Resenha

Resenha: Mulheres e Ficção – Virginia Woolf

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

O livro Mulheres e Ficção, de Virginia Woolf, trata-se de uma coletânea de ensaios da escritora, com diversos textos sobre o papel das mulheres na literatura através dos séculos, especialmente na literatura inglesa. Nas palavras de Woolf, “o título deste artigo pode ser lido de dois modos: em alusão as mulheres  e à ficção que elas escrevem, ou às mulheres e a ficção que é escrita sobre elas”.

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Resenha: A Mulher de Trinta Anos – Honoré de Balzac

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

O termo “mulher balzaquiana” é muito utilizado em diversos livros sobre clássicos de literatura. E foi a partir dessa curiosidade que fui conhecer A Mulher de Trinta Anos, de Honoré de Balzac.

[Sem contar que, como estou chegando perto dos 30 anos, a curiosidade atiçou ainda mais! Haha! ]

A história de Julie veio antes de famosas personagens como Emma Bovary e Anna Kariênina, tornando-se referência quando o assunto envolve protagonistas mulheres infelizes no casamento em pleno século XIX. Não que a infelicidade no casamento não seja um tópico recente, infelizmente, mas naquela época era comparado a uma escravidão/prisão, sem que as mulheres tivessem escolha de separar ou ter uma vida de liberdade.

A sinopse do livro é a seguinte: “Contrariando os conselhos do pai, Julie julga-se apaixonada e decide se casar ainda muito jovem com um coronel do exército napoleônico. Em pouquíssimo tempo, descobre-se infeliz no casamento e na maternidade. A isso se seguem as paixões por outros homens, e anuncia-se o destino trágico da protagonista. Mas A mulher de trinta anos não é a história particular de Julie, e sim a de alguém em quem convergem as contradições do que representava ser mulher no século XIX e, por extensão, as contradições da própria sociedade moderna.”

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O livro começa mostrando uma Julie ingênua, infantil, apaixonada pela aparências. Esse início é uma parte bem rápida, e logo já conhecemos a protagonista casada e infeliz. Sua filha, Hèlene, é sua única esperança, já que sua vida não seria nada como ela imaginava – apesar de seu pai ter lhe aconselhado que seria uma má ideia casar com o general.

Durante a leitura, vemos Julie passar seus dias melancólicos trancafiados dentro de casa, sem a mínima vontade de viver. A depressão é bem forte na personagem, que sente o prazer pela vida se esvair, até encontrar um homem por quem se apaixona perdidamente.

“As moças costumam criar nobres, encantadoras imagens, figuras totalmente ideais, e forjam ideias quiméricas sobre os homens, sobre os sentimentos, sobre o mundo; depois atribuem inocentemente a um caráter as perfeições com que sonharam e a ele se entregam; amam no homem de sua escolha essa criatura imaginária; porém, mais tarde, quando já não há tempo de se livrar da desgraça, a aparência enganadora que embelezaram, o primeiro ídolo enfim transforma-se num esqueleto odioso.”

Não vou contar toda a história para não perder a graça, mas durante a narrativa, Julie se apaixona mais de uma vez (mantém casos extraconjugais), nutre esperanças e sofre grandes tragédias. No entanto, o casamento e a maternidade a sufocam a cada dia, fazendo-a resignar-se de sua condição. Ela se entrega à tristeza e até mesmo seus filhos a tornam uma mulher amarga e sem esperança. Seu marido também é infiel e não faz a menor questão de manter um casamento feliz.

Resenha: A Mulher de Trinta Anos - Honoré de Balzac
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

“Embora se sentisse jovem, a massa de seus dias sem alegrias lhe caía na alma, a esmagava e a fazia velha antes do tempo. Perguntava ao mundo, por um grito de desespero, o que ele lhe dava em troca do amor que a ajudara a viver e que ela perdera.”

A passagem do tempo é importante na trama, que desenvolve-se lentamente em alguns pontos, mas de repente avança pelo menos uns dez anos de uma só vez. A Mulher de Trinta Anos é então chamada de Juliette, uma mudança feita pelo autor para que a reconhecêssemos como uma mulher mudada, mais madura, menos sedutora, mas eloquente e perspicaz. Julie ficou no passado, Juliette é uma nova mulher – porém com os mesmos assombros do passado.

“Somos nós, mulheres, mais maltratadas pela civilização do que seríamos pela natureza.”

