Resenha

Resenha: A Mulher de Trinta Anos – Honoré de Balzac

Resenha: A Mulher de Trinta Anos - Honoré de Balzac
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

O termo “mulher balzaquiana” é muito utilizado em diversos livros sobre clássicos de literatura. E foi a partir dessa curiosidade que fui conhecer A Mulher de Trinta Anos, de Honoré de Balzac.

[Sem contar que, como estou chegando perto dos 30 anos, a curiosidade atiçou ainda mais! Haha! ]

A história de Julie veio antes de famosas personagens como Emma Bovary e Anna Kariênina, tornando-se referência quando o assunto envolve protagonistas mulheres infelizes no casamento em pleno século XIX. Não que a infelicidade no casamento não seja um tópico recente, infelizmente, mas naquela época era comparado a uma escravidão/prisão, sem que as mulheres tivessem escolha de separar ou ter uma vida de liberdade.

A sinopse do livro é a seguinte: “Contrariando os conselhos do pai, Julie julga-se apaixonada e decide se casar ainda muito jovem com um coronel do exército napoleônico. Em pouquíssimo tempo, descobre-se infeliz no casamento e na maternidade. A isso se seguem as paixões por outros homens, e anuncia-se o destino trágico da protagonista. Mas A mulher de trinta anos não é a história particular de Julie, e sim a de alguém em quem convergem as contradições do que representava ser mulher no século XIX e, por extensão, as contradições da própria sociedade moderna.”

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O livro começa mostrando uma Julie ingênua, infantil, apaixonada pela aparências. Esse início é uma parte bem rápida, e logo já conhecemos a protagonista casada e infeliz. Sua filha, Hèlene, é sua única esperança, já que sua vida não seria nada como ela imaginava – apesar de seu pai ter lhe aconselhado que seria uma má ideia casar com o general.

Durante a leitura, vemos Julie passar seus dias melancólicos trancafiados dentro de casa, sem a mínima vontade de viver. A depressão é bem forte na personagem, que sente o prazer pela vida se esvair, até encontrar um homem por quem se apaixona perdidamente.

“As moças costumam criar nobres, encantadoras imagens, figuras totalmente ideais, e forjam ideias quiméricas sobre os homens, sobre os sentimentos, sobre o mundo; depois atribuem inocentemente a um caráter as perfeições com que sonharam e a ele se entregam; amam no homem de sua escolha essa criatura imaginária; porém, mais tarde, quando já não há tempo de se livrar da desgraça, a aparência enganadora que embelezaram, o primeiro ídolo enfim transforma-se num esqueleto odioso.”

Não vou contar toda a história para não perder a graça, mas durante a narrativa, Julie se apaixona mais de uma vez (mantém casos extraconjugais), nutre esperanças e sofre grandes tragédias. No entanto, o casamento e a maternidade a sufocam a cada dia, fazendo-a resignar-se de sua condição. Ela se entrega à tristeza e até mesmo seus filhos a tornam uma mulher amarga e sem esperança. Seu marido também é infiel e não faz a menor questão de manter um casamento feliz.

Resenha: A Mulher de Trinta Anos - Honoré de Balzac
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

“Embora se sentisse jovem, a massa de seus dias sem alegrias lhe caía na alma, a esmagava e a fazia velha antes do tempo. Perguntava ao mundo, por um grito de desespero, o que ele lhe dava em troca do amor que a ajudara a viver e que ela perdera.”

A passagem do tempo é importante na trama, que desenvolve-se lentamente em alguns pontos, mas de repente avança pelo menos uns dez anos de uma só vez. A Mulher de Trinta Anos é então chamada de Juliette, uma mudança feita pelo autor para que a reconhecêssemos como uma mulher mudada, mais madura, menos sedutora, mas eloquente e perspicaz. Julie ficou no passado, Juliette é uma nova mulher – porém com os mesmos assombros do passado.

“Somos nós, mulheres, mais maltratadas pela civilização do que seríamos pela natureza.”

O livro traz algumas reviravoltas bem estranhas mais para o final. Sabe quando muda o tom? De repente até o narrador se transforma, paramos de acompanhar a história de Juliette e de repente seguimos sua filha e o general, seu marido. A relação entre os dois é bem íntima, mas também segue um rumo inusitado.

A relação de Julie com Hèlene é terrível; quando bebê, esta era a única esperança da protagonista. Na vida adulta, as duas carregam um mal-estar proveniente de um acidente do passado, transformando-as e fazendo com que elas se afastem, criando rivalidades e desavenças.

“Será que a família existe, senhor? Nego a família numa sociedade que, na morte do pai ou da mãe, divide os bens e diz a cada um para ir cuidar da vida. A família é uma associação temporária e fortuita que a morte dissolve prontamente. Nossas leis destruíram as casas, as heranças, a perenidade dos exemplos e das tradições. Só vejo escombros ao meu redor.”

Mas não temos somente Hèlene na história; com o passar dos anos, Juliette tem mais cinco filhos, mas se apega a apenas uma, a mais jovem. A partir de então temos a mulher de 50 anos, que vive reclusa e não faz a menor questão de interagir na sociedade, virando alvo de fofocas.

Inclusive, Balzac não cansa de criticar a sociedade francesa, especialmente a parisiense. O autor insere comentários ácidos o tempo todo durante a narrativa, mostrando a mesquinhez e ignorância da alta sociedade da época.

“Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo dessa presença eloquente?”

A Mulher de Trinta Anos, na verdade, não é a história particular de Julie, mas sim uma representação da mulher do século XIX, na qual convergem os movimentos, conflitos e contradições de um modelo social em transformação. Balzac rompe paradigmas ao mostrar o mundo vazio de aparências em que vivia a maior parte da sociedade europeia, especialmente as mulheres que eram aprisionadas em casamentos arranjados.

“Lágrimas de desespero rolavam de seus olhos; pois sentimos mais tristeza com uma traição que frustra um resultado decorrente de nosso talento do que com uma morte iminente.”

O termo “mulher balzaquiana” é muito utilizado hoje, mas de forma distorcida; Julie d’Aiglemont viveu uma vida vazia, frágil, covarde e amarga. Ou seja: utilizar esse termo para qualquer mulher que completa trinta anos não faz muito sentido, sendo que nos dias de hoje as mulheres têm muito mais opções do que uma vida de correntes e grilhões nos relacionamentos.

“O céu e o inferno são dois grandes poemas que formulam os dois únicos pontos em torno dos quais gira nossa existência: a alegria ou a dor.”

Apesar de ser uma obra com personagens confusos e contraditórios, uma narrativa lenta e por vezes cansativa, vale a leitura, principalmente por ser um livro que trouxe referências para obras incríveis da literatura mundial.

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Resenha: A Mulher de Trinta Anos - Honoré de BalzacTítulo original: La Femme de Trente Ans
Autor: Honoré de Balzac
EditoraPenguin – Companhia das Letras
Número de páginas: 240
Ano: 2015
Gênero: Literatura Estrangeira
Nota

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Publicado por Isabela Zamboni

Isabela Zamboni Moschin é jornalista, especialista em Língua Portuguesa e Literatura e mestre em Mídia e Tecnologia. Adora café, livros, séries e filmes.

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