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As melhores frases de ‘A Mecânica do Coração’, de Mathias Malzieu

Fiz tantas marcações incríveis na obra de Mathias Malzieu que resolvi dedicar um post só aos trechos destacados. Confira as melhores frases de A Mecânica do Coração:

Resenha: A Mecânica do Coração - Mathias Malzieu

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

As melhores frases de ‘A Mecânica do Coração’

– Seu coração não passa de uma prótese, é mais frágil que um coração normal e será sempre assim. As emoções não são tão bem filtradas pelos mecanismos do relógio quando seriam pelas tecidos. Você realmente precisa ser muito cauteloso. O que aconteceu na cidade quando você viu aquela pequena cantora confirma o que eu temia: o amor é perigosíssimo para você. p. 31.

Em primeiro lugar, não toque nos seus ponteiros. Em segundo lugar, controle sua raiva. Em terceiro, nunca, mas nunquinha mesmo, se apaixone. Pois, nesse caso, o grande ponteiro das horas transpassará para sempre pele no relógio de seu coração, seus ossos implodirão, e a mecânica do coração voltará a emperrar. p. 34.

Eu me apaixono imperceptivelmente. Perceptivelmente também. No bojo do meu relógio, é o dia mais quente do mundo. p. 31.

– Justamente, o medo de se machucar só aumenta as chances de você se machucar. p. 70.

Você sabia dos riscos de entregar as chaves do seu coração a uma faísca, garoto!

– Quero que você me enxerte um coração novo e ponha o contador a zero. Nunca mais quero me apaixonar na vida. p. 159.

Compreendo melhor por que a doutora fazia tanta questão de adiar meu confronto com o mundo exterior. Antes de conhecer o gosto, a gente não pede morangos com açúcar todo dia. p. 33.

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– Será que posso voltar o curso do tempo invertendo o sentido dos meus ponteiros?

– Não, vai forçar suas engrenagens e sentir uma dor do capeta. Mas nada é capaz disso. É impossível retroceder no tempo até os nossos atos passados, mesmo com um relógio no coração. p. 54.

– Justamente, o medo de se machucar só aumenta as chances de você se machucar. p. 70.

– Mostre-lhe seu verdadeiro coração, lembre-se do que eu lhe disse, é o único truque de mágica possível. Se ela vir seu coração verdadeiro, seu relógio não irá assustá-la, acredite em mim! p. 97.

Respondo-lhe que a mecânica do coração não pode funcionar sem emoções, mas não me aventuro adiante nesse terreno movediço. p. 103.

Em poucos meses, nosso amor cresceu sem parar. Já não lhe basta nutrir-se exclusivamente nos seios da noite. Mandem sol e vento, precisamos de cálcio para os ossos de nossas fundações. Quero tirar a máscara de morcego romântico. Quero amor à luz do dia. p. 109.

Nunca pensei que fosse tão complicado conservar ao nosso lado a pessoa com que a gente ama com todas as forças. Ela se doa sem pestanejar, jamais é mesquinha. Me doo também, mas ela recebe menos. Talvez porque eu não doe direito. Mas não é por isso que vou desembarcar do mais mágico trem da minha vida, aquele com a locomotiva que cospe pétalas de narcisos em fogo. Hoje à noite vou lhe explicar que estou disposto a mudar tudo, a aceitar tudo, contanto que ela me ame. E tudo recomeçará como antes. p. 147

Que idiotice cor-de-rosa, o amor! Bem que Madeleine tinha me avisado, mas eu só quis saber do meu coração. p. 157

Você sabia dos riscos de entregar as chaves do seu coração a uma faísca, garoto!

– Quero que você me enxerte um coração novo e ponha o contador a zero. Nunca mais quero me apaixonar na vida. p. 159.

Hoje estou crescido, mas razoável também; Mas desse jeito não ouso mais arriscar o verdadeiro grande salto para aquela que sempre me dará a impressão de ter 10 anos. É irrefutável: meu velho coração, mesmo cheio de galos e fora do meu corpo, me faz sonhar mais do que o novo. p. 178

Confira a resenha de A Mecânica do Coração!


