Resenha: Estranha Confissão – Anton Tchekhov

Passeando pelo sebo na minha cidade, encontrei este livro de Tchekhov que nunca tinha ouvido falar. O autor russo é famoso por seus contos e algumas peças de teatro, mas não sabia que havia escrito nenhum romance policial. Como sou fã do gênero, optei por Estranha Confissão e dei início à leitura.

Pesquisando sobre o livro, descobri que é na verdade uma novela, um precursor dos romances policiais de fundo psicológico que conhecemos tão bem com Agatha Christie, por exemplo. Estranha Confissão foi publicada em folhetins entre 1884 e 1885 e anos depois publicada pelo governo russo. A edição da Planeta é de 2005 e traduzida do espanhol, por ninguém menos do que Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares.

Resenha: Estranha Confissão - Anton Tchekhov

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Como sempre, nos gêneros policiais, o livro trata de um assassinato e uma investigação. No entanto, Tchekhov escreve com um estilo único, e provavelmente você nunca leu um romance policial parecido. Para resumir, a história narra as memórias do juiz de instrução Sérgio Petrovich Zinoviev. As memórias do juiz, logo no início do livro, são entregues a um editor de jornal para que fossem publicadas. A partir de então, conhecemos a história de Sérgio quando seu velho amigo, o conde Alexey Karnieiev, regressa ao distrito após uma viagem.

O conde é um beberrão, adora festas e considera Sérgio um grande amigo, enquanto este o despreza com frequência. No entanto, Sérgio se rende e acaba passando boa parte do seu tempo na companhia do conde, alternando momentos de sobriedade e trabalho com um temperamento ruim de bêbado. Durante a narrativa, conhecemos vários personagens que vão se entrelaçando e, quase ao final do livro, há um assassinato e o juiz deve descobrir quem cometeu o homicídio.

Sim, essa explicação da história ficou estranha, porque realmente não consigo resumi-la! Pense numa narrativa envolvente, mas que não deixa você confuso em relação ao assassino e nem tenta distrair seu foco. É óbvio do começo ao fim o que aconteceu com a vítima. Mas o interessante aqui é a maneira como Tchekhov usa a ironia e o sarcasmo para contar esse relato e, principalmente, criticar a base moral dos personagens e da Rússia conturbada daquela época.

É um livro envolvente: o autor trabalha com precisão o psicológico de cada personagem, mas, no fim das contas, é uma obra esquecível. Nem de longe um trabalho memorável, como os contos do autor e até suas peças de teatro (fiz resenha aqui no blog de As Três Irmãs). A cada dia me envolvo mais com os escritores russos (o sarcasmo é fenomenal), mas Estranha Confissão não entra para a lista dos favoritos.

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Resenha: Estranha Confissão - Anton Tchekhov

 

Título original: Estranha Confissão
Autor: Anton Tchekhov
Editora: Planeta
Número de páginas: 248
Ano: 2005
Gênero: Romance Policial/Novela
NotaEstrelaEstrelaEstrelaestrela vaziaestrela vazia


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Isabela Zamboni


Resenha: Blasfêmia – Maria Carolina Passos e Pathy dos Reis

Quando recebi Blasfêmia para resenhar, sabia que era um romance policial, por isso já fiquei interessada logo de cara.  Mas o que eu não esperava é que fosse me impressionar: não imaginava que ia ser tão bom! É um livro bem escrito, a trama é envolvente e os personagens construídos com louvor.

capa livro blasfêmia

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

As autoras são brasileiras – Maria Carolina Passos e Pathy dos Reis – o que me fez imaginar que a história se passaria em São Paulo, Rio ou qualquer outra grande cidade daqui. Mas, não! O cenário de Blasfêmia é a pequena cidade de Salina, em Utah, nos Estados Unidos. A descrição da cidade e dos moradores é ótima –  lembrei bastante da minha cidade (Bauru) e de alguns cidadãos daqui. Acredito que as autoras devem ter morado um tempo lá fora, pois a familiaridade com o cenário norte-americano é grande.

