Resenha

Resenha: Júbilo, memória, noviciado da paixão – Hilda Hilst

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

Comecei a ler Júbilo, memória, noviciado da paixão, pois queria uma leitura leve e rápida. Escolhi o livro de poesias de Hilda por ter sido o mais vendido durante a FLIP 2018.

Leveza não foi bem o que encontrei no livro escrito pela jauense. Em Júbilo, memória, noviciado da paixão, a autora se abre: todos os seus sentimentos – até os mais impuros – estão lá. Entrega amorosa, devoção mística, o temor da morte…

Os dentes ao sol
A memória engolindo
O resplendor angélico
De um lívido jacinto.

Os dentes ao sol
E o escuro momento
Do girassol no muro
Enlouquecendo.

Os dentes ao sol
Dentro de mim
A sombra dos teus dedos
Tua brusca despedida.

Do tempo
As enormes mandíbulas
Roendo nossas vidas.
(p. 81)

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Apesar de abordar temas “fáceis”, os poemas de Hilda Hilst, muitas vezes, são bastante complexos e confusos. Como a própria autora comentava, ela se surpreendia quando alguém dizia entendê-los.

A edição de bolso é bem legal para presentear. A diagramação é bastante arejada e o projeto gráfico é fofo: cheio de estrelinhas. Enfim, um livro bom para quem quer ter um primeiro contato com a obra de Hilda Hilst de uma forma acessível.

Se eu te pedisse, Túlio,
O ato irreparável de me amar
Te pediria muito?

Se o corpo pede à alma
Que respirem juntos
Tu dirias, dúbio,
Que se trata de um pedido singular?

Se o que eu te digo
Ouves pelo ouvido
Tu culparias
Teu inteiro sentido
Auricular?

Retoma, Túlio,
O que pertence à vida: meu sangue, minha poesia

E o ato irreparável de me amar.
(p. 99)

E você? Já leu Júbilo, memória, noviciado da paixão? O que achou? Me conta através dos comentários!

* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

LEIA TAMBÉM

Resenha: Júbilo, memória, noviciado da paixão - Hilda HilstTítulo original: Júbilo, memória, noviciado da paixão
Autora: Hilda Hilst
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 136
Ano: 2018
Gênero: Poesia
Nota: 

Resenha

Resenha: O Amor é um Cão dos Diabos – Charles Bukowski

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Para mim, algo muito importante na poesia é a identificação. E simplesmente não rolou entre Bukowski e eu. Entendo e respeito a importância do autor para a poesia, mas não necessariamente preciso gostar. Alguns dos temas recorrentes em seus livros e poemas, são: bebidas e mulheres. Basicamente, o autor era um velho fodido que escrevia de uma forma crua e visceral sobre suas experiências. Portanto, os poemas de O Amor é um Cão dos Diabos são extremamente pessoais.

Resenha: O amor é um cão dos diabos - Charles Bukowski
FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Algo que me deixou inquieta é a forma com que o autor “entende” o amor. Durante sua vida, são diversas mulheres que vêm e vão, e o autor disseca seus sentimentos através das palavras. Mas… Para mim, nada daquilo que ele aborda como “amor” é, verdadeiramente, amor (PARA. MIM.). É paixão, desejo, vontade, tesão… Mas não é amor! Fiquei imaginando como e porque o autor trata esse sentimento dessa forma e, ao mesmo tempo, fiquei pensando sobre esse meu julgamento.

Assim como muitos outros autores famosos, Buk vai na contramão do que se espera. A todo instante. E esse é, provavelmente, um dos maiores pontos à favor do Velho Safado. Como a própria editora afirma em seu site oficial: “É considerado o último escritor ‘maldito’ da literatura norte-americana, uma espécie de autor beat honorário, embora nunca tenha se associado com outros representantes beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg“.

Além disso, o retrato feminino em seus poemas – que coloca a mulher quase sempre na versão de “serva” – não me atrai de forma alguma. Ao contrário: chega a cansar (para não dizer que causa repulsa). Inclusive, em alguns poemas, Buk disserta sobre sua atração por meninas de 13/15 anos, ou seja, DESCULPA, MAS NÃO ROLOU.

Resenha: O amor é um cão dos diabos - Charles Bukowski
FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Meus poucos poemas favoritos do livro tratam, geralmente, sobre amenidades como: trabalho, casa, mar, entre outros. Um exemplo é o Provaremos as ilhas e o mar:

Provaremos as ilhas e o mar
sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios

canções como as que nenhuma rádio
toca

toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.

Foi bom ter contato com uma das obras de Bukowski, mas não voltarei a ler um poema, crônica ou livro dele tão cedo.