O livro traz algumas reviravoltas bem estranhas mais para o final. Sabe quando muda o tom? De repente até o narrador se transforma, paramos de acompanhar a história de Juliette e de repente seguimos sua filha e o general, seu marido. A relação entre os dois é bem íntima, mas também segue um rumo inusitado.

A relação de Julie com Hèlene é terrível; quando bebê, esta era a única esperança da protagonista. Na vida adulta, as duas carregam um mal-estar proveniente de um acidente do passado, transformando-as e fazendo com que elas se afastem, criando rivalidades e desavenças.

“Será que a família existe, senhor? Nego a família numa sociedade que, na morte do pai ou da mãe, divide os bens e diz a cada um para ir cuidar da vida. A família é uma associação temporária e fortuita que a morte dissolve prontamente. Nossas leis destruíram as casas, as heranças, a perenidade dos exemplos e das tradições. Só vejo escombros ao meu redor.”

Mas não temos somente Hèlene na história; com o passar dos anos, Juliette tem mais cinco filhos, mas se apega a apenas uma, a mais jovem. A partir de então temos a mulher de 50 anos, que vive reclusa e não faz a menor questão de interagir na sociedade, virando alvo de fofocas.

Inclusive, Balzac não cansa de criticar a sociedade francesa, especialmente a parisiense. O autor insere comentários ácidos o tempo todo durante a narrativa, mostrando a mesquinhez e ignorância da alta sociedade da época.

“Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo dessa presença eloquente?”

A Mulher de Trinta Anos, na verdade, não é a história particular de Julie, mas sim uma representação da mulher do século XIX, na qual convergem os movimentos, conflitos e contradições de um modelo social em transformação. Balzac rompe paradigmas ao mostrar o mundo vazio de aparências em que vivia a maior parte da sociedade europeia, especialmente as mulheres que eram aprisionadas em casamentos arranjados.

“Lágrimas de desespero rolavam de seus olhos; pois sentimos mais tristeza com uma traição que frustra um resultado decorrente de nosso talento do que com uma morte iminente.”

O termo “mulher balzaquiana” é muito utilizado hoje, mas de forma distorcida; Julie d’Aiglemont viveu uma vida vazia, frágil, covarde e amarga. Ou seja: utilizar esse termo para qualquer mulher que completa trinta anos não faz muito sentido, sendo que nos dias de hoje as mulheres têm muito mais opções do que uma vida de correntes e grilhões nos relacionamentos.

“O céu e o inferno são dois grandes poemas que formulam os dois únicos pontos em torno dos quais gira nossa existência: a alegria ou a dor.”

Apesar de ser uma obra com personagens confusos e contraditórios, uma narrativa lenta e por vezes cansativa, vale a leitura, principalmente por ser um livro que trouxe referências para obras incríveis da literatura mundial.

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Resenha: A Mulher de Trinta Anos - Honoré de BalzacTítulo original: La Femme de Trente Ans
Autor: Honoré de Balzac
EditoraPenguin – Companhia das Letras
Número de páginas: 240
Ano: 2015
Gênero: Literatura Estrangeira
Nota

Resenha

Resenha: Noites Brancas – Fiódor Dostoiévski

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Noites Brancas é uma novela de Dostoiévski, de 1848, um pouco antes de o autor ser preso e mudar radicalmente seu estilo literário. A história se passa em São Petersburgo, no século XIX, em que um homem solitário vaga pela cidade, deixando que os sentimentos passem por ele, enquanto caminha pelas ruas, esquinas e calçadas.

Um dia, durante uma caminhada noturna, encontra uma mulher chorando, encostada no parapeito de um canal. Ao ajudá-la, começa a se aproximar da moça e dá início a um amor terno e delicado pela jovem chamada Nástienka. A tênue claridade das noites de verão na Rússia é quase como uma personagem da trama, e, quanto mais o narrador (anônimo) se aproxima de Nástienka, mais parece se afastar de sua vida anterior.

A narrativa envolve quatro encontros dos dois, e a intimidade entre eles só cresce. O amor começa a surgir – principalmente da parte do narrador – e aumentar, até que um acontecimento altera o rumo dessa conturbada relação. O desfecho do livro é de cortar o coração – e aposto que muitas pessoas vão se identificar com o protagonista.

