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Resenha: A Época da Inocência – Edith Wharton

Resenha: A Época da Inocência - Edith Wharton

Sou viciada em romances do século XIX, mas A Época da Inocência foi uma das obras que demorei para demonstrar interesse. Assisti ao filme primeiro, de Martin Scorsese, mas na época não gostei muito. Esperei alguns anos para começar a leitura e esquecer completamente a história para dar início à trama de Newland Archer e Ellen Olenska. Confesso que a leitura já me prendeu no início, especialmente por conta da ironia da autora Edith Wharton, que consegue retratar com perfeição a hipocrisia da high society nova-iorquina nos idos de 1870.

Vamos à sinopse?

No descompasso entre seus desígnios juvenis e as rígidas regras do Bom Gosto e do Bom-tom que balizam a velha Nova York no fim do século XIX, está o abastado advogado Newland Archer. Prestes a se casar com a inocente May Welland, ele conhece a prima de sua noiva, a condessa Olenska. Apaixonado por ela e exasperado pelas restrições do mundo a que pertence, Archer vagará em busca da verdadeira felicidade ao mesmo tempo que procura amadurecer, imerso nas tradições que se vê obrigado a seguir. “Um estudo das complexas e íntimas relações entre coesão social e crescimento individual”, como destaca na introdução Cynthia Griffin Wolff, ensaísta e especialista na obra da autora, A época da inocência é um olhar generoso para o passado; com maturidade, Wharton busca compreender os valores que guiaram a sociedade dos Estados Unidos até a Primeira Guerra Mundial, para então saudar a nova era que estava começando. Com ecos do herói Christopher Newman, de O americano, de Henry James, e da trama de Anna Kariênina, de Tolstói, A Época da Inocência foi adaptado para o cinema em 1993 por Martin Scorsese.

O livro é dividido em duas partes: na primeira, acompanhamos Newland Archer, um rapaz da alta sociedade que segue à risca todos os costumes e tradições impostos pelas famílias ricas de Nova Iorque. Frequentador da ópera, dos teatros e apreciador da arte, Archer vai se casar com May Welland, uma jovem pura, alegre e com uma mentalidade quase infantil. Sabemos que no século XIX não havia nada mais importante do que o casamento, tema que já foi retratado inúmeras vezes na literatura.

O divórcio era considerado um absurdo sem tamanho, o rompimento com as leis cristãs e com o ‘bom gosto e bom-tom’ da sociedade. No entanto, a chegada da prima de May Welland, a Condessa Ellen Olenska, dá início a uma agitação sem tamanho entre os membros da aristocracia nova-iorquina.

Olenska nada mais é do que uma mulher que morou na Europa por anos e não segue os costumes rigorosos que lhe são impostos. Trata-se da personagem feminina que busca liberdade — no caso, a separação do marido — e causa estranhamento entre as ‘moças apropriadas’ e os ‘cavalheiros’ da época. Tal figura na literatura daquela época não era comum, mas Edith Wharton tece a narrativa com sutileza, transformando Ellen em uma mulher destemida e apaixonante.

Resenha: A Época da Inocência - Edith Wharton

A trama em si não é inédita: Archer se apaixona por Olenska, mesmo que não queira admitir. Ela corresponde, mas não pode seguir adiante porque continua casada com o conde Olenski. Acompanhamos então esse ‘romance proibido’ cheio de angústias, rancores e dramas. Porém, acredito que o que realmente importa na leitura não é o triângulo amoroso entre May, Ellen e Newland, mas sim a busca dos personagens pela liberdade individual em detrimento dos costumes da comunidade em que vivem.

[…] e estremeceu ao imaginar que seu casamento se tornaria igual à maioria dos outros casamentos que via a seu redor: uma insípida comunhão de interesses materiais e sociais mantida pela ignorância de um lado e pela hipocrisia do outro.

Não foi à toa que Edith Wharton foi a primeira mulher a vencer o Pulitzer de Ficção, em 1921, graças à Época da Inocência. A obra carrega temas como sexualidade reprimida, realização individual e social, bem como os costumes odiosos da alta sociedade. Como a própria autora cresceu nesse ambiente da classe alta norte-americana, a narrativa torna-se ainda mais crível e pessoal.

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No texto de apoio que acompanha esta edição da Penguin, Cynthia Griffin Wolff, ensaísta e especialista na obra da autora, ressalta que este é o “romance de guerra” de Wharton. Escrito logo após o fim da 1ª Guerra Mundial, a autora fez questão de mostrar as antíteses entre a “velha Nova Iorque” e as novas gerações. Há sempre o embate entre o conservador e o moderno, o ultrapassado e o novo —  reflexo das mudanças trazidas pelos conflitos mundiais.

No entanto, houve um tempo em que Archer tinha opiniões definidas e até agressivas sobre tais problemas e atribuía significado universal a tudo que se referia a maneiras e costumes de sua pequena tribo. “Enquanto isso, pessoas de verdade viviam em algum lugar”, pensou, “e coisas de verdade aconteciam na vida delas…”

Outro destaque que vale ser mencionado é a influência de Tolstói na escrita da autora. Wharton teve forte influência de Guerra e Paz e Anna Kariênina para escrever A Época da Inocência. A heroína que se encontra em um casamento forçado e almeja a separação do marido, pode ser comparada tanto à Newland quanto à Olenska. No entanto, ao contrário do trágico final do romance de Tolstói, o final dos personagens de Wharton é bem diferente: aceitam seu destino e, de certa forma, percebem que nem sempre o final sonhado é o final possível. 

Na verdade, todos eles viviam numa espécie de mundo hieroglífico, em que a realidade nunca era mencionada, vivida ou sequer pensada, mas apenas representada por um conjunto de signos arbitrários.

Confesso que, mesmo com sua tamanha importância para a literatura norte-americana, a segunda parte do livro foi difícil de terminar. Muitas e muitas páginas de dramas cansativos, até mesmo entediantes. A minúcia da autora nas descrições é invejável, mas o livro em si é um pouco arrastado. É importante conhecer o contexto da obra, o momento histórico e até a biografia da romancista para tirar proveito, mas, a meu ver, não foi uma leitura das mais prazerosas.

NOTA:

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