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Escrito por:

Melissa Marques


Resenha: A Mecânica do Coração – Mathias Malzieu

Um dos casos em que assisti o filme primeiro e depois li o livro. Na verdade, fiquei SUPERFELIZ quando “descobri” que Jack e a Mecânica do Coração era baseado em um livro. E foi difícil de encontrar: não tinha disponível em lugar NENHUM, haha! Mas a espera valeu demais!

Resenha: A Mecânica do Coração - Mathias Malzieu

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

Logo nas primeiras páginas, o livro me ganhou! A ambientação que Mathias faz de Edimburgo, na Escócia, é uma das melhores que já li na vida. E não por ser muito detalhista, mas por ser superpoética! Maravilhosa mesmo.

Aliás, o livro inteiro tem uma pegada lírica e encantadora. A escrita de Mathias me surpreendeu muito positivamente. Segundo o jornal britânico The Guardian, “a prosa gótica-punk de Malzieu se destaca… repleta de metáforas impressionantes”.

E é verdade: em diversas passagens do livro, o autor utiliza essa figura de linguagem para nos fazer refletir:

– Seu coração não passa de uma prótese, é mais frágil que um coração normal e será sempre assim. As emoções não são tão bem filtradas pelos mecanismos do relógio quando seriam pelas tecidos. Você realmente precisa ser muito cauteloso. O que aconteceu na cidade quando você viu aquela pequena cantora confirma o que eu temia: o amor é perigosíssimo para você. (p. 31)

A Mecânica do Coração conta a história de Jack, um garoto que nasceu “na noite mais fria do mundo”. Como a mãe biológica não pode criá-lo, o bebê acabou ficando sob os cuidados da parteira, Madelaine.

Em seus primeiros momentos de vida, graças ao frio, o coração de Jack para e tem que ser substituído às pressas por um relógio. Pela fragilidade do objeto, Jack fica proibido de sentir qualquer tipo de emoção forte, seja raiva, amor, alegria, frustração, medo etc.

Em primeiro lugar, não toque nos seus ponteiros. Em segundo lugar, controle sua raiva. Em terceiro, nunca, mas nunquinha mesmo, se apaixone. Pois, nesse caso, o grande ponteiro das horas transpassará para sempre pele no relógio de seu coração, seus ossos implodirão, e a mecânica do coração voltará a emperrar. (p. 34)

Os anos passam e tudo corre bem, até que Jack conhece a cantora e dançarina Miss Acácia. É a partir daí que o garoto conhece a emoção mais quente do mundo: “Eu me apaixono imperceptivelmente. Perceptivelmente também. No bojo do meu relógio, é o dia mais quente do mundo.” (p. 31).

Resenha: A Mecânica do Coração - Mathias Malzieu

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

A partir daí, a trama ganha ares de aventura, ao mesmo tempo que se torna cada vez mais sombria. Os encontros e desencontros da vida fazem com que a mecânica do coração de Jack seja testada a cada página. Em diversos momentos, é possível se identificar com o personagem principal, afinal, quem nunca tentou proteger o próprio coração para evitar qualquer tipo de dor e tristeza?

– Justamente, o medo de se machucar só aumenta as chances de você se machucar. (p. 70)

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Como acompanhamos a vida de Jack durante os anos de sua puberdade, muitas vezes, acabamos percebendo certos traços na personalidade do garoto que acabam surgindo ou desaparecendo, fazendo com que em poucas páginas, o leitor tenha compaixão por ele para, pouco depois, passar a odiá-lo.

– Será que posso voltar o curso do tempo invertendo o sentido dos meus ponteiros?

– Não, vai forçar suas engrenagens e sentir uma dor do capeta. Mas nada é capaz disso. É impossível retroceder no tempo até os nossos atos passados, mesmo com um relógio no coração. (p. 54)

Apesar de parecer, A Mecânica do Coração não é um livro infantil. Ele é cheio de meandros, metáforas, reflexões sobre vida e amor, além de ser cheio de lascívia.

Resenha: A Mecânica do Coração - Mathias Malzieu

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

Você sabia dos riscos de entregar as chaves do seu coração a uma faísca, garoto!

– Quero que você me enxerte um coração novo e ponha o contador a zero. Nunca mais quero me apaixonar na vida. (p. 159)

No final das contas, nosso coração não é assim tão diferente do coração-de-relógio de Jack. “Respondo-lhe que a mecânica do coração não pode funcionar sem emoções, mas não me aventuro adiante nesse terreno movediço” (p. 103). Um livro surpreendente, de linguagem fácil e fortes emoções.

Confira o trailer da animação:

LEIA TAMBÉM

Resenha: A Mecânica do Coração - Mathias Malzieu Título original: La Mécanique du coeur
Autora: Mathias Malzieu
Editora: Record
Número de páginas: 192
Ano: 2011
Gênero: Romance
Nota: 


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Melissa Marques


Resenha: A Máquina do Tempo – H.G. Wells

Histórias sobre viagem no tempo geralmente são legais e, se foram escritas por H.G. Wells, são melhores ainda! Depois de ler o incrível O Homem Invisível, gostei bastante do estilo do autor e peguei para ler o e-book de A Máquina do Tempo, romance publicado pela primeira vez em 1895.

Resenha: A Máquina do Tempo - H.G. Wells

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Esse livro foi praticamente o precursor de histórias sobre viagens no tempo. A trama é sobre o “Viajante do Tempo”, personagem sem nome, um cientista que inventa a Máquina do Tempo e viaja até ao ano 802.700, onde encontra tudo muito diferente. O personagem – que vivia no final da época vitoriana – narra a quatro amigos durante um jantar como foi esse passeio no futuro e relata o que ele encontrou.

O Viajante vai parar em uma época em que as criaturas que lá viviam pareciam viver de forma harmoniosa, bem diferente dos homens da Londres do século XIX. Ao chegar nesse local belo, que cresceu sobre ruínas, o protagonista pensa poder estudar estes magníficos seres, desvendar-lhes os segredos e regressar ao seu tempo em seguida. Até descobrir que a sua invenção, o seu passaporte para a fuga, tinha sido roubada. É a partir daí que se iniciam os conflitos, já que o personagem precisará enfrentar alguns desafios para encontrar a máquina desaparecida.

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É bem interessante conhecer a perspectiva de um homem do século XIX a respeito do futuro. H.G. Wells imaginou uma distopia interessante, sem apelar para tecnologia em excesso ou para elementos futuristas. Na verdade, sua visão a respeito do futuro é um pouco mais trágica: não existem mais seres humanos, mas criaturas que descendem destes e vivem em um local aparentemente tranquilo, mas que esconde uma selvageria.

O livro mistura um pouco de política, ciência, filosofia e aventura: ou seja, é um prato cheio! Além de atiçar a curiosidade a respeito do que o Viajante do Tempo vai encontrar, também é possível refletir a respeito de várias questões: como seria uma sociedade no futuro? Será que um dia vamos encontrar a harmonia para viver em comunidade? Como estaria a Terra, em questões ambientais? Será que a inteligência do homem vai levá-lo até onde? A tecnologia vai tomar conta de tudo ou conduzirá a humanidade ao colapso?

O agente especial Dale Cooper recomenda esse livro! FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

A parte da aventura também é bem divertida: em determinados momentos da história, o Viajante passa por perigos e situações de medo muito intensas. A partir disso, ele precisa encontrar soluções para se proteger e achar uma maneira de encontrar a Máquina do Tempo.

