Resenhas  |  01.09.2021

Resenha: Espelho Partido – Mercê Rodoreda

O livro Espelho Partido, de Mercê Rodoreda, é um retrato de gerações da família Valldaura. Os personagens marcantes, cheios de segredos, angústias e complexidades, se enquadram na incrível descrição de Tolstói, em Anna Karênina: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

Acompanhamos o dia a dia de uma família disfuncional, infeliz à sua maneira, com amarguras do passado e paixões avassaladoras. O livro é uma colcha de retalhos, um espelho fragmentado, com pedaços que não se encaixam. Mercê Rodoreda faz questão de mostrar a intimidade dessas pessoas, mesmo que por um instante fugaz.

Resenha: Espelho Partido - Mercê Rodoreda

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Veja a sinopse do livro:

Em Espelho Partido, a escritora catalã faz um romance de personagens aparentemente comuns, mas com o peso de nostalgia que carregam todos aqueles que vivem com intensidade. Não são bons nem maus: como as pessoas que passam ao nosso lado todo dia da semana. E têm seus segredos.

O cenário dessa trama é Barcelona. Lá vive a família Valldaura, de quem o leitor vai se tornando íntimo ao ouvir os cochichos das criadas: há uma moça que se suicida em Viena, um filho em segredo, uma amante cançonetista, uma filha bastarda, fratricídio. A protagonista é Teresa Goday, depois Teresa Valldaura, e pode figurar na lista das mulheres marcantes da literatura ao lado de Úrsula Buendía, de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.

Do começo promissor, quando era “uma beleza que ajudava a mãe a vender peixe, mas preparada interiormente para subir de nível” até assumir a mão forte de matriarca, a saga de Teresa Goday e de sua família é recortada e montada como uma colcha de retalhos pelos empregados, pelos filhos e pela casa, desgastada pelo tempo, por traições e por mortes.

Recebi esse livro na edição de julho da TAG Curadoria e achei o começo fascinante. Afinal, sou apaixonada por histórias de famílias disfuncionais, ainda mais com influências de Gabriel García Márquez. Durante a leitura, também senti uma pontinha de O Som e a Fúria, de William Faulkner.

O estilo da autora é lírico e as descrições de Barcelona (de um período pré e pós guerra civil espanhola) são belas. Além disso, é possível sentir o cheiro das flores e das árvores. Inclusive, a amoreira do palacete dos Valldaura pode ser considerada uma personagem da história, tamanha sua influência nos acontecimentos da trama.

Espelho Partido é dividido em vários pequenos capítulos, cada um sob o ponto de vista de um personagem. É um romance polifônico, diversas vozes se misturam para trazer novas perspectivas. A figura central é Teresa, uma mulher imponente, a matriarca da família, cujo passado misterioso ninguém conhece. Entretanto, sua filha Sofia, a empregada Armanda e o “senhorzinho Eladi” também são peças-chave na história.

O livro é composto de tragédias, com várias mortes, pessoas que vêm e vão, acidentes cruéis. A passagem do tempo também é abrupta: de repente, já passaram-se 20 anos e temos uma nova geração da família.

A leitura flui facilmente, pelo menos até metade do livro. Depois, confesso que fiquei com vontade de desistir. São muitas descrições de bosques, flores, árvores, paisagens no geral, que enriquecem o livro, mas não fazem meu estilo. Além disso, os personagens são muito difíceis de simpatizar. Eu não conseguia me interessar pelos problemas de nenhum deles e, por vezes, até torcia para que algo desse errado.

Resenha: Espelho Partido - Mercê Rodoreda

Foto: Isabela Zamboni/Resenhas à la Carte

Com exceção de Teresa e Armanda, os outros personagens são frios, maldosos e arrogantes. Muitas traições, mentiras, covardias, situações em que eu não conseguia seguir em frente. Rodoreda se esforça para criar uma literatura autêntica catalã, consegue transmitir a sensação de nostalgia e de memórias distorcidas, mas a falta de carisma deixa a desejar.

Se você gosta de histórias fragmentadas, com famílias problemáticas, extensas descrições e um estilo literário elegante, vai adorar Espelhos Partidos. Se assim como eu, prefere se identificar ou gostar de algum personagem, ou tem preferência por romances psicológicos e com descrições mais sucintas, pode se desapontar com a leitura.

NOTA:

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