Resenha: Contos de Fadas – Edição Ilustrada e Comentada

Venho namorando esse livro desde 2011, quando participava de um grupo de estudos na faculdade sobre literatura. Na época não comprei, mas depois de anos, encontrei Contos de Fadas no Kindle Unlimited e comecei a ler despretensiosamente. Gostei demais e, não satisfeita com o ebook, comprei a versão capa dura da Zahar. Valeu cada centavo!

contos de fadas edição comentada e ilustrada zahar

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Em primeiro lugar, para quem ama as animações clássicas da Disney, esse livro é um prato cheio. Em Contos de Fadas encontramos as versões originais de diversos contos, como Branca de Neve, Cinderela, A Bela e a Fera, Pequena Sereia, e por aí vai. Também podemos conferir outros clássicos como Patinho Feio, Gato de Botas, Cachinhos Dourados etc. No entanto, se engana quem pensa que este é um livro feito para crianças. Na verdade, este livro destrincha os contos de fadas que conhecemos, contando suas origens, interpretações e múltiplos significados.

+Leia também: Resenha de A Bela Adormecida – Neil Gaiman e Chris Riddell

A edição contém notas de rodapé de Maria Tatar, que traz informações relevantes e interessantíssimas sobre o contexto histórico da época em que essas histórias eram contadas. Os contos de fadas têm sua origem na tradição oral, são beeem antigos e quase todos oferecem algum tipo de ensinamento ou moral.

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Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Alguns contos foram sensacionais. Eu não fazia ideia da história original da Pequena Sereia e gostei muito mais do que a versão da Disney, que tirou a parte crucial do conto. Não vou contar, porque não quero dar spoiler! Outro conto que eu não conhecia e que gostei bastante foi o Barba Azul. É bem pesado, mas adorei! Hahaha!

Conforme avançamos no livro, percebemos como muitos contos são parecidos e tratam praticamente da mesma história. Os contos são adaptados para cada povo, cada país e, dessa forma, muitas vezes são repetitivos. Porém, isso não tira seu mérito – é um livro delicioso de ler!  As páginas fluem e podemos ficar horas e horas sem parar, desfrutando dos contos.

+Leia também: Resenha de Retalhos – Craig Thompson

O bacana dessa edição da Zahar é sua alta qualidade. As ilustrações são feitas por artistas que viveram no começo do século XIX e até anteriormente, acrescentando a visão daquela época aos contos. O projeto editorial é incrível: a fonte utilizada, a qualidade do papel, tudo feito com muito cuidado.

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Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

No final, ainda encontramos uma pequena biografia dos autores dos contos, como Hans Christian Andersen e Charles Perrault, e também dos ilustradores, como Gustave Doré e Walter Crane. 

Eu me apaixonei por esse livro e recomendo a todos! Nada melhor do que reviver os clássicos da infância e conhecer um pouquinho mais sobre cada um! 🙂

contos de fadas edição comentada e ilustrada zahar

Título original: The Annotated Classic Fairy Tales
Autora: Maria Tatar (edição, introdução e notas)
Editora: Zahar
Número de páginas: 452
Ano: 2013
Gênero: Contos
Nota: EstrelaEstrelaEstrelaEstrelaEstrela


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Isabela Zamboni


Resenha: Jogo Perigoso – Stephen King

Mais um livro do Stephen King! Pois é, virei fã mesmo do autor. Demorei a vida inteira pra ler, mas agora que comecei, não quero mais parar! Depois de Sobre a Escrita e O Iluminado, agora foi a vez de Jogo Perigoso, livro de 1992. Quando li a premissa, já fiquei curiosa na hora! Vou resumir um pouco da história pra vocês:

Jessie Mahout vai passar um fim de semana ao lado do marido Gerald em uma casa de veraneio do casal, localizada no lago Kashwakamak. Durante uma brincadeira sexual, Gerald prende Jessie com algemas na cama. Porém, ela desiste do jogo, diz ao marido que não quer mais fazer sexo naquele momento, mas… Ele recusa-se a remover as algemas. Em um acesso de raiva, Jessie dá um chute no marido, que, ao mesmo tempo tem um infarto fulminante e cai morto no chão. Agora reflita comigo: ela está em um casa do lago, no meio do nada, sozinha, com o marido morto, semi-nua e presa com algemas na cama. QUE TENSO!

