Resenha

Resenha: Na Praia – Ian McEwan

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Claro que Ian McEwan não iria decepcionar: desde que comecei a ler os livros do autor, com Enclausurado, não parei mais. E com Na Praia não foi diferente: apesar de não ser um dos melhores (prefiro Reparação), ainda é uma história comovente e um drama de primeira.

O livro conta a história de Edward Mayhew e Florence Ponting, ambos virgens, que se instalam num hotel na praia de Chesil, perto do Canal da Mancha, para celebrar a noite de núpcias. O enredo é basicamente esse: durante a noite de núpcias do casal, com sua prosa implacável, McEwan alterna os pontos de vista de Edward e Florence, mostrando seus pensamentos e motivações mais secretas. Também conhecemos detalhes sobre a vida íntima de cada um e os acontecimentos que os levaram ao casamento.

Na Inglaterra, em 1962, as mudanças que abalariam o mundo em relação ao comportamento sexual e moral ainda estão embrionárias e, portanto, existe sempre um muro entre o casal: o muro da vergonha, do medo, da ansiedade conjugal. Porém, o grande problema – que vai permear toda a história – é que Florence tem problemas sérios de intimidade. Ela sente nojo e asco de apenas beijar – ao contrário de Edward, que sente-se ansioso em manter relações sexuais com a esposa.

Vivera todos esses anos isolada consigo mesma e, curiosamente, isolada de si mesma, nunca querendo ou ousando olhar para trás.

Ele é um rapaz recém-formado em história, de origem provinciana; sua mãe tem problemas mentais, e o pai é professor secundário. A noiva é uma violinista promissora, líder de seu próprio quarteto de cordas, filha de um industrial e de uma professora universitária de Oxford. Ambos são apaixonados por seus estudos, têm muitas ambições e acreditam que, juntos, irão ascender e viver uma vida cheia de liberdade.

No entanto, durante todo o clima de tensão que permeia a noite de núpcias, um pequeno gesto e um mal-entendido acaba por transformar a vida dos dois. Apesar de se amarem – dizem isso o tempo todo – muitas vezes somente o amor não é necessário para um casamento feliz.

É assim que todo o curso de uma vida pode ser desviado – por não se fazer nada.

O drama dos recém-casados é um romance compacto, intenso e transcende o retrato da época para alcançar outra dimensão: Na Praia é, acima de tudo, uma história sobre a perda da inocência, a transformação e a “expulsão do paraíso”, crucial na vida de todo indivíduo.

Outro fator que chama bastante a atenção é como Ian McEwan esmiúça o amor da protagonista pela música clássica: assim como em A Balada de Adam Henry, o autor demonstra novamente sua paixão pelas peças musicais, transformando o empenho e satisfação de Florence pela música em um belíssimo poema.

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O final é triste, um pouco trágico, mas bastante realista: prepare-se para encontrar melancolia e amargor.

On Chesil Beach

Recentemente, foi lançado o filme com a Saoirse Ronan no papel de Florence. Não consegui assistir ainda, mas quero muito ver! Confira o trailer de On Chesil Beach:

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Resenha: Na Praia - Ian McEwanTítulo original: On Chesil Beach
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 136
Ano: 2007
Gênero: Literatura estrangeira / Romance / Drama
Nota

Resenha

Resenha: A Balada de Adam Henry – Ian McEwan

Foto: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

A Balada de Adam Henry é o meu terceiro livro do Ian McEwan. Desde que li Enclausurado, depois Reparação, os livros do autor viraram praticamente uma obsessão em minha vida. Hahaha! Agora, A Balada de Adam Henry é mais uma história fantástica: uma lição sobre amor, frustração, empatia, crença. fé, religião e justiça. Sim, é tudo isso mesmo!

Veja a sinopse oficial:

“A personagem central é Fiona Maye, uma juíza do Tribunal Superior especialista em Direito da Família. Ela é conhecida pela “imparcialidade divina e inteligência diabólica”, na definição de um colega de magistratura. Mas seu sucesso profissional esconde fracassos na vida privada. Prestes a completar sessenta anos, ela ainda se arrepende de não ter tido filhos e vê seu casamento desmoronar. Assim que seu marido faz as malas e sai de casa, Fiona tem de lidar com o caso de um garoto de dezessete anos chamado Adam Henry. Ele sofre de leucemia e depende de uma transfusão de sangue para sobreviver. Seus familiares, contudo, são Testemunhas de Jeová e resistem ao procedimentoO dilema não se resume à decisão judicial. Como nos demais casos que julga, Fiona argumenta com brilho em favor do racionalismo e repele os arroubos do fervor religioso. Mas Adam se insinua de modo inesperado na vida da juíza. Revela-se um garoto culto e sensível e lhe dedica um poema incisivo: “A balada de Adam Henry”. Os sentimentos despertados pelo garoto a surpreendem e incomodam. A crise doméstica e o envolvimento emocional com Adam – que oscila entre a maternidade reprimida e o desejo sexual – desarrumam sua trajetória de vida exemplar, trilhada com disciplina espartana desde a infância.”

