Resenha

Resenha: Senhor das Moscas – William Golding

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Quando comecei a ler Senhor das Moscas, nem imaginava o rumo que a história iria tomar. O livro de William Golding foi uma ótima surpresa, com um final tão intenso que valeu pela obra inteira.

Publicado originalmente em 1954, Senhor das Moscas tornou-se um dos romances essenciais da literatura mundial. O enredo é bem simples: durante a Segunda Guerra Mundial, um avião cai numa ilha deserta, e seus únicos sobreviventes são um grupo de meninos britânicos em idade escolar.

“Eles descobrem os encantos desse refúgio tropical e, liderados pelo protagonista Ralph, procuram se organizar enquanto esperam um possível resgate. Mas, aos poucos, esses garotos ‘inocentes’ transformam a ilha numa disputa pelo poder, e sua selvageria rasga a fina superfície da civilidade, que mantinham como uma lembrança remota da vida em sociedade”, como aponta a sinopse.

No começo, a história demora a se desenvolver: são apenas meninos empolgados que estão longe dos adultos e podem brincar como quiserem na ilha. Estão livres, apenas curtindo a praia e a suposta aventura. Confesso que o começo é difícil de engatar, porque a trama se desenrola lentamente. Porém, se você passa do comecinho, não vai mais querer parar a leitura.

O protagonista Ralph vive um embate: ao mesmo tempo em que é escolhido como líder dos garotos, também sente dificuldade em ser respeitado e ouvido. Ele tenta, com a ajuda de Porquinho – um garoto gordinho asmático que sofre bullying dos outros meninos – acender uma fogueira para que a fumaça chame a atenção de navios que possam resgatá-los. No entanto, o interesse em trabalhar, manter acesa a fogueira e construir refúgios é diminuída pela presença de outro garoto, o antagonista: Jack, o caçador.

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Jack não aceita que Ralph é líder e, mesmo que em um primeiro momento ambos sejam amigos próximos, a rivalidade entre os dois só cresce. Jack não quer fazer nada além de caçar e convence outros garotos a seguirem suas ordens, segregando a turma.

Resenha: Senhor das Moscas - William Golding
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Não vou entrar em detalhes para não dar spoiler, mas acredite: esse livro vai te deixar em agonia. Não conseguia ler sem sentir um mal-estar: alguns acontecimentos são pesados e mexeram bastante com meu psicológico. A violência e a maldade que se instauram na ilha são sem precedentes, e, ao mostrar a natureza do mal e a linha tênue entre a barbárie e a civilidade, fica difícil de ser otimista com relação aos humanos vivendo em sociedade.

A história de Golding é eletrizante e traz muita reflexão. A cada segundo paramos para nos perguntar o que faríamos naquela mesma situação. Ao mesmo tempo, a narrativa do autor é fenomenal: em determinados momentos, são descrições tão intensas e líricas, que a leitura é elevada a outro nível; uma poética forte e densa dentro de um ritmo frenético.

Recomendo bastante a leitura de Senhor das Moscas e posso afirmar que já entrou pra listinha dos livros favoritos da vida! <3

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* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

Resenha: O Senhor das Moscas - William GoldingTítulo original: Lord of the Flies
Autor: William Golding
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 224
Ano: 2014
Gênero: Ficção/Romance/Distopia
Nota: 

Resenha

Resenha: O Som e a Fúria – William Faulkner

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Vou começar essa resenha com uma frase bem simples, mas que resume O Som e a Fúria: que livro DIFÍCIL! Acho que nem Macbeth ou Otelo foram tão complicados quanto esse clássico da literatura norte-americana. O livro, escrito em 1929, é considerado a obra mais importante do escritor norte-americano William Faulkner, que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1949.

Mas não é porque é difícil, que é ruim – muito pelo contrário! Se você gosta de literatura clássica e principalmente leituras desafiadoras, O Som e a Fúria é um prato cheio. Segundo o prefácio dessa nova edição da Companhia das Letras, o romance surgiu em um período de isolamento, depois que o autor teve seu terceiro romance recusado por diversas editoras. Depois de ficar bastante abalado, William Faulkner investiu num estilo ousado, tecido por vozes narrativas distintas e saltos inesperados no tempo. Essa edição também conta com tradução de Paulo Henriques Britto e uma análise crítica de Jean-Paul Sartre publicada em 1939.

Quando comecei a ler as primeiras páginas, já fiquei baqueada. Sabia que o autor usava a técnica do fluxo de consciência – bastante usada por Virginia Woolf e uma clara referência ao Ulysses, de Joyce – mas nada desse nível. Porém, fiquem tranquilos! O choque inicial logo passa e, após algum tempo de leitura, é possível entender e apreciar o estilo de Faulkner. Inclusive, é genial.

Mas, afinal, do que se trata O Som e a Fúria? É a história da violenta decadência dos Compson, família aristocrática do sul dos Estados Unidos. Como a trama se desenrola no final da década de 20, vemos muitos ecos do preconceito racial e da xenofobia. Os EUA passavam por um forte momento de crise econômica, então é possível conferir na obra de Faulkner também muita pobreza e um país devastado.