A novela de 1848 é vista como uma das obras-primas de Dostoiévski no gênero breve, em um estilo bem diferente daquele encontrado em Crime e Castigo. Confesso que passou longe daquilo que imaginei: é um romantismo exagerado, melancólico, dramático. A própria personalidade do narrador sem nome e de Nástienka remonta àqueles romances recheados de melodrama, intensos, com palavras doces e apaixonadas, quase surreais.

Resenha: Noites Brancas - Fiódor Dostoiévski
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

As noites brancas de São Petersburgo, segundo o prefácio de Rubens Figueiredo, se referem a um fenômeno climático que marca a cidade em certa fase do verão: o sol nunca chega a se pôr completamente e as noites conservam uma constante luminosidade de crepúsculo. Essa atmosfera ajuda a diluir as referências do tempo e a “luz branca” confere um contorno onírico e irreal aos personagens e ambientes.

O livro foi escrito em 1848 e o autor foi preso em 1849 – Dostoiévski foi detido em abril de 1849 por participar do Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o czar Nicolau I.O czar mostrou-se, depois das revoluções de 1848 na Europa, vigoroso contra qualquer organização clandestina que pudesse pôr em risco seu reinado. Foi apenas 10 anos depois, no final de dezembro de 1859, que o autor regressou com sua família (sua esposa e o enteado) a São Petersburgo.

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O retorno não foi dos mais fáceis, tendo em vista que sua longa ausência não só o afastou dos antigos contatos de São Petersburgo, como também de toda a produção cultural russa, incluindo a literatura e o jornalismo, uma vez que o acesso aos livros era bem difícil durante o tempo em que cumpriu pena. Isso foi determinante para que o autor mudasse radicalmente seu estilo, deixando de lado o viés romântico que usou no passado.

Portanto, pode-se dizer que a novela Noites Brancas é um marco na carreira do escritor – e por isso uma obra importante do gênero. Como é bem curtinha e se passa em poucos cenários, também já foi adaptada para o teatro, o que com certeza deve ser uma experiência interessante. Se você já assistiu à peça, não esqueça de nos contar o que achou!

Essa edição da Penguin traz também o conto Polzunkov como apêndice, escrito no mesmo ano, que mostra uma faceta mais caricata de Dostoiévski.

Para ser bem sincera, foi um livro que não me surpreendeu e não me tocou. Entendo sua importância, mas já prefiro, por exemplo, O Jogador, que tem uma proposta mais interessante.

E você, já leu? Comente!  🙂

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* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

Resenha: Noites Brancas - Fiódor DostoiévskiTítulo original: White Nights (Short Story)
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Penguin Companhia
Número de páginas: 112
Ano: 2018
Gênero: Literatura Estrangeira / Romance
Nota: 

Resenha

Resenha: Orgulho e Preconceito – Jane Austen

Foto: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Nunca achei que fosse escrever isso, mas Orgulho e Preconceito é um dos livros que mais me fisgou nos últimos tempos. Eu já tinha lido quando era mais nova, uns 17 ou 18 anos, mas na época eu detestei. Achei chato, monótono e a edição que havia lido provavelmente tinha uma tradução ruim, porque eu achava bem complicado de entender alguns elementos da história. A impressão que tenho hoje é totalmente diferente; Jane Austen era uma escritora fenomenal.

Em um primeiro momento, Orgulho e Preconceito parece apenas uma história de romance ingênuo, com personagens mulheres que só pensam em casamento. Mas a obra vai muito além: Jane Austen constrói alguns dos mais perfeitos diálogos sobre a moral e os valores sociais da pseudoaristocracia inglesa.

Essa edição da Penguin é muito interessante, porque traz um texto de apoio logo no início apresentando uma análise detalhada da prosa literária de Jane Austen e todos os seus pormenores: as críticas à sociedade da época, as reflexões sobre moral, a ascensão da mulher, os conflitos históricos que se passavam naquela época na Inglaterra (invasão de Napoleão, tratados com a França e etc), entre muitas outras observações imprescindíveis para entender a importância do romance.

Mas vamos a um pequeno resumo da obra: Elizabeth Bennet – a protagonista – vive com sua mãe, pai e irmãs no campo, na Inglaterra. Ela e sua irmã mais velha – Jane – enfrentam uma grande pressão para casar. Porém, a chegada do Sr. Bingley e do Sr. Darcy à região – homens ricos e bem-apessoados – traz esperanças para a mãe das jovens, cujo único propósito de vida é casar as filhas. Quando Elizabeth é apresentada a Darcy, faíscas voam e a tensão sexual só cresce. E, embora haja uma química óbvia entre os dois, a natureza reservada de Darcy ameaça a relação, assim como a “impertinência” de Elizabeth.

