Resenha: História de Quem Foge e de Quem Fica – Elena Ferrante

Quando você acha que Elena Ferrante não vai mais impressionar, chega o terceiro livro da série Napolitana: arrebatador e ainda mais maduro do que o segundo – História do Novo Sobrenome – e o primeiro – A Amiga Genial. O fervor político da década de 60/70 só aumenta em História de Quem Foge e de Quem Fica, assim como a luta pela liberdade sexual, o feminismo e outras manifestações que transformaram bastante a Europa naquele período.

O livro começa com a ascensão de Lenu como escritora, passa por toda sua glória, até atingir a decadência e, por fim, àquilo que ela mais tinha pavor: tornar-se uma subalterna da personalidade explosiva e cativante de Lila. Enquanto ela luta para tornar-se diferente, mostrar a todos que é uma mulher inteligente, estudada, com um bom casamento, ao mesmo tempo nunca sai da sombra da melhor amiga.

Como mencionei na resenha anterior, Lila me irritava profundamente, me dava um ódio gigantesco. E assim como alguns colegas que leram o livro me alertaram, dessa vez a raiva foi transferida para a protagonista: ela realiza tantas ações inconsequentes, que torna-se impossível não surtar com tamanha burrice, ou citando a fala de Lila, “imundície e cretinice”.

Dessa vez, o foco da história é a narradora, a própria Elena, que passa por situações turbulentas durante a juventude e início da vida adulta, em seus papéis de mãe, esposa, amiga, cunhada, nora, irmã. Tudo é posto à prova: Elena entra em uma forte crise de inspiração – sua genialidade começa a ser questionada por todos, afinal, seu primeiro livro foi um sucesso, mas e o segundo? Em meio a tantas revoltas, assassinatos no bairro (a situação é bem crítica em Nápoles naquele período), movimentos da classe operária, discussões fervilhantes nas universidades, policiais sempre à espreita, Elena vive um dilema moral e uma crise de identidade: percebe que sempre viveu na sombra de Lila e não suporta seu papel como mãe e esposa. Custa a aceitar que seu marido não a apoia – pelo contrário, prefere que ela se submeta somente ao papel de esposa e cuidadora do lar, sem se importar com sua carreira de escritora.

Para comprar o livro, é só clicar no link abaixo:

Durante um tempo, Elena até arrisca a carreira como jornalista, escrevendo artigos para um jornal famoso, mas a vida de mãe – ela tem duas meninas com o marido Pietro – a sufoca, a sucumbe e a desgraça. As personagens femininas em História de Quem Foge e de Quem Fica ganham uma força ainda maior que nos outros livros de Ferrante. Mariarosa, a cunhada de Lenu, é a imagem da mulher revolucionária da década de 70: dirige seu próprio carro, toma pílula anticoncepcional, é militante, tem diversos companheiros, usa drogas, sem nunca pensar em casar ou engravidar. A família toda de Pietro é composta por universitários, estudiosos, militantes e apoiadores da causa socialista, enquanto o próprio marido de Elena é um reacionário conservador.

Durante várias páginas de História de Quem Foge e de Quem Fica, principalmente a partir da metade do livro, percebi um tom de Madame Bovary misturado com Anna Kariênina. E o mais divertido é que Ferrante faz até uma brincadeira com isso: Lenu quer escrever um romance sobre como as mulheres são sempre vistas pelos homens como uma continuação de si mesmos, como uma cópia, um corpo duplicado; ela até cita os romances que leu para perceber como as mulheres nunca são retratadas por autores homens como elas realmente pensam ou sentem, mas como eles acham que sentiriam se fossem mulheres. Ela comenta sobre estar estudando Anna Kariênina, Madame Bovary Moll Flanders, para usá-los como base para seu romance; no entanto, as protagonistas destes mesmos livros tornam-se um reflexo dela mesma, que vive situações absurdas no maior dos clichês literários.

Em meio aos tormentos de sua vida conjugal e profissional, também acompanhamos boa parte da vida de Lila, que, após desvencilhar-se de Nino – mais um homem que sugou toda sua energia e depois a abandonou – precisa encontrar um emprego para cuidar de seu filho Gennaro e livrar-se de Stefano, seu marido abusivo que a esbofeteava com frequência. Lila começa a viver então com Enzo, um rapaz soturno, quieto, mas muito educado, que a ajuda como pode durante fases muito turbulentas.

Lina trabalha em uma fábrica de salsichas e embutidos, sofrendo todo tipo de abuso sexual, moral, violência e humilhação como nunca tinha vivido antes. Sem querer, envolve-se em uma luta do proletariado contra os abusos do patrão e as más condições de trabalho. Lenu participa de longe, ouvindo o relato de Lila, que trabalhava sem descanso e ainda precisava cuidar do filho.

Elena tenta ajudar a amiga, mas é humilhada por todos que participam do movimento social: acusam-na de, do alto de suas influências burguesas, tentar ajudar do jeito mais ridículo possível: acionando advogados e pessoas importantes para tentar conter os abusos da fábrica, desmoralizando a luta proletária.

Lina é aquela mulher que passou por situações terríveis – estuprada, violentada, sempre maltratada por todos – mas continua de pé, firme e forte, fazendo o possível e impossível para mostrar que tem talento, que é melhor do que todos,  e que por mais que os homens tentem subordiná-la, isso seria sempre impossível. Sua inocência e ignorância em relação aos homens que se dizem apaixonados, mas na primeira oportunidade desaparecem, acaba; ela agora é uma mulher trabalhadora que, se tivesse tido a oportunidade, seria muito mais brilhante e deixaria qualquer pessoa a seus pés.

Resenha: História de Quem Foge e de Quem Fica - Elena Ferrante
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Por não ter oportunidades na vida, ela almeja que Elena, sua melhor amiga, atinja o patamar que ela sempre sonhou: uma vida boa, feliz, tranquila, sem se preocupar com brigas de bairro, mas sendo uma escritora de prestígio, usando sua inteligência para mudar o mundo. Como Lenu não faz isso, inclusive, faz o oposto, arruína-se por causa de Nino Sarratore, os laços que unem a amizade das duas estão prestes a arrebentar.

Nino Sarratore é o famoso personagem que podemos chamar de embuste: parece ser um homem à frente de seu tempo, liberal, inteligente, respeitoso; mas quando, lentamente, se aproxima das mulheres, diz-se apaixonado, ciumento, maravilhado. Assim que enjoa e se entedia, deixa qualquer uma para trás (geralmente com filhos, cuja paternidade ele nunca assume) e desaparece do mapa, culpando-as por terem se “entregado demais” aos sentimentos. Sempre criticou o pai, Donato, que fazia isso com as mulheres do bairro, mas tornou-se farinha do mesmo saco.

Sei que a resenha ficou longa, mas não é fácil encontrar palavras que descrevam a genialidade por trás dessa tetralogia Napolitana. Agora, só me resta o desfecho da história – o quarto livro, História da Menina Perdida. E você, já leu? O que achou? Deixe sua opinião nos comentários, vou amar saber!  🙂

LEIA TAMBÉM

Resenha: História de Quem Foge e de Quem Fica - Elena FerranteTítulo original: Storia di chi fugge e di chi resta
Autora: Elena Ferrante
Editora: Biblioteca Azul
Número de páginas: 416
Ano: 2016
Gênero: Literatura estrangeira
Nota

Comentários via Facebook

Comente!