Resenhas  |  10.01.2024

Resenha: Os Vestígios do Dia – Kazuo Ishiguro

Eu já tinha ouvido falar muito bem do filme Os Vestígios do Dia (1993), com o Anthony Hopkins e a Emma Thompson, apesar de não ter assistido. Recentemente vi que ele entrou no catálogo da Netflix, mas logo no início do longa, quando passavam os créditos, dizia que era uma adaptação do livro homônimo de Kazuo Ishiguro.

Na hora cancelei o vídeo e resolvi ler o livro primeiro. Afinal, gostei muito de Não me Abandone Jamais, do Ishiguro, sem contar que ele também é vencedor do Nobel de Literatura.

Posso afirmar que foi uma boa surpresa, pois não imaginava uma leitura tão envolvente, apesar de a narrativa não contemplar tantos acontecimentos. O grande trunfo aqui, a meu ver, é o narrador, o querido Mr. Stevens, um mordomo inglês altamente dedicado que relembra suas memórias e experiências enquanto faz uma breve viagem de carro durante as férias.

Resenha: Os Vestígios do Dia - Kazuo Ishiguro
Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

O livro se passa na década de 1950, mais especificamente no verão de 1956, e traz uma reflexão sobre a vida, o amor reprimido e as escolhas que moldam nosso destino.

No livro, Stevens parte em uma viagem de carro para visitar a ex-colega e governanta Miss Kenton, com quem ele compartilhou uma relação especial enquanto trabalhava em Darlington Hall, uma propriedade luxuosa e bastante respeitada na Inglaterra.

Por meio das reflexões de Stevens durante a viagem, somos levados a explorar sua perspectiva sobre seu papel como mordomo e sua dedicação inabalável ao seu dever.

Enquanto viaja, Stevens relembra momentos marcantes de sua vida em Darlington Hall, incluindo o papel crucial da casa durante a 2ª Guerra Mundial e os eventos que moldaram as decisões do proprietário, Lord Darlington, que já falecera há alguns anos. É uma espécie de desabafo de Stevens, como se lêssemos um diário de viagem, mas com passagens bem pessoais.

Nas lembranças do mordomo, um perfeito gentleman inglês, o livro explora temas como arrependimento e passagem do tempo. À medida que a viagem prossegue, Stevens confronta suas próprias escolhas e os sentimentos que manteve escondidos por muitos anos.

Durante a leitura, eu não conseguia deixar de me impressionar com as reflexões do mordomo, que era extremamente dedicado, metódico, polido e vivia em prol do trabalho. Stevens buscava a perfeição, realizava seu ofício com maestria, não se permitia errar. Por conta dessa sua devoção à Darlington Hall, porém, ele percebe, aos poucos, tudo o que deixou para trás e como os acontecimentos da casa influenciaram toda a sua trajetória particular.

Para comprar o livro, é só clicar no link abaixo:

Os Vestígios do Dia é uma reflexão melancólica sobre a vida e as oportunidades perdidas, explorando a complexidade das relações humanas e as camadas profundas da identidade pessoal. Além disso, no centro da narrativa, está o relacionamento não declarado, cheio de tensão, entre Stevens e Miss Kenton, destacando a fragilidade das emoções humanas reprimidas pela rigidez das convenções sociais.

Ambos se gostavam, mas estavam sempre escondidos atrás dos “deveres” da profissão. Não conseguiam admitir que se amavam ou que desejavam ser mais próximos, pelo contrário: se tratavam com grande distanciamento.

Até o final do livro, quando Stevens finalmente reencontra Miss Kenton, torcemos pelo casal e para que eles consigam viver o que nunca conseguiram assumir no passado. Esse momento em que ambos relembram os bons momentos e colocam a conversa em dia é uma das melhores partes da narrativa.

Por fim, Os Vestígios do Dia é uma obra rica em detalhes e evoca emoções diversas. Acompanhar o relato do narrador mordomo é um deleite, nunca havia lido um livro com um personagem tão educado e, ao mesmo tempo, reprimido.

Kazuo Ishiguro entrega uma excelente narrativa, que captura a voz distinta de um homem que busca reconciliar seu passado e entender o significado de sua vida dedicada ao serviço. Vale a pena!

NOTA

banner classicos
Anterior
Compartilhe
0 Comentários “Resenha: Os Vestígios do Dia – Kazuo Ishiguro”
[fbcomments]