O livro é bem curtinho, tem apenas 99 páginas, então a leitura é rápida! Lembrando que esse livro é BEM DIFERENTE das adaptações para o cinema. O filme de 2002, por exemplo, dá uma bela mudada na história. Não existe uma narrativa de romance com nenhuma mulher no livro de H.G Wells, nem homens de cabelo branco que vivem embaixo da terra. Existe também a adaptação de 1961, que parece ser um pouco mais parecida, mas ainda assim traz mudanças significativas e, como sempre em Hollywood, recai no relacionamento amoroso entre o protagonista e uma mulher.

Porém, se você procura um ótimo livro sobre viagem no tempo, já encontrou! Boa leitura 🙂

LEIA TAMBÉM

Resenha: A Máquina do Tempo - H.G. WellsTítulo original: The Time Machine
Autor:  H. G. Wells
Editora: Livraria Francisco Alves
Número de páginas: 99
Ano: 1981
Gênero: Ficção científica/Literatura estrangeira
Nota: 


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Isabela Zamboni


Resenha: O Som e a Fúria – William Faulkner

Vou começar essa resenha com uma frase bem simples, mas que resume O Som e a Fúria: que livro DIFÍCIL! Acho que nem Macbeth ou Otelo foram tão complicados quanto esse clássico da literatura norte-americana. O livro, escrito em 1929, é considerado a obra mais importante do escritor norte-americano William Faulkner, que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1949.

Mas não é porque é difícil, que é ruim – muito pelo contrário! Se você gosta de literatura clássica e principalmente leituras desafiadoras, O Som e a Fúria é um prato cheio. Segundo o prefácio dessa nova edição da Companhia das Letras, o romance surgiu em um período de isolamento, depois que o autor teve seu terceiro romance recusado por diversas editoras. Depois de ficar bastante abalado, William Faulkner investiu num estilo ousado, tecido por vozes narrativas distintas e saltos inesperados no tempo. Essa edição também conta com tradução de Paulo Henriques Britto e uma análise crítica de Jean-Paul Sartre publicada em 1939.

Resenha: O Som e a Fúria - William Faulkner

O livro tem essa capinha transparente que é um luxo! FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Quando comecei a ler as primeiras páginas, já fiquei baqueada. Sabia que o autor usava a técnica do fluxo de consciência – bastante usada por Virginia Woolf e uma clara referência ao Ulysses, de Joyce – mas nada desse nível. Porém, fiquem tranquilos! O choque inicial logo passa e, após algum tempo de leitura, é possível entender e apreciar o estilo de Faulkner. Inclusive, é genial.

Mas, afinal, do que se trata O Som e a Fúria? É a história da violenta decadência dos Compson, família aristocrática do sul dos Estados Unidos. Como a trama se desenrola no final da década de 20, vemos muitos ecos do preconceito racial e da xenofobia. Os EUA passavam por um forte momento de crise econômica, então é possível conferir na obra de Faulkner também muita pobreza e um país devastado.

Conferimos a história por quatro vozes narrativas diferentes: a primeira, pelo olhar de Benjamin, um dos filhos dos Compson, homem que “nasceu bobo”, com um certo tipo de deficiência mental. Ou seja: muitas passagens sem nexo, passado misturado ao presente, além de fortes sensações que integram um cérebro atribulado e confuso. Por isso o baque da leitura: como escrever uma narrativa pela perspectiva de uma pessoa deficiente? É um grande desafio, tanto para o autor quanto para o leitor.

A segunda voz narrativa é do melancólico Quentin, mais um dos filhos da família Compson. Confesso que essa foi a parte mais complicada do livro, que deu muita vontade de abandonar. Porém, é justamente a parte mais densa, sendo necessário reler várias vezes. Quentin, enquanto jovem adulto, foi estudar em Harvard, após seus pais terem vendido parte de sua propriedade para ajudar a pagar pelos estudos do filho. No entanto, enquanto acompanhamos um dia na vida de Quentin, também somos apresentados com frequência ao uso do fluxo de consciência: enquanto ele caminha pela cidade, lembra-se de momentos do passado, ao mesmo tempo em que sua mente vagueia por descrições e recordações de sua infância, especialmente de sua irmã Caddie, por quem nutria um amor fervoroso e praticamente incestuoso. Em vários momentos Faulkner não usa pontuação e faz uso de um recurso estilístico muito refinado, porém que exige perseverança por parte de quem lê.