Resenha: Jogo Perigoso - Stephen King

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Durante todo o livro, conferimos Jessie tentando escapar e sobreviver. Também somos apresentados a diferentes vozes em sua cabeça, que acabam a ajudando a descobrir o que ela deve fazer – como se seu próprio subconsciente conversasse com ela. Conhecemos a “Esposinha Perfeita”, a feminista Ruth, voz de uma ex-colega de faculdade de Jessie, entre outras vozes internas que acabam aumentando ainda mais o clima de tensão do livro.

Do lado de fora da casa, há um cachorro vira-lata que não para de latir, ouve-se um barulho de motoserra ao longe e um mergulhão que não para de fazer barulho no lago. A porta do quarto também está semi-aberta e bate com o vento, criando um barulho irritante para a personagem.

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Li outras resenhas de pessoas que acharam o livro desanimado, parado e etc. Pelo contrário! Achei que a narrativa flui, dá muita vontade de saber o que vai acontecer e, ao mesmo tempo, choca e surpreende. Não apenas por ser uma história de sobrevivência, mas principalmente pela mensagem do livro, que usa essa situação de Jessie para criticar o machismo e o abuso sexual.

Jogo Perigoso não é somente um livro de suspense. Ele é um livro importante, principalmente no contexto que estamos vivendo hoje, nessa luta contra preconceitos, racismos, machismos e abusos sexuais. Escrito em 1992, ele não poderia ser mais atual: Stephen King critica aqui muitas atitudes grotescas dos homens e da sociedade em relação às mulheres. Desde incesto, até à questão da mulher ser uma ‘esposinha perfeita’ e aguentar relacionamentos abusivos. A crítica social é muito forte, especialmente em relação aos ridículos moldes familiares que, muitas vezes, criam as meninas para serem indefesas, donas de casa e aceitarem qualquer tipo de abuso masculino como algo normal ou a ser escondido.

Resenha: Jogo Perigoso - Stephen King

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Enquanto acompanhamos a tensa batalha de Jessie para escapar daquela situação humilhante e constrangedora, também sofremos e nos revoltamos com ela, principalmente quando conhecemos seu passado traumático, arrepiante até o último fio de cabelo. São cenas horrorosas, que mexem com nosso psicológico (mesmo!). Eu fiquei sem dormir uma noite, sério! Hahaha! Por dois motivos: por causa de algo MUITO assustador que surge no quarto de Jessie e por conta de seu passado repugnante. Stephen King sabe chocar como ninguém.

O único problema desse livro… É o final. Pense no fim mais decepcionante do mundo, pior que do livro “A Filha”, que resenhei aqui no blog faz pouco tempo. Na verdade, eu não entendi porque o Stephen King fez aquilo – talvez tenha sido até uma “ordem” do editor dele, não sei, mas destruiu praticamente tudo que foi construído ao longo do livro. Depois de tanto suspense, elementos que mexem com o psicológico da personagem (e com o nosso também), ele resolve dar uma explicação literal e racional para tudo o que aconteceu. É como se fosse um banho de água fria. PRA QUÊ???

Enfim, leiam o livro porque é excelente, mas tentem ignorar o final – vocês vão me entender se chegarem até as últimas páginas.

Resenha: Jogo Perigoso - Stephen King

Título original: Gerald’s Game
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Número de páginas: 336
Ano: 2013
Gênero: Terror
NotaEstrelaEstrelaEstrelaEstrelaestrela vazia


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Isabela Zamboni


Resenha: Sereia de Vidro – Marcelo Antinori

Hoje vim resenhar um livro que recebi do autor Marcelo Antinori, chamado Sereia de Vidro. Como adoramos conhecer autores nacionais – e apoiamos! – é claro que já embarquei na leitura e vim aqui contar pra vocês o que eu achei da obra.

Sereia de Vidro é o primeiro livro da coleção, que promete mais alguns volumes em breve. Quando recebi pelo correio, vi que era um livro pocket, bem curtinho! Achei até que fosse um conto, mas na verdade é só o começo de uma história que promete um desenrolar bem curioso.