Com uma premissa impactante dessas, dificilmente o livro seria ruim, certo? Certíssimo, porque ele é realmente tudo o que promete. 

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Livros que envolvem casos de justiça, tribunal e decisões complicadas geralmente suscitam questões éticas e morais. A personagem principal, Fiona, é de uma força sem precedentes: mulher que conquistou uma carreira com muito esforço, dedicação e ganhou o respeito de todos à sua volta. Essa personagem – praticamente uma muralha – vê suas energias esvanecerem quando precisou lidar com duas crises simultâneas: seu marido quer viver uma aventura sexual com uma moça mais jovem – já que eles não têm uma vida sexual ativa faz tempo – e um adolescente de 17 anos decide morrer e rejeitar transfusão de sangue por motivos religiosos.

Resenha: A Balada de Adam Henry - Ian McEwan
Foto: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Ao mesmo tempo em que sofre com a crise conjugal e vive momentos de completa solidão, a juíza envolve-se com Adam Henry de uma forma bastante maternal (já que ela não tem filhos), mas principalmente profissional. No entanto, um jovem de 17 anos, Testemunha de Jeová, que segue todas as leis mais rígidas de sua religião e passa por uma crise forte de identidade… Vai buscar conforto em quem? Com certeza na mulher que o ajudou, mesmo indiretamente, a enxergar a vida com outros olhos.

Durante a leitura, passei por vários estágios, desde a empatia pela mulher, até o sofrimento do garoto, passando pelo ódio da masculinidade frágil do marido de Fiona. Ela encara de frente inúmeras situações que arrepiariam a nuca de qualquer pessoa comum. No entanto, sua relação com o garoto só se estreita e, em alguns momentos, acabamos nos perguntando: “Por que ela está fazendo isso com o menino? Quais as intenções dela?”.

A questão que mais me tocou em A Balada de Adam Henry é a linha tênue entre o fundamentalismo religioso e o racionalismo. Ao mesmo tempo em que as decisões das Testemunhas de Jeová parecem incabíveis, estão dentro de suas normas religiosas. E como julgar esse tipo de situação? Durante a leitura, eu me perguntava: “como essa personagem consegue dormir à noite tomando essas decisões que mudam completamente a vida das pessoas?”. E o mais engraçado é que Fiona, assim que pisava do lado de fora do Tribunal, já pensava em outras coisas, como se “desligasse” do trabalho. Fiquei meio incrédula. Só sei que ser juiz está longe de ser um trabalho fácil.

Resenha: A Balada de Adam Henry - Ian McEwan
Foto: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Como todo livro do Ian McEwan, há muito charme e sutileza na linguagem do autor, sem contar as personagens, que, apesar de melancólicas, são cultas, sofisticadas e palpáveis. Toda vez que leio uma obra do autor britânico, sinto como se fosse melhor amiga daquelas personagens ou compreendesse completamente o contexto em que vivem. Poucos autores conseguem tocar na ferida ou mexer com nossos sentimentos como McEwan.

Pesquisando na internet, descobri que ainda será lançado uma adaptação de A Balada de Adam Henry para o cinema, com Emma Thompson no papel principal. The Children Act, em inglês, já foi exibido no Festival de Toronto, mas deve estrear em 2018 no Brasil. Já estou ansiosa para assistir!

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Resenha: A Balada de Adam Henry - Ian McEwanTítulo original: The Children Act
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 200
Ano: 2014
Gênero: Romance
Nota

 

Resenha

Resenha: Reparação – Ian McEwan

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Posso afirmar que Reparação é um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Depois de conhecer Enclausurado, do Ian McEwan, gostei tanto do estilo do autor que aproveitei para comprar a obra mais conhecida dele. Não me arrependo, e todo o valor que Reparação recebe é merecido. Isso porque eu já tinha assistido ao filme primeiro (lá em 2008), mas isso não tirou a imersão nem por um segundo!

