Resenhas  |  29.06.2020

Resenha: Felicidade Conjugal – Lev Tolstói

Felicidade Conjugal conta a história de amor entre Mária Aleksândrovna e Sierguiéi Mikháilitch de, respectivamente, 17 e 37 anos. Aqui, gostaria de fazer uma observação: sim, sabemos que nos tempos atuais seria um relacionamento repugnante por questões óbvias – a garota é menor de idade e Mikháilitch já é um adulto. Porém, é necessário fazer um recorte histórico para entender a obra, e claro, não julgá-la de primeira: em 1859, quando a obra foi escrita, esse tipo de relacionamento era supercomum.

Resenha: Felicidade Conjugal - Lev Tolstói

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

No começo, até simpatizei com a protagonista, porém, por ser muito nova e viver em uma época em que expor seus sentimentos não era tão fácil, ela acaba se tornando bastante indecisa, insegura e imatura, absorvendo de seu pretendente todos as suas experiências.

“Todos os meus pensamentos, todos os meus sentimentos de então não eram meus, eram pensamentos e sentimentos dele, que de repente se tornaram meus, passaram para a minha vida e iluminaram-na”. (p. 25)

Além disso, por se passar numa época em que as mulheres não conversavam abertamente sobre assuntos íntimos, muitas vezes vemos que a protagonista não consegue entender e nem lidar com suas emoções.

“Então ainda não sabia o que era amor, pensava que isto podia ser sempre assim e que este sentimento nos era dado gratuitamente”. (p. 27)

No começo do relacionamento entre Mária Aleksândrovna e Sierguiéi Mikháilitch o que vemos é um carinho desajeitado, um amor que se contenta em servir, em ser “o melhor para o outro” mas que, como sabemos, não é possível que dure por muito tempo.

“Somente agora eu compreendia o porquê das suas palavras, no sentido de que a felicidade consiste unicamente em viver para outrem, e agora concordava plenamente com ele” (p. 45)

O livro é dividido em duas partes, na primeira, a pureza e o amor idealizado são destaques da narrativa, como podemos observar nos trechos apaixonados acima. Porém, tudo muda na segunda parte.

“Até o casamento, as nossas relações exteriores continuaram as mesmas de antes, não nos tratávamos por tu, ele não me beijava sequer a mão, e não só não procurava, mas até evitava ficar comigo a sós”. (p. 52)

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A vida a dois passa rapidamente de algo lindo para uma fonte de tédio. As diferenças entre o casal se tornam notórias e “apenas amor” já não parece o suficiente para lidar com as situações rotineiras, os afazeres domésticos, ainda mais para alguém “tão jovem e cheia de vida“, como Sierguiéi afirma sobre sua esposa.

Resenha: Felicidade Conjugal - Lev Tolstói

FOTO: Melissa Marques | Resenhas à la Carte

“O pior para mim estava no fato de que eu sentia como, dia a dia, os hábitos da vida acorrentavam a nossa existência numa forma determinada, como o nosso sentimento se tornava não livre, mas submetia-se à fluência regular, desapaixonada, do tempo”. (p. 71)

A partir daí, os dois passam a viver no mesmo espaço, mas praticamente em mundos diferentes (aqui não vou comentar muito sobre os acontecimentos, para não dar detalhes da história), mas vale dizer que, apesar de dividirem o mesmo teto, Mária e Sierguiéi parecem não se reconhecer mais.

“Ah! Então é este o poder do marido – pensei. – Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa. Nisso é que consistem os direitos do marido, mas eu não me submeterei a eles“. (p. 86)

Um destaque da escrita de Tolstói é a forma como ele “encarna” o texto de uma personagem feminina, não deixando Felicidade Conjugal clichê e, até mesmo, criando com o tempo uma personagem teimosa e, ao mesmo tempo, dona de si. Egoísta? A interpretação fica por conta do leitor, como podemos ver nos trechos destacados acima e abaixo.

“Serei eu pior que as outras mulheres? Mas o que farei? Amo o eu filho, mas não posso ficar sentada com ele dias a fio, tenho tédio; e de modo algum vou fingir“. (p. 93)

Felicidade Conjugal é uma novela curta que, ao mesmo tempo, traz uma carga emocional bem ampla. Trata sobre as diferentes facetas do amor – o amor adolescente, a paixão, o amor maduro, a perda e a reconquista do amor – de forma sutil.

E uma curiosidade sobre o livro: Felicidade Conjugal foi uma das obras escolhidas por Cris McCandless (Alexander Supertramp) durante seu exílio no Alasca. Se você quiser conferir quais foram os outros livros da lista, é só clicar aqui.

Nota:

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