Resenha: Sereia de Vidro - Marcelo Antinori

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Narrado em primeira pessoa, o livro é sobre um escritor que passa por uma crise de criatividade e procura a ajuda de uma freira que lê cartas de tarô. Nesse encontro bizarro, a freira revela algumas cartas e mostra ao protagonista que algumas pessoas podem surgir em seu caminho e novos acontecimentos podem tirá-lo de sua vida monótona.

Veja também: Resenha do livro “FRONTEIRAS”, da autora brasileira Sonia Rodrigues

Logo após esse encontro, ele conhece Ana Pérsia no metrô em São Paulo e vai almoçar com ela, o que resulta em uma tarde de amor em um hotel. Depois de passarem o dia juntos, Ana desaparece e deixa um número de telefone errado, para que ele não a encontre mais. Porém, após alguns dias, ela liga para ele para contar que está em perigo e precisa de sua ajuda. Primeiramente ele tenta fugir dessa história complicada, mas cada vez mais adentra em uma teia perigosa de acontecimentos, sem fazer ideia do que está acontecendo.

Aos poucos, esse escritor percebe que se meteu em uma situação complicadíssima e tenta ajudar Ana a fugir, mesmo sem conhecer nada sobre a vida dela. Também vamos descobrindo nuances sobre a vida particular dele e fazendo conexões entre os outros personagens da trama.

Marcelo Antinori não nos conta o nome do personagem principal em nenhum momento; como a história se passa pelo seu ponto de vista, somos deixados no escuro durante toda a narrativa: quem está atrás de Ana? Por quê? Será que as cartas de tarô estavam certas? Qual é o segredo que ela esconde? Eles se encontraram por acaso? Enfim, muitas perguntas – algumas são respondidas, outras deixadas para o próximo livro da série.

Resenha: Sereia de Vidro - Marcelo Antinori

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

É um livro curtinho, a leitura flui rapidamente, a trama é misteriosa e cria um certo clima “noir“, digamos assim. Assim como o protagonista, não sabemos o que fazer, como agir, o que está acontecendo. Esse esforço narrativo é interessante, prende a atenção e nos faz querer chegar até o final.

Só tenho algumas observações sobre o estilo do livro: achei que faltou um pouco de profundidade e descrição. Não que eu goste de livros com milhares de descrições, mas faltou clima, emoção e uma pitada de carisma. A narrativa é fria, seca e dura. Conhecemos os personagens de forma muito superficial, tudo acontece rápido demais! Como é pensado para uma série de livros, acredito que realmente é pra ser curto e veloz, mas ainda assim, senti falta de uma atmosfera mais bem trabalhada.

Sereia de Vidro tem uma premissa interessante, é criativo, ousado, mas falta fervor na narração.

* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

Resenha: Sereia de Vidro - Marcelo AntinoriTítulo original: Sereia de Vidro
Autor: Marcelo Antinori
Editora: Bússola Pocket
Número de páginas: 71
Ano: 2015
Gênero: Romance
NotaEstrelaEstrelaEstrelaestrela vaziaestrela vazia


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Isabela Zamboni


Resenha: Fronteiras – Sonia Rodrigues

Ao receber este livro, não fazia a menor ideia do que esperar dele. Quando li a sinopse, que contava a história de uma mãe que mudou-se para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor e deixou os dois filhos menores de idade para trás, esperava algo bem pesado e, no mínimo, diferente! A autora Sonia Rodrigues é filha de Nelson Rodrigues, autor que gosto muito! Isso me deixou com vontade de conferir esse livro, que no fim me deixou confusa. Ainda não sei dizer pra vocês se gostei ou não.

Pense em um livro em que você praticamente odeia todos os personagens. Não o tempo todo, mas boa parte. É um livro que causa revolta, indignação, raiva. Acho que é um ponto positivo, já que Sonia pretendia mostrar como é um inferno a vida de crianças abandonadas e que sofreram com muita violência.

Resenha: Fronteiras - Sonia Rodrigues

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Na história, Letícia, 16 anos, e Thomas, de 10, são deixados pela mãe Amanda, que parte para os Estados Unidos em busca de melhores condições de vida para a família. Ela deixa os dois morando sozinhos em um apartamento e promete que vai guardar o máximo de dinheiro possível para comprar as passagens, prometendo uma vida incrível para todos em Santa Barbara, na Califórnia. O motivo da fuga de Amanda é o ex marido Mark, pai de Thomas e padrasto de Letícia, que violentava os três. Enquanto fogem de Mark e tentam viver uma vida “normal”, Letícia precisa cuidar do irmão mais novo e ainda lidar com todos os conflitos da adolescência. Ela conta com a ajuda de Felício, ex policial que ajudou ela, o irmão e a mãe a fugirem de Mark no passado.