Resenha: O Som e a Fúria - William Faulkner

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

A terceira parte é uma das mais revoltantes: o ponto de vista de Jason, o filho mais novo que ficou para trás, morando com a mãe, D. Caroline, e os criados negros, Dilsey, T.P., Luster e Frony. Inclusive, Jason é considerado um dos maiores vilões da literatura norte-americana até hoje. Um personagem que chantageia a própria irmã e rouba o dinheiro que esta encaminha para a filha; um homem racista, misógino e preconceituoso até o último fio de cabelo; uma pessoa agressiva, revoltada e que acredita que foi injustiçado pela família. Aqui a narrativa torna-se bem mais fácil, simples e tranquila de engatar. No entanto, prepare-se para passar raiva, ódio e detestar cada palavra dita por esse personagem horrendo.

Por fim, enquanto eu esperava que a última voz narrativa fosse a de Caddie, a filha mulher dos Compson, pelo contrário: a narração é em terceira pessoa e a personagem no foco é Dilsey, a criada que é praticamente a matriarca da casa e sempre trabalhou naquele lar tomado pelas tragédias. Inclusive, é nesse momento que o tradutor Paulo Henriques Britto faz observações importantes a respeito das falas dos negros e dos brancos em relação à tradução para o português (vale muito a pena conferir!).

As duas personagens mais intrigantes são Caddie e sua filha Quentin (nome que ganhou em homenagem ao tio, irmão de Caddie, para deixar a leitura ainda mais confusa). Em nenhum momento conferimos o ponto de vista das duas, só as conhecemos a partir do que os outros personagens dizem ou lembram a respeito delas. E achei muito bom o final das duas, que é mostrado no apêndice nessa edição da Companhia das Letras. Sinto que somente essas duas eram mulheres à frente de seu tempo e que também passaram por muitas provações naquela família.

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Como já mencionei, o livro contém uma análise de Sartre ao final, que faz uma reflexão impressionante sobre a questão da temporalidade na obra de Faulkner. O mais interessante é como o filósofo traz à tona que a literatura de Faulkner deixa as personagens presas ao presente e ao passado, como se o futuro não existisse. Durante toda a leitura, é como se lêssemos sempre algo que já se passou, mesmo que se passe no presente. Os tempos se mesclam, fundem-se e quebram-se na narrativa de O Som e a Fúria. A passagem em que Quentin fala sobre o relógio de seu avô é uma delas:

“Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o uso para lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.” (p.79)

A frase abaixo também sintetiza bastante toda a narrativa do livro, como podemos perceber em diversas passagens:

“O pai disse que o homem é o somatório de suas desgraças. A gente fica achando que um dia as desgraças se cansam, mas aí o tempo é que é a sua desgraça disse o pai. Uma gaivota presa num fio invisível o espaço cruzou. Você leva o símbolo da sua frustração para a eternidade. Então as asas são maiores disse o pai só quem sabe tocar harpa.” (p.108)

Outra observação interessante é que, ao mesmo tempo em que a escrita de Faulkner é riquíssima em detalhes, parece não condizer com o restante da história, que oferece tantas substâncias melodramáticas e folhetinescas. O livro é dividido em partes tão diferentes uma das outras, que parecem outros autores dentro de uma mesma obra.

Encerro essa resenha com uma citação de Macbeth, do Shakespeare, relacionada com O Som e a Fúria, que me fez ficar olhando para o teto e ~ refletindo~ sobre esse livro incrível que acabei de ler:

O homem passa a vida lutando contra o tempo e o tempo o corrói como um ácido, arranca-o de si mesmo e o impede de realizar o humano. Tudo é absurdo: “A vida […] é uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada”.

