Resenha: Orgulho e Preconceito – Jane Austen

Nunca achei que fosse escrever isso, mas Orgulho e Preconceito é um dos livros que mais me fisgou nos últimos tempos. Eu já tinha lido quando era mais nova, uns 17 ou 18 anos, mas na época eu detestei. Achei chato, monótono e a edição que havia lido provavelmente tinha uma tradução ruim, porque eu achava bem complicado de entender alguns elementos da história. A impressão que tenho hoje é totalmente diferente; Jane Austen era uma escritora fenomenal.

Em um primeiro momento, Orgulho e Preconceito parece apenas uma história de romance ingênuo, com personagens mulheres que só pensam em casamento. Mas a obra vai muito além: Jane Austen constrói alguns dos mais perfeitos diálogos sobre a moral e os valores sociais da pseudoaristocracia inglesa.

Essa edição da Penguin é muito interessante, porque traz um texto de apoio logo no início apresentando uma análise detalhada da prosa literária de Jane Austen e todos os seus pormenores: as críticas à sociedade da época, as reflexões sobre moral, a ascensão da mulher, os conflitos históricos que se passavam naquela época na Inglaterra (invasão de Napoleão, tratados com a França e etc), entre muitas outras observações imprescindíveis para entender a importância do romance.

Mas vamos a um pequeno resumo da obra: Elizabeth Bennet – a protagonista – vive com sua mãe, pai e irmãs no campo, na Inglaterra. Ela e sua irmã mais velha – Jane – enfrentam uma grande pressão para casar. Porém, a chegada do Sr. Bingley e do Sr. Darcy à região – homens ricos e bem-apessoados – traz esperanças para a mãe das jovens, cujo único propósito de vida é casar as filhas. Quando Elizabeth é apresentada a Darcy, faíscas voam e a tensão sexual só cresce. E, embora haja uma química óbvia entre os dois, a natureza reservada de Darcy ameaça a relação, assim como a “impertinência” de Elizabeth.

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No final do XVII na Inglaterra, as possibilidades de ascensão social eram bastante limitadas para mulheres sem dote. Elizabeth é um desses casos; mesmo nascendo em uma família em que mães e irmãs só pensam em casamento por conveniência ou para salvar o patrimônio, Eliza é um novo tipo de heroína. Ela tem suas próprias convicções e ideais, recusando até mesmo propostas de homens que seriam consideradas “ideais” para sua mudar sua condição de vida.

E é justamente a sua “falta” de estereótipos femininos que conquistam o nobre Fitzwilliam Darcy, acostumado a ser sempre bajulado e tratado de forma diferente por conta de sua fortuna e posição. Como a própria contracapa do livro aponta, “Lizzy é uma espécie de Cinderela esclarecida, iluminista, protofeminista.” 

Resenha: Orgulho e Preconceito - Jane Austen
Foto: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Outra crítica mordaz de Jane Austen em Orgulho e Preconceito é à futilidade das mulheres e das pessoas que moram na província. Personagens como o primo Collins, Lady Catherine e as irmãs Bingley mostram a hipocrisia, a maldade e o orgulho nocivo em relação aos membros da “nova sociedade”, cujo maior símbolo é a família Bennet – não pessoas desprovidas de dinheiro, mas sem uma vida considerada aristocrática. Podemos chamar isso hoje em dia de classe média.

Outro embate constante no livro é o próprio título: o orgulho de Mr. Darcy, em demorar a admitir que se apaixonou por uma mulher de uma família com baixa renda; e o preconceito de Elizabeth, que o enxerga como um homem arrogante, inescrupuloso e nunca sequer busca entender o motivo da personalidade sisuda do mesmo. Os dois oscilam entre esses sentimentos: o preconceito também está sempre presente em Darcy, assim como o orgulho instaura-se em Lizzy. Esse embate é o que os aproxima e repele, criando uma conexão nociva, um misto de paixão, atração e raiva. Esse tipo de narrativa já é mais comum encontrarmos em diferentes obras, mas sem a sutileza de Jane Austen.

No texto de apoio, também encontrei uma passagem em que a ensaísta aponta que é muito difícil para compreendermos o que Austen escreve, principalmente em relação ao período histórico que permeia a narrativa do livro. Os costumes, a sociedade e os valores eram tão diferentes que saltam aos nossos olhos; hoje parece incabível conceber uma mãe que deseja se ver livre das filhas e um pai que diz descaradamente o quanto acha suas filhas mais novas fúteis e burras.

A influência de vizinhos e familiares, as regras de etiqueta, as formalidades…tudo parece um absurdo sem sentido. O ideal de casamento também é bem diferente! Não existia namoro, ou escolher uma pessoa por sentir-se atraída por ela. Era apenas casar e torcer para que o marido possa sustentá-la. Poucos realmente trabalhavam e muitos sentiam-se na obrigação de receber uma renda fixa da família. E acredito que isso é uma das principais características da literatura: nos mostrar um novo mundo, um universo diferente e perspectivas complexas sobre a história, seja de uma província na Inglaterra ou qualquer lugar do mundo.

Uma das adaptações mais famosas de Orgulho e Preconceito é o filme de 2005, com Keira Knightley e Matthew Macfayden. A cena dos dois na chuva é uma das mais famosas:

Assim como Elizabeth, eu também nutria um grande preconceito por livros como os de Austen. Mas joguei tudo fora e agora fico feliz de ter adorado essa obra clássica. Recomendo bastante!

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Resenha: Orgulho e Preconceito - Jane AustenTítulo original: Pride and Prejudice
Autora: Jane Austen
Editora: Penguin Companhia
Número de páginas: 192
Ano: 2018
Gênero: Infanto Juvenil
Nota

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