Mas vamos ao que interessa: a história do livro. Como sou horrível em sinopses, vou colocar a oficial para vocês conferirem:

“Recém-divorciada e sem emprego, Claire decide aceitar o convite do amigo de infância para trabalhar na redação do pequeno jornal de Salina, cidade natal que não visitava há muitos anos. Ainda na estrada, contudo, uma notícia no rádio a pega de surpresa: um rapaz de apenas 17 anos é encontrado morto em Salina, e uma informação sobre seu estado traz à tona lembranças do assassinato do irmão de Claire. Ocorrido há mais de uma década, o caso não solucionado marcou a população local para sempre. Determinada a obter as respostas que nunca conseguiu, Claire mergulha em uma investigação que irá forçá-la a reencontrar velhas amizades, revisitar traumas antigos e enfrentar novas ameaças”.

A protagonista, Claire, é muito sofredora – tudo que há de horrível já aconteceu com ela. Conforme vamos lendo a história, entendemos o porquê de tanto azar, mas os acontecimentos na vida dessa jornalista são para deixar qualquer um morrendo de raiva e desespero. No entanto, Claire é carismática, me identifiquei bastante em alguns momentos. Também adorei o fato de que o livro detona a hipocrisia religiosa. Na cidade de Salina, a maioria da população é mórmon, então acabei conhecendo um pouquinho mais sobre essa religião. Essa parte é bem interessante, pois foge do convencional de sempre retratar cristãos.

capa livro blasfêmia

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

O ritmo do livro é frenético, li MUITO rápido e me empolguei bastante conforme virava as páginas. Sabe aqueles livros que não dá vontade de parar e você quer chegar LOGO em casa para terminar? Pois é! Já li muitos livros assim que, no fim das contas, são decepcionantes, mas não é o caso de Blasfêmia.

O estilo das autoras me lembrou um pouco o da Gillian Flynn, autora de Garota Exemplar e Objetos Cortantes. Eu adoro romance policial, principalmente quando o final é satisfatório e, em Blasfêmia, o final impressiona e te pega de surpresa. Só espero que tenha continuação: o finalzinho deixou uma bela brecha para novas histórias.

capa livro blasfêmiaTítulo original: Blasfêmia
Autoras: Maria Carolina Passos e Pathy dos Reis
Editora: LeYa
Número de páginas: 272
Ano: 2015
Gênero: Romance Policial/Mistério/Suspense
Nota: EstrelaEstrelaEstrelaEstrelaestrela vazia


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Isabela Zamboni


Resenha: Paperboy – Pete Dexter

Quando li a sinopse desse livro, Paperboy, algo me chamou a atenção. Quando compararam-no com A Sangue Frio, do Capote, fiquei ainda mais interessada. O gênero policial, misturado com o fato de que o livro retrata um pouco do universo jornalístico da década de 60, foi um grande diferencial para me interessar pela leitura.

Paperboy conta a história dos irmãos Jack e Ward James, que investigam o caso do assassinato de um xerife local por Hillary Van Wetter, condenado à pena de morte. Depois de receber uma carta de uma mulher chamada Charlotte Bless, que afirmava a inocência de Hillary, Ward James, jornalista em ascensão, ao lado do parceiro Yardley Acheman, resolve investigar se Van Wetter foi realmente o culpado pelo crime.

Resenha: Paperboy - Pete Dexter

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

A trama se passa no sul dos Estados Unidos no final dos anos 60, período conturbado e cheio de transformações sociais. Jack, de apenas 20 anos, largou a universidade e voltou para casa para trabalhar como motorista do caminhão na empresa do pai. Percebemos toda a história pelo seu ponto de vista.

Vi muita gente reclamando da falta de capítulos, mas isso na verdade não incomoda. A leitura flui, o texto é gostoso de ler e a linguagem é pouco rebuscada. Por mais de 200 páginas, ficamos envolvidos em uma narrativa tensa, misteriosa e com personagens bem construídos.

Charlotte é uma personalidade única e envolvente, uma mulher “mais velha” que se sente atraída por homens na prisão, sempre tão longe e intocáveis. Yardley é um jornalista arrogante e prepotente, buscando a todo custo a fama e o sucesso, pouco se importando com a ética jornalística. W.W. James, o pai dos irmãos protagonistas, é um velho jornalista cansado que sente falta da ex-mulher e tenta, a todo custo, continuar com a boa reputação de seu jornal local. Jack, o principal, é um menino confuso e tranquilo, sempre tentando ajudar o irmão Ward, um homem misterioso, quieto e com uma inteligência e perseverança fora do comum.

