Resenhas  |  06.07.2020

Resenha: O Corcunda de Notre-Dame – Victor Hugo

Resenha: O Corcunda de Notre-Dame - Victor Hugo

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Se você é fã da Disney, provavelmente já assistiu à animação O Corcunda de Notre-Dame. Mas a história de Esmeralda, Phoebus, Frollo e Quasímodo é inspirada no livro homônimo de Victor Hugo. Sempre li muitas críticas positivas das obras do autor francês — principalmente de Os Miseráveis — mas nunca tinha lido. Confesso que iniciar esse livro foi BEM difícil. Comecei e abandonei umas quatro vezes até engrenar. Achei o vocabulário complicado e a narrativa com muitas descrições, principalmente da catedral. Porém, com alguma persistência, consegui acompanhar o ritmo e gostar da leitura.

Antes de tudo, vamos à sinopse:

“Adaptado inúmeras vezes para as telas e os palcos, este drama medieval de Victor Hugo conta a história da bela Esmeralda, uma cigana adorada por três homens: o arquidiácono Frollo, o corcunda Quasímodo e o capitão Phoebus. Falsamente acusada de tentar matar Phoebus, que quase a violentou, Esmeralda é sentenciada à morte, e salva da forca por Quasímodo, que a defende até o fim. Para além da questão amorosa, descortina-se uma série de tragédias que falam sobre revolução e luta social, sobre amor e perda, sobre destino e livre arbítrio, protagonizadas por personagens que vão desde o rei da França até os mendigos nos esgotos de Paris. E, no centro de tudo, a grande e onipresente Catedral de Notre-Dame.”

Eu assisti à animação recentemente, então lembrava de alguns detalhes. Embora algumas cenas sejam bastante parecidas, é claro que o livro é bem mais complexo e intenso.

O início traz o carnaval na cidade de Paris e as distrações do povo nas ruas. Inúmeros personagens são apresentados, como o arquidiácono, os mendigos, guardas, bispos, estudantes, comerciantes, poetas, políticos da França e da Áustria, os flamengos, os ciganos, os beatos… tudo o que for possível imaginar numa história que se passa no século XV. A descrição da cidade é quase uma obra arquitetônica, construída aos poucos, bem como a própria catedral de Notre-Dame. É como se Victor Hugo esculpisse cada cantinho da cidade.

É fácil perceber a genialidade do autor não somente na escrita erudita, mas pelas sátiras, piadas e críticas sociais. Tudo isso envolto num ritmo acelerado e episódico. Chegando na página 150, já havia passado do ‘Livro 1’ e do ‘Livro 2’. Nesta edição da Penguin, com mais de 600 páginas, a história é separada em várias partes, deixando muito mais fácil de acompanhar a fluidez da obra.

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Alguns detalhes já chamaram minha atenção desde o início: a violência e brutalidade de Quasímodo; a inocência e juventude de Esmeralda; a ambiguidade existente em Claude Frollo; a arrogância de Phoebus; e o personagem Gringoire, poeta falido que perpassa os lugares mais inóspitos da cidade. Ao chegar no livro 3, no entanto, Victor Hugo dispensa várias páginas para descrever nos mínimos detalhes tanto a catedral quanto a cidade de Paris, comparando as construções do século XV com as do século XIX (período em que o autor escreveu o livro).

São páginas densas, com inúmeras descrições de ruas, janelas, vitrais, colunas, rios, alamedas, casas, igrejas e tudo o que você puder imaginar. O autor explica como as construções foram criadas, quem foram seus idealizadores, os políticos que as modificaram, quais foram as principais transformações causadas pelo tempo e pelo homem.

Confesso que nesse momento dei uma desacelerada, já que o livro “quebra” ao meio para abrir espaço a um ensaio arquitetônico. Não tiro o mérito do autor, pelo contrário, aqui ele demonstra seu amplo conhecimento e forte opinião. Porém, são páginas cansativas e longas. Hoje Paris já é bem diferente, muitos edifícios nem existem mais. Sem contar a tragédia recente com a Catedral de Notre-Dame, que chocou não só os parisienses, mas o mundo todo.

