Resenha: Não Me Abandone Jamais – Kazuo Ishiguro

O livro Não Me Abandone Jamais é tão triste, mas ao mesmo tempo tão reconfortante. Existe algo de acolhedor na escrita de Kazuo Ishiguro que faz a gente querer abraçar o livro e se envolver com os personagens, como se eles fizessem parte de nós. E se você se pergunta se o autor mereceu o Prêmio Nobel da Literatura em 2017, a resposta é com certeza SIM!

Resenha: Não Me Abandone Jamais - Kazuo Ishiguro

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Não Me Abandone Jamais conta a história de três crianças que viveram em Hailsham, um internato na Inglaterra que era considerado “especial”. O livro é narrado por Kathy H, que, já adulta, relembra boa parte de sua infância e adolescência ao lado de Ruth, sua melhor amiga, e Tommy, um amigo próximo por quem sempre nutriu um carinho especial. Essas crianças viviam em um internato isolado do mundo por apenas uma finalidade, que eu não vou comentar, porque estraga totalmente o mistério do livro.

No entanto, somos deixados no escuro em relação a alguns termos que a narradora utiliza: Kathy conta que é uma “cuidadora”, enquanto Ruth e Tommy são “doadores”. Acompanhando a visão de Kathy sobre os acontecimentos que marcaram a vida dos três, é possível, aos poucos, compreender o verdadeiro cerne da obra de Ishiguro. Vocês vão encontrar em muitas sinopses por aí que já deixam escancarado sobre o tema principal do livro, mas eu optei por não falar a respeito, porque acredito que durante a leitura é muito mais prazeroso ir juntando as peças do quebra-cabeça.

Para comprar o livro, é só acessar o link abaixo:

Apesar de pender levemente para a ficção científica ou até mesmo uma distopia, Não Me Abandone Jamais não é sobre isso. Ao conhecermos com detalhes as atitudes da geniosa Ruth, do ingênuo Tommy e conhecer a perspectiva distorcida da boazinha e certinha Kathy H, os sentimentos que prevalecem são de tristeza e solidão. O livro é sobre aceitarmos nossas escolhas, questioná-las e compreender o quanto nossas atitudes influenciam a vida de outras pessoas. Não Me Abandone Jamais é sobre amizade, amor, companheirismo, sofrimento e percepção da realidade.

Outro fator interessante na obra é em relação ao internato Hailsham. Pela perspectiva de Kathy H, conhecemos bem pouco da diretora Miss Emily, assim como algumas nuances da ousada professora Miss Lucy, mas o mistério, por fim, sempre prevalece. Durante a estadia em Hailsham, as crianças precisam produzir obras artísticas – desenhos, pinturas, esculturas – para que depois as melhores sejam selecionadas para a “Galeria”. Quem escolhe os melhores trabalhos é Madame, uma mulher sisuda que de vez em quando comparece ao internato para levar embora as obras mais bonitas. O porquê de essas crianças serem incentivadas a produzir uma arte só delas e o motivo pelo qual Madame as leva embora, só é revelado no final da história.

Resenha: Não Me Abandone Jamais - Kazuo Ishiguro

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Agora você deve estar se perguntando: por que o livro chama Não Me Abandone Jamais? Porque esse é o nome de uma das músicas favoritas da protagonista, que se lembra com o maior carinho da canção Never Let Me Go, da cantora Judy Bridgewater. Essa música permeia o livro todo, sempre retorna em algum momento. Uma das partes mais emocionantes da história é quando Kathy dança ao som dessa música abraçada com um travesseiro e é observada por Madame, cujas lágrimas saltavam dos olhos. E é somente no final do livro que entendemos o que aconteceu nesse momento, com uma das frases mais impactantes da história. Mexeu demais comigo!

Eu encontrei a música facilmente no YouTube, olha só (cuidado porque fica na cabeça e não sai mais! Haha!)

Lembrando que também existe o filme! Na verdade, eu assisti ao filme em 2010, quando foi lançado, mas na época achei estranho, porque algumas coisas pareciam desconexas. Depois que li o livro e reassisti, fez muito mais sentido. Esse é um problema da adaptação, né? Ficam muitas pontas soltas e pulam partes importantes, como toda a construção dos personagens e da amizade entre eles, por exemplo. Claro que o filme passa longe de ser ruim (mesmo porque o elenco é incrível), mas ainda assim, recomendo que você leia primeiro!

O filme conta com Keira Knightley, Carey Mulligan e Andrew Garfield. A boa notícia é que está disponível na Netflix! Veja o trailer (pode conter spoilers):

Só o que posso dizer é que esse livro entrou na lista de favoritos e tenho certeza de que vai mexer pelo menos um pouquinho com a sua percepção de mundo. A narrativa, além de metafórica em alguns momentos, também aborda dilemas éticos e morais que nos fazem refletir bastante. Recomendadíssimo!

* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

LEIA TAMBÉM

Resenha: Não Me Abandone Jamais - Kazuo IshiguroTítulo original: Never Let Me Go
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 344
Ano: 2016
Gênero: Literatura estrangeira
Nota: 


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Escrito por:

Isabela Zamboni


Kazuo Ishiguro: conheça as obras do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2017

Kazuo Ishiguro, aos 62 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2017. A escolha do autor foi anunciada nesta quinta (5) durante um evento em Estocolmo, na Suécia. Apesar de ser muito prestigiado como escritor, Kazuo não era um dos favoritos ao prêmio: as principais apostas estavam entre o queniano Ngũgĩ wa Thiong’o, o japonês Haruki Murakami e a canadense Margaret Atwood.

Conheça as obras de Kazuo Ishiguro, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2017

Foto: Reprodução/Facebook

O autor receberá o valor de 9 milhões de coroas suecas (por volta de R$ 3,5 milhões) pela sua obra. Kazuo nasceu no Japão, em 1954, e mudou-se para a Inglaterra aos cinco anos de idade, onde vive até hoje. Ele é autor de oito livros – sete romances e um volume de contos. Sua obra já foi traduzida em mais de 28 países e, no Brasil, seus livros são publicados pela Companhia das Letras.

Segundo a Academia Sueca, responsável pelo Nobel, Ishiguro recebeu o prêmio porque “seus romances de grande força emocional revelaram o abismo sob nossa sensação ilusória de conexão com o mundo”. Uau! A secretária-permanente da Academia Sueca, Sara Danius, disse que o autor retrata em seus livros temas como “memória, passagem do tempo e autoilusão”.

Ishiguro foi ainda comparado a grandes autores da literatura universal, como Jane Austen e Franz Kafka.”Ele é um pouco como uma mistura de Jane Austen, comédia de costumes e Franz Kafka. Se você misturar isso um pouco, não muito, você tem a essência de Ishiguro”, destacou a secretária da Academia, que citou ainda Marcel Proust!

Aliás, você já assistiu ao filme Não me Abandone Jamais, com a Keira Knightley, Carey Mulligan e Andrew Garfield? É a adaptação de um dos principais livros de Kazuo IshiguroQuer conhecer mais sobre as obras do autor? Então dá só uma olhada:

never let me go gif

Conheça as obras de Kazuo Ishiguro

Conheça as obras de Kazuo Ishiguro, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2017

Foto: Companhia das Letras

ROMANCES

Uma pálida visão dos montes é o primeiro romance de Kazuo Ishiguro e conta a vida de uma sobrevivente da tragédia nuclear de Nagasaki. No exílio inglês, a velha Etsuko, viúva duas vezes, agora em companhia da única filha que lhe resta após o suicídio da outra, revê a terra natal no pós-guerra e medita sobre tudo o que significou a hecatombe para o ser solitário a que ela hoje se resume.

Ambientado no Japão pós-Segunda Guerra Mundial, o livro é narrado por Masuji Ono, um pintor que está envelhecendo, que olha para trás e relembra sua vida. Ele percebe como sua reputação, uma vez grande, mudou desde a guerra e como as atitudes em relação a ele e suas pinturas se transformaram. O principal conflito trata da necessidade de Ono de aceitar a responsabilidade por suas ações passadas. O romance também retrata o papel das pessoas em um ambiente de rápida mudança.

O mordomo Stevens, já próximo da velhice, rememora as três décadas dedicadas à casa de um distinto nobre britânico, lord Darlington, hoje ocupada por um milionário norte-americano. Por insistência do novo patrão, Stevens sai de férias em viagem pelo interior da Inglaterra. O mordomo vai ao encontro de miss Kenton, antiga companheira de trabalho, hoje mrs. Benn. No caminho, recorda passagens da vida de lord Darlington e reflete sobre o papel dos mordomos na história britânica. Num estilo contido, o narrador-protagonista acaba por revelar aspectos sombrios da trajetória política do ex-patrão, simpatizante do nazismo, ao mesmo tempo que deixa escapar sentimentos pessoais em relação a miss Kenton, reprimidos durante anos.

O romance se passa em um período de três dias. Trata-se de Ryder, um famoso pianista que chega em uma cidade central europeia para realizar um concerto. Ele está enredado em uma rede de compromissos e promessas que não consegue lembrar, lutando para cumprir seus compromissos antes do desempenho de quinta-feira, frustrado com sua incapacidade de assumir o controle.

Neste romance sutil e envolvente, o detetive Christopher Banks retorna a Xangai, sua terra natal, onde seus pais desapareceram misteriosamente há vinte anos. A cidade agora é palco da guerra entre China e Japão, e a busca de Banks por seus pais passa a confundir-se com a busca pela ordem num mundo órfão, vitimado pela sombra.

Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de cuidadora. Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados. No entanto, esse internato idílico esconde uma terrível verdade. ‘Não me abandone jamais’ reflete, através da ficção científica, a questão da existência humana.

Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova – será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une? Épico arturiano, Kazuo Ishiguro envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R. R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra. Entre a aventura fantástica e o lirismo, “O gigante enterrado” fala de alguns dos temas mais caros à humanidade: o amor, a guerra e a memória.

CONTOS

Nesta reunião de cinco narrativas, Kazuo Ishiguro deixa de lado a solenidade distendida dos romances para dedicar-se à concisão, à leveza e ao humor concentrado do gênero curto. Noturnos traz contos sobre instrumentistas e amantes da música, de diversas partes do mundo.

Sinopses: Skoob


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Escrito por:

Isabela Zamboni