Resenha: Matadouro-Cinco – Kurt Vonnegut

Os livros de Kurt Vonnegut sempre foram muito elogiados e eu só encontrava críticas positivas a respeito do autor. Foi então que fiquei curiosa para ler Matadouro-Cinco, de 1969, obra de grande contribuição para a literatura norte-americana da época. Os toques de ironia, criticismo e relato cru com toques de fantasia e ficção científica para descrever os horrores da Segunda Guerra Mundial são avassaladores. Veja a sinopse:

Assim como Billy Pilgrim, o protagonista de Matadouro-Cinco, Vonnegut testemunhou como prisioneiro de guerra, em 1945, a morte de milhares de civis, a maior parte deles por queimaduras e asfixia, no bombardeio que destruiu a cidade alemã.

Billy tinha sido capturado e destacado para fazer suplementos vitamínicos em um depósito de carnes subterrâneo, onde os prisioneiros se refugiaram do ataque dos Aliados. Salvo pelo trabalho, depois de ter visto toda sorte de mortes e crueldades arbitrárias e absurdas, Billy volta à vida de consumo norte-americana e relata sua pacata biografia, intercalando sua trajetória aparentemente comum com episódios fantásticos de viagens no tempo e no espaço.

Achei bem interessante o tom de ironia e “secura” do livro, digamos assim. De maneira muito ríspida e apática, lemos a história de Billy Pilgrim, um homem que sofre demais na guerra e quase nunca é levado a sério. Depois de passar pelo terror do ataque à Dresden, na Alemanha, Billy retorna aos Estados Unidos devastado, passa um bom tempo internado em uma clínica até conseguir voltar a uma vida supostamente normal.

Após alguns anos, Pilgrim consegue um emprego de optometrista, ganha bastante dinheiro e torna-se pai de dois filhos. O típico norte-americano que prosperou. No entanto, ele afirma e faz questão de dizer a todos que foi sequestrado pelos Trafalmadorianos em 1967 e exposto em um zoológico. As criaturas eram uma espécie de outro planeta que afirmavam que o tempo é uma coisa só: o passado, presente e o futuro coexistem.

“[…] eles tinham 60 centímetros de altura, cor verde, e formato parecido com um desentupidor. As ventosas ficavam no chão, e os cabos, que eram muito flexíveis, em geral apontavam para o céu. No topo de cada um dos cabos havia uma mãozinha com um olho verde na palma. As criaturas eram amistosas e conseguiam enxergar em quatro dimensões. Tinham pena de nós por só conseguirmos enxerga em três. Tinham muitas coisas maravilhosas a ensinar aos terráqueos, especialmente sobre o tempo.” (p.46)

Vonnegut mistura ficção científica, drama de guerra e humor em uma história comovente, divertida e cruel. As viagens no tempo de Billy, a linha temporal distorcida, os delírios do protagonista e as milhares de mortes na guerra tornam a narrativa excêntrica e importante. 

No prefácio da edição da Intrínseca, o autor e tradutor Antônio Xerxenesky ressalta a importância da obra: “E foi com Matadouro-Cinco, seu sexto romance, publicado em 1969, que Vonnegut tornou-se popular e um sucesso de crítica. Através dele, apresentou um retrato da guerra que atingiu um ponto nevrálgico da cultura norte-americana. Os Estados Unidos, na década de 1960, estavam envolvidos num conflito bélico violento e absurdo (como todos são, Vonnegut diria) no Vietnã, que foi um período frutífero para a literatura experimental” (p.10).

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Outro ponto que merece destaque é a quantidade de vezes em que a frase “É assim mesmo” aparece no livro. Como se estivesse resignado e cansado, Billy Pilgrim demonstra sua apatia sempre com a absurda frase “É assim mesmo”.

[…] ‘Agora, quando fico sabendo que alguém morreu, dou de ombros e digo a mesma coisa que os trafalmadorianos dizem sobre os mortos, que é o seguinte: “É assim mesmo”.’ (p.47)

Resenha: Matadouro-Cinco - Kurt Vonnegut
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

A guerra é assim mesmo. Uma gigante e absurda ironia. Vonnegut não cansa de mostrar esses tempos sombrios, a começar pelo fato de que a maioria dos soldados eram jovens demais para estar ali. A cada página sofremos e rimos ao mesmo tempo, encaramos esses conflitos bélicos com sob uma nova perspectiva. Vonnegut, com maestria, consegue expor um sentimento caótico, aleatório e desumano, sem perder o ritmo e a fluidez das palavras. 

Matadouro-Cinco é uma ótima leitura, uma obra que merece reconhecimento e elogios, tanto pela sua característica inovadora quanto pela mensagem essencial que propaga.

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NOTA: 

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