A narrativa é densa e parte do real para o surreal. Alguns personagens da família Van Wetter são bizarros e perturbadores, trazendo algumas pitadas de emoção para a história. Algumas temáticas que estavam em voga na década de 60 também são introduzidas sutilmente, como o preconceito racial, a discriminação contra os homossexuais, a liberdade de expressão, a libertação sexual, entre outras.

Resenha: Paperboy

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à La Carte

Outro ponto que me agradou muito foram as descrições de personagens, principalmente pelos sentidos de Jack, principalmente o olfato. Dava para sentir o cheiro das pessoas, imaginar sua aparência e até sentir o gosto da cerveja quente e insossa dos dias de muito calor (e tristeza) vividos pelo personagem. É tudo muito sensitivo: conseguimos entrar na pele do jovem nadador que largou a universidade e ainda se incomodar, tanto quanto ele, com tantas situações inesperadas e reviravoltas da investigação.

A única coisa que me incomodou foi o final: muito triste, pouco original. Mas nada que tire o mérito do resto do livro.

*Obs: Assisti ao filme também. Nem tenho vontade de comentar, porque foi tão ruim e com um roteiro tão falho que nem é possível comparar.

*Esse produto foi um brinde, porém, as informações contidas nesse post expressam as ideias da autora

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Resenha: Paperboy- Pete Dexter

Título original: Paperboy
Autor: Pete Dexter
Editora: Novo Conceito
Número de páginas: 336
Ano: 2013
Gênero: Romance policial
Nota1 estrela1 estrela1 estrela1 estrelaestrela vazia


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Isabela Zamboni


Resenha: Morte na Mesopotâmia – Agatha Christie

Depois de viciar na série “Sherlock”, da BBC, me deu saudade de ler Agatha Christie. Já havia lido alguns livros da autora na adolescência, mas não lembrava direito de seu estilo. Peguei então Morte na Mesopotâmia, um dos títulos que eu lembro ser um dos mais conhecidos. Não me arrependi, pois a história é muito empolgante e divertida de ler.

Resenha: Morte da Mesopotâmia - Agatha Christie

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

O livro é mais um dos casos de Hercule Poirot, o detetive belga tão icônico que aparece em boa parte das obras da autora. Na história, a enfermeira Amy Leatheran narra sua experiência com a paciente Louise Leidner, uma mulher que sofria de angústia nervosa e era casada com o famoso arqueólogo Eric Leidner. A trama se passa em uma cidade árabe, durante uma escavação comandada por Leidner e sua equipe. Durante a história, ficamos tensos o tempo inteiro, querendo saber porque Louise sofria tantas paranóias e angústias e por qual motivo o clima entre as pessoas da escavação estava tão estranho.

Depois que um dos membros da equipe da escavação é brutalmente assassinado, é hora de Poirot entrar em cena e tentar descobrir quem teria motivos para realizar tal façanha, além de tentar explicar por que aquelas pessoas viviam em um clima tão pesado.

“Morte na Mesopotâmia” é aquela típica história de detetives que fascina e encanta. Um grupo de pessoas. Todas agindo de forma esquisita. De repente, um assassinato cometido por um deles e ninguém sabe como reagir. Um detetive entra em cena para tirar todo mundo do sério fazendo perguntas indiscretas. Análises minuciosas de cada detalhe do dia do assassinato, a fim de montar o quebra-cabeça. Ou seja: a narrativa perfeita para quem, como eu, é fascinado por solucionar mistérios.

Quem lê bastante Agatha Christie, geralmente adivinha rápido quem é o verdadeiro assassino. Sempre há o misdirection, isto é, a autora faz você odiar um personagem para desconfiar dele, mas com certeza está tirando o seu foco do verdadeiro assassino, geralmente aquela pessoa que todo mundo descarta logo de primeira. Nesse livro, me deixei levar e nem tentei adivinhar nada. Quis embarcar na jornada de Poirot e apenas admirar o personagem como um detetive muito astuto e divertido.