Durante as 300 páginas do livro, dá vontade de socar a cara de cada um dos personagens. Amanda é a mulher mais egoísta, idiota e irresponsável do mundo. Ela simplesmente abandona os filhos e começa a curtir a vida nos EUA, sem se preocupar com as crianças que largou para trás. No decorrer da história, ela só comete atitudes estúpidas e ainda acha que está sempre certa. Letícia é uma garota transtornada, que está passando por uma fase complexa da adolescência, descobrindo sua maturidade sexual, tendo que se privar de amizades e vida social para tomar conta do irmãozinho inocente. E Thomas é uma criança totalmente perdida, confusa e que não faz ideia do tamanho do problema em que está inserido. Felício é um cara bacana, mas que também não é dos melhores: não sabe se ajuda ou não Letícia, e inclusive a tensão sexual entre os dois é enorme. Observação: ele tem 32 anos e ela 16.

Mark é um típico psicopata que seduz mulheres carentes para conseguir o que quer. Ele passa boa parte do livro correndo incessantemente atrás do filho Thomas e querendo se vingar de Amanda. Acompanhamos a trajetória desses personagens, que passam por situações tão horríveis que só lendo pra saber.

Resenha: Fronteiras - Sonia Rodrigues

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Eu gostei da forma como os diferentes tipos de fronteiras são relatados. Fronteiras não somente físicas (Brasil – Estados Unidos, São Paulo – Rio), mas fronteiras entre sonhos e realidade, verdade ou mentira, ilusão ou crença, coragem e medo… É um livro triste. São relações humanas complicadas, envolvendo traição, abandono, abuso, violência sexual e famílias dilaceradas. Achei ótimo a autora mostrar esse universo que muitas vezes nem lembramos que existe.

Mas, como eu disse no começo do texto, alguma coisa não me agradou nesse livro. Achei ele longo demais, demora muito pra desenrolar E, no final, tudo acontece da forma mais corrida possível. Tipo novela, que acontece tudo no último capítulo. Na verdade, muitas vezes “Fronteiras” me lembrou novela das nove, sabe? Muito sexo, conflitos de relacionamento, núcleos diferentes. Eu simplesmente não queria saber de alguns personagens, eram descartáveis e desnecessários. Algumas situações pareciam exageradas e a personalidade de Thomas, por exemplo, foi muito instável. Com exceção de Letícia, que tinha personalidade forte e suas ações faziam sentido, o restante dos personagens eram meio bipolares e estranhos. Enfim, “Fronteiras” é um livro bom, tem subtextos interessantes, mas não é carismático. De qualquer forma, vale a leitura para tentar entender melhor a vida de pessoas em situações ilegais.

* Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora.

Resenha Fronteiras Sonia Rodrigues

Título original: Fronteiras
Autora: Sonia Rodrigues
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 300
Ano: 2015
Gênero: Romance
Nota: EstrelaEstrelaEstrelaestrela vaziaestrela vazia


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Isabela Zamboni


Resenha: Madame Bovary – Gustave Flaubert

Madame Bovary é aquele livro que todo mundo já ouviu falar na escola: é o marco do realismo, foi muito polêmico na sua época, é um clássico da literatura mundial… mas quando estamos no colegial nos preparando para o vestibular, a leitura desse livro passa longe de ser prazerosa. Aliás, quase tudo que vira obrigação perde a graça, né?

Resenha: Madame Bovary - Gustave Flaubert

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Mas eu, pelo contrário, não li Madame Bovary na época do colégio: li agora, aos 24 anos, pós-faculdade. E posso afirmar que essa obra é incrível, não somente no seu estilo, mas também no forte conteúdo. Incrivelmente, o livro foi escrito em 1857, mas MUITAS coisas se assemelham aos dias de hoje. Como diria o autor Gustave Flaubert, “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu).