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No final do XVII na Inglaterra, as possibilidades de ascensão social eram bastante limitadas para mulheres sem dote. Elizabeth é um desses casos; mesmo nascendo em uma família em que mães e irmãs só pensam em casamento por conveniência ou para salvar o patrimônio, Eliza é um novo tipo de heroína. Ela tem suas próprias convicções e ideais, recusando até mesmo propostas de homens que seriam consideradas “ideais” para sua mudar sua condição de vida.

E é justamente a sua “falta” de estereótipos femininos que conquistam o nobre Fitzwilliam Darcy, acostumado a ser sempre bajulado e tratado de forma diferente por conta de sua fortuna e posição. Como a própria contracapa do livro aponta, “Lizzy é uma espécie de Cinderela esclarecida, iluminista, protofeminista.” 

Resenha: Orgulho e Preconceito - Jane Austen
Foto: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Outra crítica mordaz de Jane Austen em Orgulho e Preconceito é à futilidade das mulheres e das pessoas que moram na província. Personagens como o primo Collins, Lady Catherine e as irmãs Bingley mostram a hipocrisia, a maldade e o orgulho nocivo em relação aos membros da “nova sociedade”, cujo maior símbolo é a família Bennet – não pessoas desprovidas de dinheiro, mas sem uma vida considerada aristocrática. Podemos chamar isso hoje em dia de classe média.

Outro embate constante no livro é o próprio título: o orgulho de Mr. Darcy, em demorar a admitir que se apaixonou por uma mulher de uma família com baixa renda; e o preconceito de Elizabeth, que o enxerga como um homem arrogante, inescrupuloso e nunca sequer busca entender o motivo da personalidade sisuda do mesmo. Os dois oscilam entre esses sentimentos: o preconceito também está sempre presente em Darcy, assim como o orgulho instaura-se em Lizzy. Esse embate é o que os aproxima e repele, criando uma conexão nociva, um misto de paixão, atração e raiva. Esse tipo de narrativa já é mais comum encontrarmos em diferentes obras, mas sem a sutileza de Jane Austen.

No texto de apoio, também encontrei uma passagem em que a ensaísta aponta que é muito difícil para compreendermos o que Austen escreve, principalmente em relação ao período histórico que permeia a narrativa do livro. Os costumes, a sociedade e os valores eram tão diferentes que saltam aos nossos olhos; hoje parece incabível conceber uma mãe que deseja se ver livre das filhas e um pai que diz descaradamente o quanto acha suas filhas mais novas fúteis e burras.

A influência de vizinhos e familiares, as regras de etiqueta, as formalidades…tudo parece um absurdo sem sentido. O ideal de casamento também é bem diferente! Não existia namoro, ou escolher uma pessoa por sentir-se atraída por ela. Era apenas casar e torcer para que o marido possa sustentá-la. Poucos realmente trabalhavam e muitos sentiam-se na obrigação de receber uma renda fixa da família. E acredito que isso é uma das principais características da literatura: nos mostrar um novo mundo, um universo diferente e perspectivas complexas sobre a história, seja de uma província na Inglaterra ou qualquer lugar do mundo.

Uma das adaptações mais famosas de Orgulho e Preconceito é o filme de 2005, com Keira Knightley e Matthew Macfayden. A cena dos dois na chuva é uma das mais famosas:

Assim como Elizabeth, eu também nutria um grande preconceito por livros como os de Austen. Mas joguei tudo fora e agora fico feliz de ter adorado essa obra clássica. Recomendo bastante!

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Resenha: Orgulho e Preconceito - Jane AustenTítulo original: Pride and Prejudice
Autora: Jane Austen
Editora: Penguin Companhia
Número de páginas: 576
Ano: 2018
Gênero: Romance/Literatura Estrangeira
Nota

Resenha

Resenha: O Amante de Lady Chatterley – D.H. Lawrence

Foto: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

O Amante de Lady Chatterley foi um achado incrível de sebo. Quando vi essa edição novinha na prateleira, vibrei de alegria! Eu já tinha ouvido falar sobre o livro, mas não sabia exatamente do que se tratava. E confesso que gostei bastante! Conforme a leitura avança, o choque aumenta e eu vou explicar o porquê.