LEIA TAMBÉM

Resenha: O amor é um cão dos diabos - Charles BukowskiTítulo original: Love is a dog from hell
Autor: Charles Bukowski
Editora: L&PM Editores
Número de páginas: 304
Ano: 2010
Gênero: Poesia
Nota: EstrelaEstrelaestrela vaziaestrela vaziaestrela vazia

Curiosidades

Reflexão para 2016: Desiderata – Max Ehrmann

FOTO: Tumblr

O post de hoje é um pouco mais “pessoal” que o comum 🙂 Resolvi compartilhar com vocês um dos textos que mais gosto. Sempre acabo relendo-o em épocas de mudanças, transições, e claro: antes da passagem de ano. Para mim, é um momento de parar e refletir, pensar em tudo o que fiz durante o ano, e também no que gostaria de ter feito e não consegui por algum motivo.

Aproveito o fim do ano, também, para traçar metas. Já que “o futuro está logo ali”, essa é uma ótima data para ter novas ideias e aspirações. Tanto para mim, quanto para aqueles que me cercam. Por isso, trouxe o texto Desiderata, do autor Max Ehrmann, para vocês. Espero que conheçam e se inspirem tanto quanto eu! FELIZ ANO-NOVO! Nos vemos em 2016!

Desiderata - Max Ehrmann
FOTO: Tumblr

Desiderata – Max Ehrmann

No meio do tumulto e da agitação, caminhe tranquilo, lembrando-se da Paz que pode existir no silêncio. Procure viver em harmonia com as pessoas que estão ao seu redor, sem abrir mão de suas próprias convicções.

Fale a sua verdade, mansa e claramente, e ouça a verdade dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm a sua própria história. Evite as pessoas escandalosas e agressivas; pois elas afligem o nosso espírito.

Procure não se comparar aos outros, o que o tornaria presunçoso ou amargo, pois sempre haverá alguém acima e abaixo de você.

Desfrute de suas conquistas, bem como de seus planos.

Mantenha-se interessado em seu trabalho, por mais humilde que lhe pareça, pois ele é uma bênção diante das incertezas do tempo. Tenha cautela nas suas atividades, já que o mundo é cheio de armadilhas, mas não se torne cego ao bem que sempre existe: muita gente luta por grandes ideais, e em toda a parte a vida está cheia de heroísmos.

Seja você mesmo. Sobretudo, não simule afeição, e não seja leviano com relação ao amor: diante de tanta aridez e desencanto, ele é perene como a relva.

Ouça com carinho o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os arroubos da juventude.

Alimente a força de espírito que o protegerá na sorte inesperada. Mas não se desespere com perigos imaginários: muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

Além de manter uma saudável disciplina, seja gentil consigo mesmo.

Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui! E mesmo que você não possa perceber, a Terra e o Universo vão cumprindo o seu destino. Assim, esteja em paz com Deus, como quer que você O conceba. E quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações, na cansativa luta da vida, mantenha-se em paz consigo mesmo.

Apesar de todos os enganos, problemas e sonhos desfeitos, este ainda é um mundo maravilhoso.

Entusiasme-se. E faça tudo para ser feliz.

* Desiderata – “aspirações” em latim – é um poema, em prosa escrito por Max Ehrmann escrito em 1927 e publicado em 1952.

Curiosidades

Três poemas de Carlos Drummond de Andrade foram descobertos em 2015!

FOTO: Murad Osmann
Três poemas de Carlos Drummond de Andrade foram descobertos em 2015!
FOTO: Flávio Veloso

Quantos tesouros não habitam uma biblioteca, não é mesmo?

Essa frase nunca fez tanto sentido quanto agora: através de uma pesquisa acadêmica, a estudante Mayra Fontebasso – que cursa o último ano de Letras na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – acabou descobrindo três poemas de Carlos Drummond de Andrade esquecidos pelo tempo.

Segundo o jornal O Globo, Mayra “encontrou os trabalhos quando fazia sua pesquisa de iniciação científica sobre textos literários publicados na revista “Raça”, editada em São Carlos entre 1927 e 1934, sob orientação do professor Wilton José Marques“.

Para entender melhor a origem dos poemas, estudante e orientador consultaram a Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Andrade (1918-1934), de Fernando Py, o Inventário Dummoniano, da Fundação Casa de Rui Barbosa e o crítico, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e especialista da obra de Drummond, Antônio Carlos Secchin.

Ao final, constataram que eram textos inéditos. Um deles, “O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica”, você pode conferir na íntegra, abaixo:

Projeto Follow Me To
FOTO: Murad Osmann

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica

Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…

As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…

As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…

As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…

Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho

Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…

Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…

E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…

E as mãos viúvas tateiam, insones, − as friorentas mãos viúvas…

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra

Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…

E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…

E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…

E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…

FONTE: O Globo