Resenha: Morte da Mesopotâmia - Agatha Christie

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Outro ponto positivo é conferir a história pelos olhos da enfermeira, alguém que chegou de fora da expedição e relata com detalhes tudo o que viu durante o tempo que passou ali. Amy Leatheran é uma mulher muito íntegra, correta, mas por vezes ingênua. Não conseguia ver o que estava diante de seus olhos e confiava bastante na bondade do ser humano. É divertido ver como ela ajuda Poirot no caso, que sempre a deixa bastante intrigada.

Por ser tipicamente britânico, também é divertido ver como os personagens são extremamente polidos e educados. Todos se preocupam demais com tentar parecer uma boa pessoa e despejar moralismo. Portanto, todo mundo que sai um pouco da linha ou age com sinceridade, aos olhos da enfermeira, é um indivíduo rude e grosseiro. A narradora vive fazendo comentários do tipo “ela não é uma dama”, ou “fulano deveria agir com mais respeito”. Parece que pessoas muito espontâneas incomodam de verdade a enfermeira.

Enfim, se você procura uma narrativa animada, fluente e com personagens ótimos, “Morte na Mesopotâmia” é o livro pra você. Só tente não adivinhar tão cedo quem é o assassino, senão perde toda a graça.

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Capa do livro Morte na Mesopotâmia

Título original: Murder in Mesopotamia
Autor: Agatha Christie
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 220
Ano: 2014
Gênero: Ficção/Policial
Nota1 estrela1 estrela1 estrela1 estrelaestrela vazia


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Isabela Zamboni


Resenha: Assassinato no Expresso do Oriente – Agatha Christie

CHEGA DE JULGAMENTOS!

Nunca mais serei alvo de risos contidos e olhos esbugalhados me perguntando: “COMO ASSIM, VOCÊ NUNCA LEU AGATHA CHRISTIE?”.
Pois é, minha gente! Minha hora de brilhar ler um livro da Rainha do Crime chegou!

Resenha: Assassinato no Expresso do Oriente - Agatha Christie

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Vou falar bem ~de boas~ sobre o enredo, já que não é novidade pra ninguém, a não ser pra mim, né? haha

Resumindo (muito bem resumido), em uma viagem de trem à Londres, durante uma parada por causa de uma nevasca, o corpo de um dos passageiros é encontrado com 12 facadas e cabe ao detetive Hercule Poirot solucionar o crime antes da polícia iugoslava.

O que mais me espantou (aka: me deixou “de cara”) foi o fato de o livro ter “apenas” (digo apenas por que, para um leitor acostumado com livros de mais de 300 páginas, esse pode ser considerado pequeno) 200 páginas e tantas ideias borbulhantes e reviravoltas.

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Posso dizer que cheguei a suspeitar de cada um dos viajantes do Expresso do Oriente. Pra depois, claro, pensar: “que idiota, claro que não!”.
Fiquei sem comer, sem dormir (de domingo pra segunda dormi 3h, valeu, Agatha!), sem sair! Haha. Gente, sério. O negócio é incrível, tenso, e você NÃO PODE PARAR! ~não para, não para, não para, não!~

Eu, muito ligeira, sagaz e espertona, tinha certeza – ou uma boa aposta – sobre como terminaria o livro.
E olha, posso dizer: NÃO TEM NADA A VER COM O QUE EU PENSEI.
RISOS.

Resenha: Assassinato no Expresso do Oriente - Agatha Christie

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

Ou tem. Até tem. Mas o fim você só vai descobrir lendo.
No decorrer do livro, como a maioria dos suspenses policiais, a autora lança diversas dicas, mas que você só acaba percebendo quando chega na última página.

Resumindo, Agatha, fofa… Você merece totalmente o título. Você é linda, rainha, querida, lacradora, diva e muito mais. Te considero pakas.
PS: Senti falta de uma notinha de rodapé traduzindo algumas frases em francês.
PS²: Li várias resenhas apontando o livro como um dos melhores da Agatha, então, se você ainda não leu, vale a pena tirar umas horinhas para se dedicar ao crime 😉 #tôprocrime

Resenha: Assassinato no Expresso do Oriente - Agatha Christie

FOTO: Melissa Marques / Resenhas à la Carte

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O livro será adaptado para os cinemas! Confira o trailer legendado:

Assassinato no expresso do oriente - Agatha ChristieTítulo original: Murder on the Orient Express
Autor: Agatha Christie
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 200
Ano: 2014
Gênero: Ficção / Policial
Nota


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Melissa Marques