Antes, vou fazer um pequeno contexto da obra de D.H. Lawrence: O Amante de Lady Chatterley gerou polêmica quando foi escrito – 1928 – e chegou a ser censurado por vários anos. Até 1960, não havia sido publicado no Reino Unido, por exemplo. A publicação do livro causou um escândalo devido a cenas explícitas de sexo. Imagine ler uma obra literária com cenas tão vívidas de sexo e prazer feminino – sem contar a traição – em plena década de 20? Lawrence fez alterações significativas no manuscrito original a fim de torná-lo mais aceitável aos leitores. Por fim, foi publicado em três versões diferentes.

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Mas afinal, é tão explícito assim? Pois é, eu também achei no começo que fosse exagero, mas é realmente BASTANTE visual. São muitas cenas eróticas, com citações até mesmo aos órgãos sexuais: espere descrições detalhadas de pênis e vagina. Claro que em 2018 isso não é nada, mas ainda assim, poucos autores têm coragem de escrever abertamente sobre o assunto. E ainda misturar isso com uma linguagem rebuscada ao mesmo tempo em que faz  várias críticas ao sistema socioeconômico da Inglaterra? Caramba, né? Haha!

A sinopse de O Amante de Lady Chatterley é a seguinte: “Poucos meses depois de seu casamento, Constance Chatterley, uma garota criada numa família burguesa e liberal, vê seu marido partir rumo à guerra. O homem que ela recebe de volta está paralisado da cintura para baixo, e eles se recolhem na vasta propriedade rural dos Chatterley. Inteiramente devotado à sua carreira literária e depois aos negócios da família, Clifford vai aos poucos se distanciando da mulher. Isolada, Constance encontra companhia no guarda-caças Oliver Mellors, um ex-soldado que resolveu viver no isolamento após sucessivos fracassos amorosos.”

Apesar de ter sido considerado um livro obsceno, a obra de D.H. Lawrence carrega uma força literária, capaz de apresentar de forma riquíssima a transição da sociedade da época. Uma das partes mais interessantes do livro é o embate de Constance, uma mulher liberal e oriunda de uma família burguesa, que estava em ascensão social, com o marido Clifford, 100% conservador e tradicionalista. As discussões entre o casal são espetaculares e não dá vontade de parar de ler nem por um segundo.

As passagens intensas de paixão e sexo entre Constance – uma mulher casada e muito abastada – com Oliver, um guarda-caças humilde e com um temperamento pra lá de complicado – também fazem do livro algo único. É muito interessante ver essa relação entre eles, sempre permeada por uma tristeza profunda. Por mais que pareça um relacionamento certo, é errado e incongruente. Constance tenta a todo custo esconder esse affair, mas não consegue disfarçar completamente, sempre gerando desconfianças do marido e dos empregados da propriedade.

Resenha: O Amante de Lady Chatterley - D.H. Lawrence
Foto: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Outro quesito desesperador nesse livro é sentir a repulsa e o tédio da protagonista. Ela é tratada de forma insuportável pelo marido – que passou por um trágico acidente após a guerra – e ao mesmo tempo sofre com uma melancolia profunda ao ter que ficar praticamente ‘presa’ na propriedade rural. Esse relacionamento sufocante, que se desfaz aos poucos, é descrito pelo autor de forma inigualável. Aguarde muita tensão e raiva ao mesmo tempo!

Quando fui ler mais a respeito da obra, descobri que o autor não fazia muita ideia de como funcionava o prazer feminino. Algumas descrições dele não condizem com a realidade e Lawrence apostou muito mais na imaginação do que em experiências próprias. Ele também era um homem ligeiramente perturbado, com problemas pessoais, especialmente nos relacionamentos amorosos. Essas informações acerca do livro podem ser encontradas no prefácio da edição da Penguin, escrito por Doris Lessing, vencedora do Nobel da Literatura.

Se você curte adaptações, foi lançado um filme para a TV em 2015 baseado no livro O Amante de Lady Chatterley. Como a produção é da BBC, a adaptação ficou excelente! O filme conta com Holliday Grainger e Richard Madden (o Rob Stark de Game of Thrones) nos papéis principais. Confira o trailer:

E você, o que achou do livro? Conta pra gente nos comentários!

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Resenha: O Amante de Lady Chatterley - D.H. Lawrence

Título original: Lady Chatterley’s Lover
Autora: D.H. Lawrence
Editora: Penguin Companhia
Número de páginas: 560
Ano: 2010
Gênero: Romance
Nota