Frases

21 frases e poemas de Carlos Drummond de Andrade

FOTO: Reprodução / Tumblr

Quem nunca ouviu falar que no meio do caminho tinha uma pedra? Ou que João amava Teresa que amava Raimundo? Sem dúvidas, alguns poemas do mineiro Carlos Drummond de Andrade fazem parte da vida dos leitores brasileiros. Drummond foi escritor, cronista, poeta e considerado um dos autores mais influentes do século XX! Relembre sua obra através de 21 frases e poemas:

21 frases e poemas de Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade FOTO: Reprodução

1. O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

2. A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca.

3. NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

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4. No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.

5. Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

6. Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.

7. Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.

8. Como as plantas, a amizade não deve ser muito nem pouco regada.

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9. RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

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10. Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.

11. Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante.

12. As obras-primas devem ter sido geradas por acaso; a produção voluntária não vai além da mediocridade.

13. Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.

14. QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

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15. A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

21 frases e poemas de Carlos Drummond de Andrade
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16. JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse….
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

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17. Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo.

18. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chega a apertar o coração: é o amor!

19. Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata…

20. São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

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21. OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

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Fonte: PensadorKDFRASES.

Resenha

Resenha: Sentimento do Mundo – Carlos Drummond de Andrade

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Sentimento do Mundo é um livro fantástico. Escrito por Drummond, em 1940, essa coletânea de poemas incríveis demonstra a sutileza e a maestria do autor, com palavras firmes, tocantes e avassaladoras.

Apesar de ser bem curtinho, com menos de 100 páginas, não é um livro para ser devorado, mas para ler aos poucos. Na obra, Drummond expõe a saudade de Itabira, sua cidade natal, e homenageia Rio de Janeiro, cidade onde passou boa parte de sua vida.

O mais interessante é notar como poemas de 1940 ainda se encaixam ao contexto atual. Muitas vezes, parando para ler com calma as estrofes, ficava maravilhada. O autor consegue, sem dúvidas, ser atemporal.

Para comprar o livro, é só clicar no link abaixo:

Nos versos de Drummond, conhecemos suas angústias, seus sentimentos mais honestos e a percepção de um Brasil que passava por uma situação delicadíssima na política – o Estado Novo de Getúlio Vargas. Além disso, o fascismo e o nazismo cresciam de forma assustadora na Europa (não muito diferente do que estamos vendo hoje sendo “propagado” nas redes sociais…).

Alguns poemas doem tanto que dá vontade de chorar. Eu sou chorona e me emociono fácil com palavras (como comentei na resenha de A Ignorância, do Kundera), mas na atual situação do Brasil, é difícil conter as emoções. Em Sentimento do Mundo, meus poemas favoritos são “Bolero de Ravel”, “O Operário no Mar”, “Os Ombros Suportam o Mundo”, “Elegia 1938” e “Poema da Necessidade”.

A alma cativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia.
Infinita, infinitamente… (p.43)

Um dos trechos que achei mais incríveis, no poema “Elegia 1938”:

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
[…]
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. (p.67)

Ao final do livro, a edição da Companhia das Letras traz uma minibiografia e a cronologia da vida do autor, destacando suas obras mais importantes. Drummond trabalhou mais de 60 anos como jornalista e realizou tantos trabalhos incríveis que não é à toa sua importância para a literatura brasileira e mundial. Cronista, poeta e romancista, Drummond é um gênio e seus livros deveriam estar na estante de todos – não somente dos vestibulandos.

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Resenha: Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de AndradeTítulo original: Sentimento do Mundo
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 96
Ano: 2012
Gênero: Poesia
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