LEIA TAMBÉM

Resenha: O Som e a Fúria - William FaulknerTítulo original: The Sound and the Fury
Autor:  William Faulkner
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 376
Ano: 2017
Gênero: Literatura estrangeira
Nota:


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Isabela Zamboni


Resenha: Primeiro Amor – Ivan Turguêniev

Você se lembra do seu primeiro amor? Tem recordações de como foi se apaixonar pela primeira vez? Pois essa é a narrativa de Primeiro Amor, obra do autor russo Ivan Turguêniev. O livro, com apenas 112 páginas, é uma novela que conta a história do jovem Vladímir Petróvitch, filho único de uma família tradicional, que se encanta pela princesinha Zinaida, filha de sua vizinha, por quem se apaixonará de forma avassaladora.

Resenha: Primeiro Amor - Ivan Turguêniev

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Admirado por Henry James e Gustave Flaubert, Ivan Turguêniev foi o primeiro autor russo a ser traduzido na Europa, reconhecido, ainda em vida, como um dos grandes escritores de sua época. E não é para menos: a narrativa de Primeiro Amor encanta e seduz o leitor, com uma história recheada de melancolia, paixão intensa e recordações de uma infância ingênua e atribulada.

Vladímir é um garoto de 16 anos que se apaixona por Zinaida, de 21. O pai do garoto era um homem educado, frio e imponente; sua mãe, uma mulher frustrada que vivia nervosa e descontando suas raivas em Vladímir. Ao se mudarem para uma casa de veraneio nos arredores de Moscou, o adolescente conhece então a belíssima Zinaida, uma moça encantadora, porém impetuosa e cheia de ambição.

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Zinaida mora com a sua mãe, uma princesa falida, em uma casa suja, bagunçada e desprezível aos olhos da mãe de Vladímir. No entanto, o garoto aproxima-se cada vez mais dessa família misteriosa, cujos modos e estilo de vida são bem diferentes do lar aristocrático do protagonista.

A garota é descrita com perfeição, aos olhos de um jovem apaixonado e desconsolado por ela considerá-lo apenas um garoto. A descrição da jovem princesa serviu de modelo para muitas personagens semelhantes que viriam depois: Zinaida é a bela e irresistível mulher, com praticamente uma multidão de homens servis que fariam de tudo para agradá-la, assim como alguns adolescentes que não conhecem o significado da palavra inatingível.

Resenha: Primeiro Amor - Ivan Turguêniev

FOTO: Isabela Zamboni | Resenhas à la Carte

Na casa da jovem, aglomeram-se vários homens, com os quais ela adora brincar. Ela sente-se uma princesa superior, juntando vários homens a seus pés. O ingênuo Vladímir é um deles, que perde o sono, confronta a mãe e faz de tudo para agradar o seu primeiro amor, sua grande paixão.

A novela é uma obra-prima psicológica e sua autodescrição é uma das melhores características da narrativa de Turguêniev. Mas o mais interessante é a construção lenta e alegre de uma trama que despenca sobre nossa cabeça: o final não é nada feliz. Quase no fim do livro, já é possível saber qual será a escolha de Zinaida e quem ganhará seu coração. No entanto, é uma tragédia melancólica, principalmente nas últimas páginas, quando conhecemos também o Vladímir e a Zinaida de muitos anos depois.

O primeiro amor nem sempre guarda uma bela história, pode ser também recheada de drama e tristeza. E, como ninguém, o autor soube traduzir sentimentos e descrições psicológicas que tocam lá no fundo da alma. Se você gosta de pequenas histórias com descrições notáveis, Primeiro Amor é o livro ideal!

LEIA TAMBÉM

Resenha: Primeiro Amor - Ivan TurguênievTítulo original: Pervaia Liubov
Autor:  Ivan Turguêniev
Editora: Penguin Companhia
Número de páginas: 112
Ano: 2015
Gênero: Literatura estrangeira
Nota: 


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Escrito por:

Isabela Zamboni


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