A trama é fascinante e arrebatadora, em diversos sentidos. Mas vou explicar o porquê: a história gira em torno de Briony Tallis, pré-adolescente que nutre a ambição de se tornar escritora. No dia mais quente do verão de 1935, numa casa de campo da Inglaterra, Briony vê pela janela uma cena incompreensível: sua irmã mais velha – Cecilia – tira a saia e a blusa para mergulhar, de calcinha e sutiã, na fonte do quintal, na frente de um amigo de infância – Robbie – filho da arrumadeira da família.

A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a aprendiz de romancista, movida por uma imaginação fértil, comete um crime que marcará o futuro de toda a família — e Briony passará o resto da vida tentando desfazer o mal que causou.

Os acontecimentos durante a primeira parte do livro são marcantes: é inacreditável considerar as coisas que Briony faz com sua imaginação fértil de criança mimada. As acusações que ela faz, as cenas que presencia e sua petulância com a família a tornam uma personagem detestável.

No entanto, apesar de cometer muitos erros, ao longo de toda a história ela tenta repará-los, mesmo que não tenha a coragem necessária para isso. O nome “reparação” não é à toa, já que todos os personagens tentam, de alguma forma, reparar ou remendar tudo aquilo que é – ou foi – quebrado em suas vidas.

O livro aborda assuntos intensos, como a culpa, o perdão, os horrores da guerra, o amor que ultrapassa qualquer barreira, a esperança que vive no coração dos personagens, além de tratar também de temas como desigualdade, ascensão social e ambição. Não estou exagerando, Reparação é sobre tudo isso, mesmo!

Resenha: Reparação - Ian McEwan
FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Mas o mais interessante no estilo de Ian McEwan são as sutilezas: considerando que Briony é a protagonista que sempre sonhou em ser escritora, a obra propõe diferentes apontamentos em relação à própria natureza da literatura, seus poderes e limitações. A metalinguagem é constante, além da relação entre ética e estética. A sofisticação do autor é notável, sempre tecendo a trama com suas minúcias e pequenos detalhes, transformando a narrativa em um drama intenso.

Também não posso deixar de comentar sobre o romance visceral em Reparação: Cecilia e Robbie, apesar dos acontecimentos trágicos que rondam suas vidas, formam um casal apaixonado daqueles de aquecer o coração.

O tempo todo torcemos para que fiquem juntos, superem as tristezas e pesos que carregam nas costas e, praticamente o livro inteiro separados por conta da Segunda Guerra, é quase possível sentir a dor e as aflições dos personagens. Sem contar que os horrores da guerra são narrados de forma brutal e realista, tornando impossível não sofrer durante a leitura. Não espere uma leitura suave, apesar da escrita envolvente do autor.

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O livro é separado por partes: os acontecimentos do verão de 1935, a Segunda Guerra e, logo no finalzinho, há um grande salto no tempo, para 1999. Não vou contar detalhes para não perder a graça, mas na hora que li essa parte, a melancolia que bateu foi tão grande, que precisei fazer uma pausa. Reparação mexeu demais comigo e não conseguia parar de pensar nos personagens e naquela história arrebatadora por dias.

Aproveitei então para rever o filme com Keira Knightley, James McAvoy e Saoirse Ronan, traduzido no Brasil como Desejo e Reparação. Confesso que fiquei bem feliz com a adaptação, que trouxe a essência do livro. Porém, se você ficou com vontade de ler, não recomendo assistir ao filme primeiro, porque perde bastante a graça.

Confira o trailer de Desejo e Reparação:

Reparação mostra como pequenos atos que parecem inofensivos podem não apenas afetar e marcar profundamente a vida de alguém, mas trazer amargos arrependimentos. Briony é uma personagem que luta contra seus demônios, depois da terrível escolha que fez durante sua fase de pré-adolescente. E até durante a fase adulta a protagonista ainda é uma pessoa egocêntrica e covarde – apesar de praticamente ter acabado com a vida de Cecilia, por quem nutria bastante afeto, ainda sentia medo de admitir suas falhas e pedir perdão.

Resenha: Reparação - Ian McEwan
FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Infelizmente só encontrei o livro com a capa do filme, mas essa edição é ótima! Como ela foi feita para ser econômica, as  letras são um pouco pequenas, mas nada que incomode demais. Terminei a leitura em poucos dias, apesar de ficar emocionalmente afetada (haha)! Recomendo bastante para quem procura uma obra de tirar o fôlego.

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Resenha: Reparação - Ian McEwanTítulo original: Atonement
Autora: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 272
Ano: 2011
Gênero: Romance/Literatura Estrangeira
Nota: