nápoles.

Já adianto que será impossível fazer uma resenha sem spoilers. Muitos acontecimentos deste livro precisam ser discutidos e eu PRECISO desabafar sobre como essa leitura me deixou incomodada, perplexa e ao mesmo tempo absorta. Em História do Novo Sobrenome, Lenu não nos poupa de nada: são escancaradas cenas de adultério, casamento, traições fortes dentro das amizades e também momentos claros de violência, tensão e inseguranças. É também o momento em que a protagonista tenta se desvencilhar de tudo o que ela achava sobre si mesma, buscando uma nova identidade, de preferência bem longe dos atritos constantes do bairro em que mora.

Logo no começo, vemos que Elena está se distanciando de Lila e dos amigos do bairro, focando cada vez mais nos estudos. Sua paixão por Nino Sarratore também só cresce, principalmente através do contato com a professora Galiani, disposta a fazer com que seus alunos busquem novos rumos e principalmente uma universidade de prestígio.

Lila está cada vez mais raivosa: seu casamento com Stefano só piora a cada dia e, por mais que tenha todos os luxos com os quais sempre sonhou, seu humor oscila e vai de mal a pior. O casamento é apenas uma farsa e ela sofre diariamente com isso.

A maior parte do livro se passa durante o verão, quando Lila, Lenu, Pinuccia, Nunzia (mãe de Lila), Stefano e Rino vão passar as férias em Ischia, coincidentemente onde Nino Sarratore estará também, junto de um amigo. Nino é o típico arrogante, sem graça, mas que faz todas se apaixonarem por ele com suas palavras difíceis, seus ideais políticos, mostrando o quanto é estudioso. Isso é o que faz Lenu se apaixonar por ele, mas ela nem imagina o quanto ele vai tornar-se obscuro a seus olhos.

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São os acontecimentos que ocorrem em Ischia que tornam a leitura difícil. A cada página lida pelo ponto de vista de Elena Greco, eu sentia um mal-estar. Como Lenu podia ser tão ingênua, tapada e tão boazinha? Como conseguia engolir a seco tantas maldades e traições de Lila? Ela não conseguia perceber como todos ao seu redor a debochavam e humilhavam? Esse livro escancara a difícil relação entre as duas melhores amigas: não importa o que Elena faça, Lina quer se sobressair, quer mostrar que pode mais, que sabe mais. O clima de competição é insuportável e até sufoca. Eu queria socar a cara de Lila e pedir para Lenu, PELO AMOR DE DEUS, abra os olhos!

Mas o mais complicado desse livro é que a empatia por todos os personagens é muito forte. Elena Ferrante faz isso com maestria: acompanhamos todos os dissabores e dificuldades de todos os personagens, tornando impossível odiá-los. Lila é para ser uma personagem insuportável (eu não suporto, me dá desgosto), porém ainda assim suas ações, até certo ponto, são justificáveis. Lila é uma mulher inteligentíssima, que foi privada dos estudos desde cedo. Casou-se com dezessete anos, engravidou, o marido a esbofeteava, todos no bairro a odiavam. Ela vê sua melhor amiga estudar, crescer, tornar-se alguém livre, que pode conseguir o que quiser, enquanto ela está presa a um casamento abusivo, rodeada de pessoas detestáveis. Nunca soube o que era apaixonar-se, até conhecer Nino, a paixão secreta de sua melhor amiga.

Toda vez que Lenu quer mostrar algum feito seu, alguma conquista, compartilhar alguma felicidade com Lila, no começo ela fica feliz, demonstra afeto; em seguida, começa a tentar achar um jeito de debochar da amiga, querendo mostrar-se superior. Essa petulância é de dar nos nervos, mas, afinal, sabemos de tudo apenas pelo ponto de vista de Elena.

Resenha: História do Novo Sobrenome - Elena Ferrante
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Lenu engole tudo a seco, observa o mundo a seu redor com cautela, é insegura, sente-se constantemente com medo. Em alguns momentos eu só queria que essa personagem explodisse, jogasse algumas verdades na cara das pessoas, fosse ríspida. Mas isso nunca acontece, a catarse não chega. Que desespero!

Como esperar que pessoas que viveram no meio da pobreza, da violência, entre agiotas e contrabandistas, que foram privadas de educação, precisam trabalhar de qualquer forma para conseguir comer e sustentar famílias enormes, entendam o motivo pelo qual Lenu largou tudo e foi para Pisa estudar? Para eles, qual o sentido de um diploma? E o mais interessante é que nem mesmo a protagonista sabe porque faz o que faz. Ela se sente sempre uma pessoa a menos, inferior aos namorados que tem, inferior à melhor amiga, inferior a qualquer um. Elena procura uma identidade própria, se desvencilhar daquilo que sempre a magoou e também sempre admirou. Ela acredita que ter um diploma resolverá seus dilemas existenciais e, de certa forma, o início de sua carreira é um dos desfechos de História do Novo Sobrenome.

A potência dessa narrativa é alta: as reflexões da personagem e seus pensamentos mais íntimos tornam a leitura longe de ser enfadonha, mas sim curiosa. A atração que os personagens lançam sobre o leitor são grandes, não dá vontade de abandonar o livro. Agora só resta terminar a saga: hora de começar a leitura de História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida. 

Só espero que Lina melhore – e bastante!

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Resenha: História do Novo Sobrenome - Elena FerranteTítulo original: Storia del Nuovo Cognome
Autora: Elena Ferrante
Editora: Biblioteca Azul
Número de páginas: 472
Ano: 2016
Gênero: Literatura estrangeira
Nota