Resenha: O Corcunda de Notre-Dame - Victor Hugo

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Contudo, a partir do livro 4 retornamos à história para saber como Quasímodo foi adotado e chegou aos sinos de Notre-Dame. Nos capítulos que seguem, vemos as tristezas que rondaram a vida do corcunda, que foi renegado e maltratado, chamado de monstro e criatura do inferno, passando sempre pelos olhares cruéis dos franceses. Foi odiado por todos, exceto pelo arquidiácono Claude Frollo, que o adotou, ensinou a falar, deu-lhe um trabalho e o criou sob a égide da catedral.

O Corcunda é um personagem complexo: suas afeições eram voltadas somente ao pai adotivo e aos sinos da igreja, a quem nomeava e sentia orgulho de comandar. As estátuas também lhe faziam companhia, tornando sua vida menos solitária. No entanto, os olhares de desprezo o transformaram numa pessoa triste, ressentida e odiosa. Era muito forte fisicamente, mas carregava consigo uma cólera desenfreada. Assim, muitos sentiam medo de sua figura, incluindo Esmeralda.

Esmeralda é descrita como uma jovem bela, ligeira, astuta e gentil. Porém, a ingenuidade afeta seus sentidos. Ela busca um homem que possa lhe proteger e, por isso, despreza o sentimento do poeta Gringoire e sente afeição por Phoebus, um militar. Ao mesmo tempo, morre de medo do corcunda, que já tentou raptá-la. Esmeralda é constantemente chamada de “egípcia”, de maneira pejorativa. Também é alvo de diversos homens, que acreditam que ela é uma posse a ser adquirida, tamanha sua beleza.

É profundamente irritante ver como Esmeralda é tratada. Da mesma maneira, as atitudes ingênuas da personagem dão muita raiva. Mas aí me lembro que a história se passa no século XV, e como era difícil ser mulher num período em que qualquer coisa era justificativa para “feitiçaria” e, por consequência, a morte no cadafalso.

Claude Frollo, apesar de suas boas ações do passado, com o tempo torna-se um homem difícil, de semblante duro e levemente assustador. É um adorador da alquimia – na época considerado feitiçaria – e por isso era alvo de críticas. Engraçado pensar que Frollo é uma representação de alguém interessado pela química, mas foi considerado louco por buscar respostas além dos dogmas da Igreja.

No decorrer da história, Frollo demonstra sua ambiguidade moral e torna-se um vilão — um dos mais repugnantes, por sinal. Um padre que sente desejo por uma mocinha e que fará de tudo para acabar com a vida dela. Afinal, acredita que ela é sua posse, e ninguém mais deveria compartilhar seus afetos com a “egípcia”.

Outro personagem de dar asco é o próprio Phoebus, paixão de Esmeralda. Claramente o gendarme só a considerava uma jovem qualquer, sentia atração sexual e mentia deliberadamente para conquistá-la. No entanto, faz juras de amor e convence-a de que está perdidamente apaixonado. Ela então acredita que Phoebus é o amor de sua vida e se entrega a ele. O desenrolar dessa história é recheado de estupidez, tragédia e mentiras. Porém, a partir desse momento, o livro conduz o leitor para o final da narrativa, deixando de lado as inúmeras descrições de Paris.

Ler O Corcunda de Notre-Dame foi uma experiência bem diferente, porque o autor sempre faz pausas para dialogar com o leitor. Em determinado capítulo, ele expõe a importância da arquitetura e traça uma breve história da arte em paralelo com a criação da prensa de Gutenberg (quem estudou jornalismo como eu deve estar cansado de ver isso, hahaha). Sempre partindo dos medos dos personagens, ele traz longas reflexões sobre as transformações da sociedade medieval, em contraponto às evoluções nascidas no século XIX.

Muitas vezes percebi que O Corcunda de Notre-Dame não é apenas uma história: Victor Hugo empresta a literatura para fazer um ode à arte gótica e medieval. Utiliza os personagens e a cidade de Paris para revelar seu ponto de vista sobre as más decisões políticas e discutir questões sociais. Agora entendo por que tantos amam suas obras. Não é uma leitura fácil e, por vezes, exaustiva. Mas vale a pena como crescimento pessoal e para aprender história europeia.

NOTA:

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