Madame Bovary conta a história da triste e solitária Emma, uma moça criada no campo que tem grandes sonhos burgueses. Emma é muito apegada a seus livros e acredita que sua vida será igual aos romances que devora com fervor todos os dias. Sempre esperando uma vida melhor e cheia de riquezas, Emma casa com Charles Bovary, um médico do interior. A partir deste momento, vamos acompanhar uma linha sucessória de acontecimentos e momentos deprimentes, começando pelo tedioso casamento de Charles e Emma.

Frustrada por levar uma vida tediosa, monótona e ter um marido extremamente devotado, Emma começa a procurar novas aventuras. Acaba se envolvendo em duas relações extra-conjugais e, aos poucos,  percebe que a vida real é bem diferente daquela retratada nos livros.

“E Emma buscava saber o que significavam exatamente, na vida, as palavras felicidade, paixão e embriaguez, que tão belas lhe pareceram nos livros.”

Vamos por partes: é bem complicado ser sucinta quando o assunto é Madame Bovary. São muitos assuntos diferentes retratados e inúmeras mensagens nas entrelinhas. Primeiramente, Flaubert com certeza estava satirizando os autores românticos, que contavam histórias de belas donzelas que seriam salvas por um príncipe. Ao mostrar a realidade dura dos casamentos arranjados (sem amor nenhum por parte de Emma), conseguimos perceber a ironia do autor, que, de forma singela, consegue demonstrar a vida deprimente de uma mulher perdida em suas próprias ilusões.

Charles é um marido devotado, ingênuo e apaixonado: faz de TUDO por Emma, mas ela não corresponde e ainda o trata com o maior desprezo do mundo. Sua vontade é fugir, viver uma paixão sórdida, um romance proibido. Cansada do marido e da sua pobreza (ser médico no interior não era nenhum luxo na época), Emma busca novos amantes, que lhe prometiam o mundo, mas no fim das contas não lhe deixam com nada.

Resenha: Madame Bovary - Gustave Flaubert

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Os personagens de Flaubert são todos bem icônicos: desde o farmacêutico pomposo amigo da família, até a sogra de Emma, que faz o típico papel de mulher azeda que não suporta a própria nora. Cada diálogo do livro é precioso, criticando a religião, o falso moralismo e os “bons costumes”. Não é à toa que Flaubert é o marco da escola realista e influenciou tantos autores que vieram logo após, como Eça de Queiroz, que fez uma bela releitura de Madame Bovary em sua obra “Primo Basílio“.

“No fundo de sua alma, no entanto, ela esperava um acontecimento. Como os marinheiros aflitos, passeava seus olhos desesperados pela solidão de sua vida, buscando ao longe algum véu branco nas brumas do horizonte.”

Madame Bovary foi tão polêmico que chegou a ser censurado! Flaubert foi levado aos tribunais e choveram críticas à sua obra. Seu livro foi reconhecido e aplaudido como um clássico da literatura mundial somente muito tempo depois. Nos dias de hoje, é absurdo considerar este um livro polêmico. A história de uma mulher adúltera, sonhadora e insatisfeita com o próprio casamento não chegaria nem perto de ser censurada. Mas em 1857 era imperdoável.

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Para finalizar, o que mais me tocou neste livro é como ele consegue mexer com nossos sentimentos. A amargura de Emma queima na pele; sentimos pena de Charles ao lembrarmos de tantos homens como ele; odiamos os amantes de Emma, que são aqueles típicos homens que prometem o mundo às suas amantes e, na primeira dificuldade, pulam fora do barco; ficamos morrendo de raiva da hipocrisia e falsidade dos membros da pequena cidade francesa, que não sabem fazer nada a não ser futricar; morremos de tédio ao ver como a vida de uma dona de casa daquela época podia ser tão pavorosa; não conseguimos entender a frieza dos pais com a pequena filha, sempre jogada nos braços da empregada.

“O dever é sentir que somos grandes, é amar o que é belo e não aceitar todas as convenções da sociedade com as infâmias que ela nos impõe.”

Afinal, você é Madame Bovary, sempre insatisfeita com tudo, ou Charles, otimista e perdido na ingenuidade?

Livro Madame Bovary de Gustave Flaubert

 

Título original: Madame Bovary
Autor: Gustave Flaubert
Editora: Penguin – Companhia das Letras
Número de páginas: 496
Ano: 2011
Gênero: Clássico
NotaEstrelaEstrelaEstrelaEstrelaEstrela


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Isabela Zamboni


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