Conferimos a história por quatro vozes narrativas diferentes: a primeira, pelo olhar de Benjamin, um dos filhos dos Compson, homem que “nasceu bobo”, com um certo tipo de deficiência mental. Ou seja: muitas passagens sem nexo, passado misturado ao presente, além de fortes sensações que integram um cérebro atribulado e confuso. Por isso o baque da leitura: como escrever uma narrativa pela perspectiva de uma pessoa deficiente? É um grande desafio, tanto para o autor quanto para o leitor.

A segunda voz narrativa é do melancólico Quentin, mais um dos filhos da família Compson. Confesso que essa foi a parte mais complicada do livro, que deu muita vontade de abandonar. Porém, é justamente a parte mais densa, sendo necessário reler várias vezes. Quentin, enquanto jovem adulto, foi estudar em Harvard, após seus pais terem vendido parte de sua propriedade para ajudar a pagar pelos estudos do filho. No entanto, enquanto acompanhamos um dia na vida de Quentin, também somos apresentados com frequência ao uso do fluxo de consciência: enquanto ele caminha pela cidade, lembra-se de momentos do passado, ao mesmo tempo em que sua mente vagueia por descrições e recordações de sua infância, especialmente de sua irmã Caddie, por quem nutria um amor fervoroso e praticamente incestuoso. Em vários momentos Faulkner não usa pontuação e faz uso de um recurso estilístico muito refinado, porém que exige perseverança por parte de quem lê.

A terceira parte de O Som e a Fúria é uma das mais revoltantes: o ponto de vista de Jason, o filho mais novo que ficou para trás, morando com a mãe, D. Caroline, e os criados negros, Dilsey, T.P., Luster e Frony. Inclusive, Jason é considerado um dos maiores vilões da literatura norte-americana até hoje. Um personagem que chantageia a própria irmã e rouba o dinheiro que esta encaminha para a filha; um homem racista, misógino e preconceituoso até o último fio de cabelo; uma pessoa agressiva, revoltada e que acredita que foi injustiçado pela família. Aqui a narrativa torna-se bem mais fácil, simples e tranquila de engatar. No entanto, prepare-se para passar raiva, ódio e detestar cada palavra dita por esse personagem horrendo.

Resenha: O Som e a Fúria - William Faulkner
O livro tem essa capinha transparente que é um luxo! FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Por fim, enquanto eu esperava que a última voz narrativa fosse a de Caddie, a filha mulher dos Compson, pelo contrário: a narração é em terceira pessoa e a personagem no foco é Dilsey, a criada que é praticamente a matriarca da casa e sempre trabalhou naquele lar tomado pelas tragédias. Inclusive, é nesse momento que o tradutor Paulo Henriques Britto faz observações importantes a respeito das falas dos negros e dos brancos em relação à tradução para o português (vale muito a pena conferir!).

As duas personagens mais intrigantes são Caddie e sua filha Quentin (nome que ganhou em homenagem ao tio, irmão de Caddie, para deixar a leitura ainda mais confusa). Em nenhum momento conferimos o ponto de vista das duas, só as conhecemos a partir do que os outros personagens dizem ou lembram a respeito delas. E achei muito bom o final das duas, que é mostrado no apêndice nessa edição da Companhia das Letras. Sinto que somente essas duas eram mulheres à frente de seu tempo e que também passaram por muitas provações naquela família.

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Como já mencionei, o livro contém uma análise de Sartre ao final, que faz uma reflexão impressionante sobre a questão da temporalidade na obra de Faulkner. O mais interessante é como o filósofo traz à tona que a literatura de Faulkner deixa as personagens presas ao presente e ao passado, como se o futuro não existisse. Durante toda a leitura, é como se lêssemos sempre algo que já se passou, mesmo que se passe no presente. Os tempos se mesclam, fundem-se e quebram-se na narrativa de O Som e a Fúria. A passagem em que Quentin fala sobre o relógio de seu avô é uma delas:

“Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o uso para lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.” (p.79)

A frase abaixo também sintetiza bastante toda a narrativa do livro, como podemos perceber em diversas passagens:

“O pai disse que o homem é o somatório de suas desgraças. A gente fica achando que um dia as desgraças se cansam, mas aí o tempo é que é a sua desgraça disse o pai. Uma gaivota presa num fio invisível o espaço cruzou. Você leva o símbolo da sua frustração para a eternidade. Então as asas são maiores disse o pai só quem sabe tocar harpa.” (p.108)

Outra observação interessante é que, ao mesmo tempo em que a escrita de Faulkner é riquíssima em detalhes, parece não condizer com o restante da história, que oferece tantas substâncias melodramáticas e folhetinescas. O livro é dividido em partes tão diferentes uma das outras, que parecem outros autores dentro de uma mesma obra.

Encerro essa resenha com uma citação de Macbeth, do Shakespeare, relacionada com O Som e a Fúria, que me fez ficar olhando para o teto e ~ refletindo~ sobre esse livro incrível que acabei de ler:

O homem passa a vida lutando contra o tempo e o tempo o corrói como um ácido, arranca-o de si mesmo e o impede de realizar o humano. Tudo é absurdo: “A vida […] é uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada”.

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Resenha: O Som e a Fúria - William FaulknerTítulo original: The Sound and the Fury
Autor:  William Faulkner
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 376
Ano: 2017
Gênero: Literatura estrangeira
Nota: