Entrevista: Fabio Brust, autor de Deuses & Feras

Fabio Brust é autor de distopias e aposta no digital para a divulgação de seu novo livro Deuses & Feras. Confira a entrevista completa:

Entrevista Fábio Brust

FOTO: Divulgação

Resenhas: Conte um pouco mais sobre seu novo livro, “Deuses & Feras”…

Fabio: “Deuses e Feras” é uma história sobre Internet e governo. Basicamente é uma distopia young-adult, a exemplo de diversas outras espalhadas pelas livrarias, como “Jogos Vorazes” e “Divergente”, só para citar as mais conhecidas. Ao mesmo tempo, tentei captar um pouco da essência das distopias originais (entre elas, “1984”, “Admirável Mundo Novo” e “Fahrenheit 451”), com aquela atmosfera pesada e a sensação de que alguma coisa de errado vai acontecer no virar da página! Pra conseguir isso, transformei o mundo em um lugar repleto de cidades-Estado governadas, todas, pelo mesmo Estado virtual, situado na Internet. Basicamente as pessoas são controladas por meio de dispositivos semelhantes a smartphones implantados em seus braços – uma analogia para o vício cada vez mais presente nesse nosso mundo de hoje de pessoas que veem seus celulares como uma extensão de si mesmas.

Na história, o narrador é um ladrão e, a protagonista, uma assassina. Cada pessoa possui uma função determinada na Teia – o nome dado ao Estado virtual – e ambas as personagens precisam cumprir com objetivos previstos. O problema é que os dois são pares um do outro, ou seja, precisam se relacionar sexualmente como uma obrigação. E, a partir disso, eles descobrem tramas muito mais complexas e tentam, de alguma maneira, se desvencilhar do que é destino, do que é fatal.

Resenhas: Seu primeiro livro publicado (Agora eu morro) e seu mais novo livro (Deuses & Feras) são distopias. Atualmente, houve um “boom” de livros do gênero, principalmente entre os jovens. Para você, o que faz desse gênero um sucesso tão grande?

Fabio: Acho que uma das principais vantagens da distopia é justamente o fato de ela ser uma história de ficção, mas que remete praticamente em sua totalidade à nossa realidade atual. Geralmente são narrativas pessimistas, que veem o nosso futuro como um reflexo de ações nocivas que são praticadas agora. Em “Agora eu Morro”, as ações eram com relação à degradação do meio-ambiente; em “Deuses e Feras”, o uso da Internet como um instrumento de controle. O mesmo acontece com outras distopias, que fazem com que o leitor pense a respeito de sua situação e que tipo de atitude tem para com o mundo ao seu redor, ao mesmo tempo em que contam histórias fantásticas e cativantes!

+++ ENTREVISTA: RED DOOR HQS

Resenhas: Desde o lançamento de seu primeiro livro, muita coisa deve ter mudado, certo? Você acredita, por exemplo, que amadureceu como autor?

Fabio: Com certeza! Muita coisa aconteceu, e eu demorei muito mais tempo na produção de “Deuses e Feras”. No total, foram praticamente dois anos e meio trabalhando no livro, enquanto que “Agora eu Morro” me tomou 9 meses. Não que o tempo signifique alguma coisa… mas eu realmente me dediquei a criar o mundo em detalhes, em organizar tudo o que se passaria, em estruturar os capítulos em um esqueleto e tudo o mais. Isso me ajudou bastante a não me perder na história e a manter uma linha bem clara, no enredo! Com toda certeza amadureci, assim como amadureci em outros quesitos, também. Acho que aprender nunca é demais, né?

Resenhas: Você é formado em Produção Editorial. Como esse curso te auxiliou na carreira de autor? Indica para quem quer seguir essa profissão?

Fabio: Olha, o curso me ajudou a entender como o mercado editorial funciona e como a criação do livro como um objeto ou produto funciona. Tecnicamente, eu não aprendi muita coisa sobre ser um autor… eu aprendi como ser um editor. Muitas vezes isso me ajudou (tanto que eu fiz o e-book de “Deuses e Feras” praticamente sozinho, só com a ajuda da Inari Jardani Fraton, minha namorada, que também é formada em Produção Editorial), mas, em outras, até chegou a me atrapalhar. É aquela história de a gente se envolver tanto em uma coisa que acaba esquecendo das outras, certo? Ser um autor-editor é bem complexo e demanda tempo demais! Às vezes é melhor nos focarmos em uma tarefa só. Mas não vou dizer que é ruim, não. Eu gosto muito do meu trabalho – como autor e como editor -, e isso só tem me feito mergulhar cada vez mais fundo no mercado editorial. Cada vez tenho mais certeza de que fui criado pra fazer isso!

Resenhas: Com a sua formação, como você enxerga o mercado editorial atualmente?

Fabio: Enxergo com bastante otimismo! Estamos vivendo uma era tecnológica muito propícia para todo tipo de coisa. Os livros são apenas mais uma dessas coisas. As pessoas compram muitos livros na Internet, vejo cada vez mais feiras de livro espalhadas por todo lado, as pessoas leem na Internet – de graça ou não -, há cada vez mais blogs literários e gente falando sobre livros (vide o próprio Resenhas à la Carte!). E há a tal da questão dos e-books. Eu tinha um medo excessivo de e-books, antes de começar a lê-los e a considerar publicar meu livro nesse formato. Hoje eu vejo que só há vantagens. E-readers são práticos, fáceis de levar na mochila, nem tão caros assim; e os e-books são basicamente o que interessa nos livros: o conteúdo. Ao mesmo tempo eu, como um amante de projetos gráficos e design editorial (considerando o fato de que trabalho com isso, também), vejo uma ascensão dos livros caprichados: capa dura, guarda colorida, miolo bem-acabado e bonito. O que está desaparecendo das livrarias são os livros “descartáveis”, com aquele papel avacalhado e capa mole. Eu acho que não vou sentir falta deles. O e-book e o livro físico vão coexistir. E os livros vão continuar existindo. Nenhuma outra mídia vai aposentá-lo. Claro que isso é o que eu acho. Mas eu, como disse, vejo o mercado com otimismo. Só vejo razões para ele crescer!

++VANTAGENS E DESVANTAGENS DO KINDLE

Capa - Deuses e Feras

Foto: Divulgação / Elo Editorial

Resenhas: Como foi a decisão de escrever um livro apenas para o digital?

Fabio: Eu não escrevi o livro pensando no meio digital… quando terminei, inscrevi em um concurso. Evidentemente eu não ganhei. Aí eu fiz o meu trabalho de conclusão de curso sobre autopublicação e vi que era uma ótima alternativa para novos autores. O que pode ser mais meritocrático do que eu mesmo divulgar meu livro e fazer sucesso (se fizer) a partir da qualidade da minha obra? Talvez no futuro eu possa ser chamado por uma editora, talvez não. Por enquanto, acho que me autopublicar é uma sábia decisão, e que tem muito futuro. Torçam por mim!

Resenhas: Ser autor era realmente como você esperava?

Fabio: Acho que é melhor. No começo, pensei que seria uma vida glamourosa e cheia de eventos literários e filas para receber autógrafos. Hoje sei que ser um novo autor é bem mais difícil. A gente tem que se deslocar para eventos por conta própria (é caro!), tem que enfrentar a timidez para falar com os leitores diretamente, tem que trabalhar para conseguir alguma visibilidade. Mas é recompensador. Saber que tem alguém lendo o que eu escrevi é ótimo. Pode ser que a princípio eu não vá ganhar rios de dinheiro com isso, mas acho que esse não é o objetivo. O principal é simplesmente contar uma boa história, e é isso o que me guia.

+++ ENTREVISTA: ANDRÉ TURTELLI E RENATO QUIRINO, AUTORES DA HQ AOKIGAHARA

Resenhas: Existe alguma dica “concreta” que você possa dar para jovens e novos autores?

Fabio: Cada escritor tem a sua maneira de escrever, então é difícil dar muitas dicas! Mas uma ótima é a de aprender a estruturar a história, a criar um esqueleto. Isso me ajudou muito para não me perder na trama e não ficar preso em algum ponto da narrativa. Agora, para o esqueleto, cada um tem seu jeito. Eu acabei aprendendo a fazer o meu escrevendo cada capítulo em uma folha e colando cada uma delas na parede, para me guiar. Mas pode não funcionar pra todo mundo!

Resenhas: Quais autores (nacionais ou internacionais) te inspiram?

Fabio: Ah, tem diversos autores que me inspiram! Um autor nacional que me inspira muito é o Raphael Montes, por conta da sua criatividade e inventividade na literatura policial e sua grande presença nas redes sociais. Com relação aos internacionais, acho que os que eu mais admiro são autores clássicos – principalmente George Orwell, já que ele escreveu o livro de que mais gosto, “1984”.

Resenhas: Quais são seus planos e projetos?

Fabio: São inúmeros, em diversos âmbitos! Como editor, estou trabalhando para fazer cada vez mais serviços editoriais através da iniciativa Elo Editorial, que criei com alguns colegas e amigos do curso de Produção Editorial. Hoje estamos fazendo serviços para outras editoras, inclusive algumas mais conhecidas do público! Com relação a ser autor, quero continuar escrevendo e botar na prática as ideias que eu arquivei aqui no meu computador. Além disso, estou tentando escrever textos e crônicas, me fazer mais presente nas redes sociais e tudo o mais. Acho que o importante é não ficar parado! 🙂

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Melissa Marques


Entrevista: Red Door HQs

Lembra daquela velha brincadeira em que uma pessoa começa a história e a outra continua de onde parou? Pois é mais ou menos assim que funciona a Red Door HQs.

Toda terça-feira, um participante publica uma página da HQ, dando continuidade na história. Essa página é produzida em segredo e os outros dois participantes a veem pela primeira vez junto com todo mundo, quando é publicada. E assim a história vai seguindo, sem roteiro pré-definido. Essa é a ideia dos autores Bruno Arruda, Daniel Queiroz Porto e Rafael Oliveira, que estão a todo vapor com a Red Door HQ. Conversei com os autores e eles falaram um pouco sobre o projeto e ainda deram dicas superlegais para quem tem vontade de fazer quadrinhos no Brasil. Confira:

Entrevista: Red Door HQs

Daniel, Bruno e Rafael

Resenhas: Vocês podem falar um pouquinho sobre como surgiu a ideia da Red Doors? Qual é o diferencial de vocês com esse projeto?

Red Door: Nós sempre tivemos muito interesse em quadrinhos, líamos sempre, e tivemos pouca experiência em produzir, mas nossa vontade de criar era sempre suprimida por um certo receio de que nosso desenho não estivesse “pronto” para produzir um quadrinho. Então, em 2013, o Rafael Oliveira veio com uma ideia: perder esse medo e começar a produzir logo, sem pensar muito. A ideia da Red Door surgiu com esse convite, o combinado foi que toda semana um faria a página e teríamos que publicar em um site, independente da qualidade dela, e um dando continuidade ao que o outro autor fez, sem roteiro definido. Em uma semana já tínhamos um blogspot, uma página definida, um nome para o projeto e a ordem de publicações! Tudo muito rápido para começar a produzir logo e não ficar de mimimi, assim poderíamos aprender na prática e não ter receio de produzir.  Outra coisa ótima do projeto é que estamos em grupo e isso ajuda a dividir as tarefas, motivar um ao outro e a melhorar nossa narrativa e nossa percepção do que o outro deseja fazer ou para onde seguir com a história. Assim todos crescem! Mas o maior diferencial é o ato de as histórias serem produzidas no improviso, página a página.

CONFIRA A ENTREVISTA COM RENATO QUIRINO E ANDRÉ TURTELLI, AUTORES DA HQ “AOKIGARAHA”

Resenhas: Como é o processo de criação das páginas? Existe um roteiro pré-definido ou é mais livre, cada um faz do jeito que acha melhor?

Red Door: No primeiro ano era totalmente livre. A história ficou com 45 páginas e cada hora acontecia algo mais bizarro, e a história foi perdendo o rumo demais! Com alguns feedbacks de amigos e até entre nós mesmos, surgiram novas ideias de mudar algumas diretrizes dentro da nossa dinâmica. Então, desde o ano passado temos feito um pouco diferente para ter um certo direcionamento. As histórias possuem 10 páginas, para que cada um saiba o momento em que o final se aproxima e começarmos a dar um clímax para ela. Outro ponto que melhoramos é que quem começa a história, dá um gênero para ela, como por exemplo: suspense, ação, tiroteio, aventura de RPG. Assim, ela fica mais uniforme e não tão louca como no nosso primeiro ano. Mas fora a limitação do tamanho das histórias, cada um tem bastante liberdade para criar as páginas. Sempre tentamos respeitar os personagens e o gênero da história, mas somos livres para desenvolvê-la como acharmos melhor dentro disso.

Entrevista: Red Door HQs

Resenhas: Como tem sido o contato com o público? Vocês recebem um retorno bacana dos leitores?

Red Door: Por morarmos em Bauru-SP, sempre tivemos pouco contato com leitores de outros lugares. Achávamos que os leitores do nosso site fossem apenas amigos e familiares. Mas isso acabou mudando quando fomos para a CCXP (Comic Con Experience) em dezembro de 2014. Durante o evento, sentimos como é o contato com pessoas que conhecem e quem passou a conhecer lá o nosso trabalho. Foi uma experiência extremamente gratificante. Na Comic Con, conhecemos alguns leitores que já nos acompanhavam há alguns meses e até ficamos amigos do Gabriel, um leitor que em todos os dias do evento vinha até a nossa mesa nos dar um bom dia. Foi muito interessante como algumas pessoas compravam um quadrinho sem saber muito o que esperar e para nossa surpresa, no dia seguinte, voltava e comprava as outras hqs para ler todas! Recentemente o Rafael Oliveira nos representou na 21ª Fest Comix, e falou que alguns leitores que passaram na nossa mesa já possuíam um ou outro de nossos quadrinhos que compraram em lojas que distribuímos no Brasil. É muito bom ter esse tipo de contato com as pessoas que leem o que produzimos, assim temos uma noção de como atingem muito mais do que imaginamos!

Entrevista: Red Door HQs

Resenhas: O que vocês acham mais difícil na hora de criar os quadrinhos? A história, o desenho, a finalização…? Quais são os desafios?

Red Door: Nessa parte acho que cada um possui uma dificuldade, mas em todos esses aspectos temos algo para melhorar. Nós três somos formados em Design, então naturalmente nos expressamos melhor por imagens. Temos alguma facilidade em criar histórias, mas na hora de escrever é sempre um desafio deixá-la redonda para o roteiro. Assim como temos dificuldades em desenhar algo que nunca desenhamos ou também achar um estilo de finalização que se encaixe melhor na história. Porém esses desafios são o que nos fazem crescer e aprender que tudo isso é uma questão de hábito e se desafiar a fazer! Mas o que é mais desafiador na produção de quadrinhos é que é uma tarefa bem solitária e passamos muito tempo na prancheta/computador. Por esse motivo temos que ter uma grande força de vontade e permanecer horas e horas para que saia com a melhor qualidade possível.

Resenhas: Vocês lançaram a versão impressa da HQ, o volume 1. Quais são os planos futuros? Vocês pretendem continuar publicando ou vão focar mais no digital?

Red Door: Nossos planos são de produzir um volume da Red Door por ano, já que no site produzimos semanalmente, então o compilado disso se tornaria nosso volume anual.  Outro motivo para que isso aconteça é que também colecionamos quadrinhos e é muito bom ter a HQ física para ler e reler quando quiser! Como a Red Door funciona como um selo, também temos nossos quadrinhos pessoais, então fora esse volume anual, podem surgir outras hqs. Inclusive, já estamos produzindo para esse ano: mais uma física e uma outra digital. Então, a ideia é que o impresso alimente o site e o site alimente o impresso, com histórias em ambos!

Entrevista: Red Door HQs

Resenhas: Quais dicas vocês dão para quem quer começar a fazer quadrinhos?

Red Door: A maior lição que o projeto nos ensinou foi parar de ter esse receio de começar a fazer alguma coisa por achar que não está pronto e começar a fazer de fato. Isso vale para tudo, não só para quadrinhos, com o tempo e aprimoramento você vai melhorando e, para que isso aconteça, é bom que desenhe páginas de quadrinhos. Só assim é possível praticar e aprimorar sua narrativa. Outra dica é que você não precisa fazer tudo sozinho. É normal querer pegar todo o trabalho para si, e muitos de nós, como artistas, temos histórias que queremos contar nós mesmos. Mas não se prenda a isso como uma obrigação, faça amizades, arranje companheiros. Se você não é bom em escrever histórias, mas gosta de desenhar, procure um parceiro para colaborar! Ache pessoas que complementem suas habilidades e dividam um sonho com você. Mesmo que seja para cada um trabalhar em um projeto pessoal, mas tenha pessoas com quem pode compartilhar seu trabalho e deixar o ato de produzir quadrinhos menos solitário!


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Isabela Zamboni


Entrevista: André Turtelli e Renato Quirino, autores da HQ Aokigahara

No Resenhas, a gente lê de tudo: aqui não rola preconceito literário! Muitas pessoas “torcem o nariz” quando falamos sobre HQ. Uns acham muito infantil (oi?), outros acham perda de tempo. Mas deixa eu te contar um segredo: Aokigahara é muito melhor que MUITOS livros que já li! Portanto, fica a dica: vamos explorar novos mundos literários e descobrir novos gostos!

Conversei com André Turtelli e Renato Quirino, autores da HQ que, como disse acima, vale muuuito a pena! (E já se tornou uma das minhas favoritas!). Confira como foi o nosso bate-papo:

Resenhas: Para quem ainda não conhece, contem um pouco sobre como surgiu a ideia da HQ…

​André: Nós dois fizemos um primeiro trabalho em parceria com um blog que tínhamos entre amigos. Eu fiz o texto e o Renato a ilustração que o complementava. Por conta disso, surgiu a vontade de fazer uma HQ juntos, coisa que os dois gostavam.​ E então acabamos topando com a floresta de Aokigahara na internet, ficamos muito interessados e, após assistir a um documentário da Vice sobre a floresta, decidimos que esse seria o tema da nossa HQ.

Renato: Eu comecei a ler HQ depois de adulto, salvo algumas do Chico Bento. Comecei a trabalhar na mesma empresa que o André, e surgiu a vontade de fazer a própria revista. Depois do blog, do documentário, e de alguns anos, colocamos a ideia no papel.

Resenhas: Acredito que o processo de criação de texto e imagem sejam extremamente diferentes. Como foi para cada um de vocês? Existiu uma rotina de pesquisa e criação?

André: ​No caso do roteiro, foi um processo bem intuitivo. Tinha uma mensagem que eu gostaria de passar e pensei em diversas formas de chegar a isso. Como costumo escrever contos curtos, de início cheguei a várias histórias pequenas. Situações ​e personagens que passariam pela floresta. Conversando com o Renato para definirmos mais ou menos o tamanho da HQ acabei escolhendo meio que duas das ideias que eu havia tido, misturando, e criando algo completamente novo, chegando ao resultado final.

Renato: No começo era para ser uma história BEM curta, 5 páginas, talvez, para jogar na internet. Pesquisamos, conversamos, André rascunhou uns diálogos, eu uns suicidas, e acabamos fechando a revista com 30 páginas. Depois que o André finalizou o roteiro, fiz um rascunho de todas as páginas, para definir o que teria em cada quadro. Depois disso, fiz um documento imenso com referências visuais, tanto da floresta quanto de ambientes urbanos japoneses, roupas, pessoas, comportamento, e comecei a desenhar.

HQ Aokigahara

FOTO: Reprodução / Facebook Renato Quirino

Resenhas: Falar sobre um tema tão pesado como o suicídio, logo na primeira HQ, não assustou vocês?

André: ​Ficamos um pouco receosos sim, na verdade. Após estar quase tudo finalizado, pensamos “imagina alguém se suicida depois de ler essa revista?” e decidimos incluir uma mensagem mais clara no final da revista, para passar uma mensagem bacana, que na verdade é uma das formas de ler a história.

Renato: Quando começamos, nem me dei conta que o tema era pesado. Depois de pesquisar por #aokigahara e ver a quantidade de corpos espalhados pela floresta, comecei a me dar conta da dimensão do problema.

Resenhas: Vocês conseguiram financiar mais de 300% do valor do projeto via Catarse. Vocês indicam esse “caminho” para quem quer publicar de forma independente?

André: Eu, pessoalmente, indico sim. É um modelo de negócio muito bacana, que todos acabam saindo ganhando. Quem quer publicar, consegue. Quem gosta do projeto, já adquire. E ver o pessoal apoiando e compartilhando é ótimo para os criadores, dá uma energia ainda maior para tentar fazer o melhor possível para satisfazer os apoiadores.

Renato: Não indico para qualquer um. Gerir uma campanha no Catarse é uma função trabalhosa, que demanda muito tempo e energia. Não é colocar o projeto no ar e esperar o dinheiro cair na conta. Se você não trabalhar pesado em divulgação, em expandir sua rede de contatos, seu projeto não será financiado. Se você não apresentar um projeto claro e confiante, ninguém vai apoiar. E o pós-campanha é ainda mais trabalhoso. Indico sim, ótima ferramenta, para quem tem vontade e não tem preguiça.

+++ CONFIRA A RESENHA DA HQ AOKIGAHARA

Resenhas: Qual diferencial vocês veem no projeto para ele ter sido tão bem aceito?

Renato: Antes da campanha entrar no ar, muita pesquisa, muita conversa, muitas horas lendo comentários de posts sobre financiamento coletivo. Conseguir definir um público, procurar onde ele está e a melhor forma de abordá-los, para mim é o diferencial. A campanha precisa de uma estratégia, boa vontade não basta.

Resenhas: Além do Catarse, vocês fizeram algumas ações offline para divulgação, como a presença na CCXP. Como foi a receptividade? Uma HQ “do interior” se deu bem “na capital”?

​Renato: Foi o primeiro evento do tipo que eu fui, meu primeiro contato com outros quadrinistas, e não poderia ter sido melhor. Mesmo no fim do sábado, o dia mais movimentado da CCXP, fui super bem recebido em todas as mesas que parei, e a grande maioria das pessoas que conversei já conheciam a Aokigahara. Não senti em nenhum momento a relação interior/capital, acho que esses conceitos já não me fazem mais sentido.

HQ Aokigahara

FOTO: Reprodução / Facebook Renato Quirino

Resenhas: Em quem vocês se inspiram?

​André: Em que vocês se inspiram… Complicado, rs. Difícil pontuar algo assim, acho que eu acabo me inspirando mais em situações que acabo vendo ou ouvindo, reais ou não. Música também é um negócio que me inspira muito, às vezes de uma frase de uma letra de música, sai um texto inteiro.​ Agora se a pergunta for mais para a HQ em si, acho que para o trajeto dos personagens foi uma coisa mais pessoal mesmo, essas questões que a gente acaba sempre levantando, sobre beleza, trabalho, pequeneza, desconhecido, etc. Agora, para a narrativa, minha maior inspiração foi uma peça de teatro que vi na época​​ – eu realmente não me lembro o nome – mas era muito boa, ela tinha essa pegada dos personagens completarem a frase um do outro mas em lugares completamente distintos, mas que criavam uma linha reta e faziam sentido para o espectador​. Queria lembrar o nome mesmo.

Renato: Nas pessoas que vejo na rua.

Resenhas: Quais são os projetos de vocês? Pretendem trabalhar juntos novamente?

​André: Estamos para lançar no começo de julho um livro de contos folclóricos ilustrados, que foi contemplado pelo Programa Municipal de Estímulo à Cultura. São 10 contos meus e 10 ilustrações do Renato. Chama-se “Aconteceu com um amigo dum amigo meu“. É um resgaste das criaturas do nosso folclore para os tempos mais atuais, digamos assim.  Onde estaria o Saci nos tempos modernos? Como seria um Curupira nos dias de hoje? ​É para esse tipo de pergunta que o livro inventa respostas. Além disso, pretendemos fazer outra HQ juntos, sim.

Renato: Além do “Aconteceu com um amigo dum amigo meu“, recentemente ilustrei o “Lobo de Rua“, livro da Janayna Pin que está entre os mais vendidos da categoria na Amazon. Estou escrevendo também o roteiro de uma HQ que vou lançar no FIQ, em novembro. Durante o próximo mês devo começar a mostrar alguns previews no meu instagram.

Resenhas: Como está sendo a recepção do público? Qual feedback vocês já tiveram?

​André: Estamos extremamente felizes com a recepção! Além do feedback ótimo das pessoas que estão perto de nós, várias resenhas elogiando, vídeos/resenhas, foi bem falado em fórum de quadrinhos, pessoas que não conhecemos indicando e elogiando espontaneamente, descobrimos que foi objeto de estudo em uma reunião em uma faculdade na Paraíba, foi “Melhor do Mês” para 3 colunistas do Universo HQ… Enfim, acho que não poderia estar mais feliz e surpreso com a receptividade que a revista está tendo. ​Ainda não apareceu nenhum hater, rs

Renato: O melhor feedback que tive até agora foi do ditchan (avô) da minha mulher, 93 anos, que conferiu as frases em japonês. Tava tudo certo, ele adorou!

Resenhas: Ainda é possível adquirir um exemplar da HQ? Como?

Renato: Sim! Pela internet, vendemos pela Ugra Press. Em São Paulo, tem algumas edições na Monkix (Rua Harmonia, 150, Vila Madalena). Esse ano estaremos com mesa no FestComix (São Paulo – Julho), e no Festival Internacional de Quadrinhos (Belo Horizonte – Novembro). Vendemos pessoalmente também, é só nos procurar! Valeu!

HQ Aokigahara

FOTO: Divulgação / Renato Quirino e André Turtelli


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Escrito por:

Melissa Marques


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