Resenha: Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

Mrs. Dalloway é aquele livro que eu já comecei umas quatro vezes, mas nunca conseguia terminar. Finalmente resolvi dar uma chance com essa edição da Penguin, que sempre traz textos de apoio e uma tradução mais “justa”. As outras versões que cheguei a ler traziam um texto mais complicado e a vontade de continuar a leitura morria logo no começo. Porém, ter dado uma nova chance a essa obra incrível de Virginia Woolf me deixou atônita. Posso afirmar que é um dos melhores livros que já li até hoje. Já entrou na lista de favoritos!

Resenha: Mrs. Dalloway - Virginia Woolf

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

A história de vida de Woolf é tão intensa como sua obra: nascida em berço literário, criou uma editora que lançou grandes nomes da literatura, como Katherine Mansfield e T.S. Eliot. Como escritora, publicou obras importantes como Orlando e O quarto de Jacob, sempre trazendo sua marca registrada: a técnica do fluxo de consciência. Virginia suicidou-se em 1941, depois de deixar um bilhete de despedida aos entes queridos, uma perda imensurável 🙁

Mas vamos falar do livro!

Mrs. Dalloway narra um único dia da vida da protagonista Clarissa Dalloway, que percorre as ruas de Londres dos anos 1920 cuidando dos preparativos para a festa que realizará no mesmo dia à noite. A sinopse é bem simples, mas a técnica de Woolf e o estilo “cinematográfico” da obra são admiráveis e desconstroem tudo aquilo que conhecemos como narrativa padrão.

A autora reformula à sua maneira a técnica literária do stream of consciousness (fluxo de consciência), já usado em obras como Ulysses, de Joyce. Ela parece montar e miscigenar o discurso indireto livre, moldando-o e criando uma nova estrutura. Inclusive, essa é uma das principais características da obra que a torna tão preciosa.

“Ela se sentia muito jovem; ao mesmo tempo, inconcebivelmente velha. Passava por tudo como uma faca afiada; ao mesmo tempo, ficava de fora, contemplando. Tinha uma sensação permanente, olhando os táxis, de estar longe, longe, bem longe no mar e sozinha; sempre era invadida por essa sensação de que era muito, muito perigoso viver, ainda que por um dia.” (p.28)

Outro recurso bastante utilizado na narrativa é o side by side – lado a lado – comparando diferentes personagens, com suas antíteses e ambiguidades. A dama burguesa que ascende rumo à sua festa, ao mesmo tempo em que o psicótico descende rumo ao suicídio. A sanidade e a insensatez andam juntas: a loucura, a frieza e a frivolidade dos personagens.

A autora traz um forte perspectivismo em sua obra, como aponta o prefácio de Alan Pauls. Uma passagem interessante do texto de apoio diz que, em Mrs. Dalloway, encontramos um “narrador-ventríloquo consumado, capaz de trocar tanto de língua como de plano (no sentido cinematográfico da palavra), e o romance todo se postula como um lugar comum, espaço onde coexistem, alternam-se e roçam olhares múltiplos e heterogêneos“.

Resenha: Mrs. Dalloway - Virginia Woolf

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

“A tranquilidade tomou conta dela, a paz, o contentamento, enquanto a agulha, puxando devagar a seda até a suave pausa, juntava as dobras verdes e as prendia, delicadamente, à cintura. Tal como em um dia de verão, as ondas se formam, se desequilibram e arrebentam; se formam e arrebentam; e o mundo todo parece estar dizendo ‘isso é tudo’, de modo cada vez mais grave, até que mesmo o coração pulsando no corpo estendido na praia sob o sol também diz: isso é tudo.” (p. 62)

Não é fácil explicar como essa obra pode ser impactante. Sabe aquele tipo de livro que quando acaba, parece que deixou um vazio? As palavras de Virginia Woolf nos deixam extasiados, porém, melancólicos. Em algumas passagens eu fiquei bem pensativa, mas sempre com vontade de continuar a leitura.

“Longos raios de luz faziam festa a seus pés. As árvores ondulavam, meneavam. Nós acolhemos, o mundo parecia dizer; nós aceitamos; nós criamos. A beleza, parecia dizer o mundo. E, com para comprovar isso (cientificamente), para onde quer que se olhasse, as casas, as grades, os antílopes erguendo as cabeças sobre as cercas, a beleza irrompia instantaneamente”. (p.93)

“É por isso que dou essas festas”, disse, em voz alta, à vida.” (p.149)

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Quem quiser saber mais sobre a obra de Virginia Woolf, pode assistir ao filme As Horas (2003), que foi bastante premiado na época em que foi lançado. No longa, conferimos a história de três personagens: a própria autora, uma mulher que lê a obra e a própria Clarissa Dalloway. O elenco conta com atrizes incríveis, como Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore. Vale muito a pena (principalmente se você já leu o livro!). Veja o trailer (em inglês):

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* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

Resenha: Mrs. Dalloway - Virginia WoolfTítulo original: Mrs. Dalloway
Autor: Virginia Woolf
Editora: Penguin Companhia
Número de páginas: 235
Ano: 2017
Gênero: Literatura estrangeira
Nota:


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Escrito por:

Isabela Zamboni